A Academia de Música Fernandes Fão comemorou este ano 30 Anos de existência, celebrados no Cineteatro dos Bombeiros Voluntários de Vila Praia de Âncora com a presença do ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues.
Nesta nova fase da vida da academia sediada em Vila Praia de Âncora, e quando se prevê que em 2021 entre em funcionamento a sua nova sede na zona escolar da vila, contemplando um auditório que servirá os interesses desta escola e os da EB1, falamos com Fernando Segadães, presidente da AMFF desde Agosto de 2014, acabando em breve o segundo mandato.
A AMFF possuiu 1595 alunos distribuídos pelos polos de Vila Praia de Âncora (sede), Caminha, Ponte de Lima e Vila Nova de Cerveira.
P: Quais os ciclos de ensino existentes nos quatro polos?
R: Em Caminha e Vila Nova de Cerveira há alunos do pré-escolar e 1º ciclo, a par das iniciações musicais em todos eles, e o ensino articulado desde o 5º ano ao 9º, e o secundário.
P: Foi difícil conseguir o paralelismo pedagógico?
R: Sim, no início foi difícil conseguir o paralelismo pedagógico, mas acabou por ser atribuído e hoje em dia todas as academias já possuem autonomia pedagógica. Nessa altura, estávamos dependentes do Conservatório de Braga para leccionar até ao 12º ano, o que já não sucede agora com a autonomia conseguida e, inclusivamente algumas academias já estão a mudar o nome para conservatório. O ensino artístico universitário é igualmente uma realidade para aqueles que pretendam enveredar pelos estudos superiores.
P: A Academia de Música Fernandes Fão está a funcionar bem?
R: Sim, estamos bem. Economicamente estamos equilibrados e financeiramente também. Já somos reconhecidos pelos nossos parceiros como uma referência no ensino da música, não só pelo número de alunos, mas também pela qualidade do ensino, contando actualmente com 54 professores devidamente habilitados em cada instrumento, devido ao rigor que é seguido. Além dos professores de música, temos dois professores do ensino regular que vêm cá dar aulas de alemão e italiano por causa do canto, e outro de história da cultura e da arte.
P: Há uma grande variedade de instrumentos musicais?
R: Temos quatro instrumentos de cordas: violino, viola de arco, violoncelo e contra-baixo. Nas madeiras temos saxofone, clarinete obué e flauta. E nos metais há trompete, trombone, tuba e trompa, além de piano, guitarra e acordeão, a par dos de percussão.
P: Existem preferências por parte dos alunos quando escolhem os instrumentos?
R: Há factores que determinam essas opções. Em Ponte de Lima, por exemplo, concelho onde existem quatro bandas de música, há uma tendência maior para os instrumentos de sopro porque desde pequenos que andam nas escolinhas de música. Noutros pontos, como é o caso de Vila Praia de Âncora e Caminha, a opção recai mais nas cordas. Refiro, no entanto, que quase metade de banda de Lanhelas são nossos ex-alunos.
P: Após frequentarem a AMFF, qual é a percentagem dos que seguem a carreira universitária na área da música?
R: São muito menos, mas em Ponte de Lima já há muitos a optarem pela música. Temos 16 alunos de secundário, e são esses que irão prosseguir os estudos nesta área.
P: Com que apoios contam para manter a AMFF em funcionamento?
R: Do Estado recebemos anualmente 1,2 milhões de euros, acabando por atingir 1,5 milhões, com as propinas pagas pelos alunos e com os protocolos existentes com as câmaras municipais.
P: Como adquirem os instrumentos? É com essas verbas?
R: Sim. O dinheiro recebido incluiu uma parte para compra de instrumentos, embora possamos candidatar-nos, esporadicamente, para aquisição do instrumental, como sucedeu em 2012, quando ainda não estávamos na direcção, em que investimos cerca de 100.000€.
P: Os atrasos que se faziam sentir nas transferências de verbas da parte do Estado estão ultrapassados?
R: Sim, durante todo o mandato deste ministro, foi pago sempre antes de o prazo terminar, o que nos permite fazer uma boa gestão de tesouraria e tapar buracos que vêm do passado e que temos cumprido.
P: Desses casos provenientes do passado, estão todos resolvidos?
R: Há apenas três casos com antigos professores que ainda estamos a pagar e que terminam dentro de um ano, relativamente aos quais foi possível estabelecer sempre acordos, sendo que um deles, com um funcionário apenas tinha a ver com antiguidade.
P: Existia um contencioso com a antiga directora. Está resolvido?
R: Fizemos um acordo para lhe pagarmos os salários em atraso, e já pagamos tudo, mas temos um processo que já foi julgado e nos foi favoráel, tendo já havido dois recursos que continuaram a ser favoráveis à Academia, envolvendo 20.560€ e cujo prazo está agora a terminar, devendo pagar-nos esta verba mais os juros à taxa legal em vigor e esperamos tranquilamente que isso fique resolvido.
Instalações novas em V.P. Âncora e V. N. Cerveira
P: Em termos de instalações, há perspectivas de que para 2021 venham a desfrutar de uma nova sede em Vila Praia de Âncora.
R: Eu penso que o ano lectivo de 2021/22 o devamos já iniciar nas novas instalações. O financiamento é do Portugal 2020 (1,5 milhões de euros) mais a parte da Câmara que equivalerá a 250.000€. E em Vila Nova de Cerveira haverá também novas instalações com um financiamento de 1,4 milhões de euros mais a parte correspondente à Câmara Municipal, devendo atingir 1,8 milhões de euros, tendo sido já assinados os respectivos contratos. Este polo será instalado num espaço onde existem hoje uns anexos junto ao pavilhão gimnodesportivo, perto da Escola Preparatória e Secundária, como nós queremos, para que os pais não tenham que andar com os miúdos de um lado para o outro.
Cada escola terá 12 salas de instrumento, uma de percussão, um estúdio, uma sala polivalente adaptada para orquestra e coro, três salas de formação musical, além de secretaria, gabinete de direcção e outro para receber os pais.
Creio que apenas aguardam pela luz verde da DGEstE, dado que os projectos já se encontram prontos, devendo as candidaturas dar entrada até ao dia 30 deste mês. No caso de Cerveira, o autor é o arquitecto António Calvão e em Vila Praia de Âncora é o arquitecto camarário João Brás.
No caso de Vila Praia de Âncora, haverá um auditório com cerca de 200 lugares que será utilizado pela AMFF, pela EB1 e população, e em Vila Nova de Cerveira terá 120 lugares a fim de ser utilizado apenas por nós e pelas escolas.
P: Nos dias de hoje, qual é a motivação dos miúdos e jovens para enveredarem pelo ensino da música?
R: Noto que tem melhorado muito nesse aspecto. Dou como exemplos dois bons alunos de Vila Praia de Âncora, sendo que um deles foi o que entrou com melhor nota no ensino superior de música (a nível universitário) e ainda este ano entrou outro que ficou entre as três melhores classificações. Ambos entraram no ESMAE, Porto, e que é a escola mais emblemática do país no ensino da música.
Além do mais, tem-se quebrado aquele tabu ou relutância dos pais em deixá-los irem para o Secundário com opção pela música.
Há que referir ainda que já temos vinte ex-alunos que são actualmente professores de música, alguns deles na própria AMFF.
P: Com se tem processado a ligação da AMFF à comunidade?
R: Nós temos muito claro que os nossos dois principais parceiros são as câmaras e os agrupamentos, e funcionamos muito bem com os seis com quem trabalhamos (quatro em Ponte de Lima, um em Cerveira e outro em Caminha) e com as câmaras também. E a prova disso é que Ponte de Lima já nos deu umas instalações óptimas, e agora vai ser em Vila Praia de Âncora e Cerveira, contando ainda com um novo processo relacionado com as instalações do polo de Caminha, porque precisam de ser aumentadas e feitas algumas obras. Creio que com o tempo o conseguiremos.
P: Há perspectiva de um novo espaço?
R: Só se nos encostássemos à Escola Preparatória e Secundária de Caminha, o que seria o ideal, mas no local actual também não está mal, só precisávamos de um aumento para mais três salas, o que nos dava muito jeito e até chegaram a ser iniciadas. Creio que com o tempo o conseguiremos, porque há vontade para o fazer por parte da Câmara, mas compreendo que neste mandato serão muitos milhões que ela vai gastar com a educação.
P: Mas ainda quanto a actividades junto da comunidade….
R…o nosso plano de actividades nunca é fechado e pode haver sempre uma sugestão de colaboração. Temos colaborado com todas as câmaras e escolas, com o Orfeão, a Bienal de Cerveira e até com o Festival de Vilar de Mouros, como sucedeu com o AMFF in concert, apresentado em Caminha e Vila Nova de Cerveira. É pena que o Festival de Vilar de Mouros coincida com as férias de Agosto, altura em que os alunos estão de férias, porque até poderíamos apresentar este concerto durante o próprio Festival.
Recordo ainda os quatro concursos que organizamos: Em Vila Praia de Âncora, o Concurso de Cordas Fernandes Fão, em Caminha o Concurso Internacional de Piano, em Ponte de Lima, o Concurso Internacional de Sopros e em Vila Nova de Cerveira o Concurso Internacional de Guitarras. Além disto, organizamos inúmeras master-classes, o Piano Forum em Caminha e Vila Praia de Âncora, durante cindo dias, nas férias da Páscoa, graças aos protocolos estabelecidos com universidades italianas, bielorussas, russas e espanholas.
Neste ano lectivo teremos pela primeira vez um evento semelhante virado para instrumentos de cordas e sopro, com a deslocação até cá de professores alemães e com a participação dos nossos.
Os work-shops estão também presentes nas nossas actividades, sendo exemplo disto o que estamos a preparar sobre doenças (lesões, como as tendinites e as que surgem nas unhas) relacionadas com a actividade da música.
P:Como encara o futuro da Academia? Com tranquilidade?
R: Estamos bastante optimistas. Para o ensino artístico foi muito boa a continuidade do ministro da Educação, porque sempre esteve ao nosso lado, entende-nos e sabe da importância que pode ter para o país a educação no ensino artístico.
Todos os anos aumentou o número de alunos na AMFF e com as novas instalações, tanto em Cerveira, como aqui, as perspectivas são as melhores.