Para memória futura, porque esta actividade piscatória findou no rio Minho, e também porque, infelizmente, é já reduzido o número de pessoas que a exerceram que estão vivas, entendo por pertinente esclarecer as imprecisões de um artigo publicado neste jornal, da autoria de Carlos Rego Fernandes, sob o título "Memórias da pesca do sável no Rio Minho".
Eu próprio exerci a actividade de pescador do algerife, nos longínquos anos 50, mais precisamente de 1957 a 1959, tendo como arrais do barco o meu avô, António do Espírito Santo Sousa Veiga, que também era chefe da Quebrada do Sousa, como era conhecida.
Depois desta breve introdução e seguindo a ordem do artigo publicado, afirma o autor que "a pesca do sável era toda a noite".
Esclareço que a pesca do sável era contínua, de dia e de noite. Entre o nascer e o pôr-do-sol era efectuada pelo algerife e durante a noite pelo tresmalho. O astro-rei é que ditava o início e o fim das duas modalidades de pesca.
Não havia nenhuma hora marcada para efectuar os lanços. Ao chegar um barco, imediatamente outro partia de forma a que o canal do rio estivesse permanentemente coberto com a rede, acção essa que tinha como finalidade intersectar a passagem dos cardumes e naturalmente a sua pesca.
Esporadicamente, no porto da Torre, aproveitando a praia-mar e o curto intervalo temporal entre a subida e a descida da maré, e porque o canal do rio se alargava nesta fase, procedia-se à junção de duas redes, duplicando dessa forma a sua cobertura, ficando o barco que efectuou o lanço fundeado e ligado à extremidade desta até ao início da vazante. Logo que esta se iniciava, regressava a terra e procedia-se à recolha da rede.
Voltando a citar o autor: "havia Quebradas que apanhavam 2 ou 3 mil sáveis numa só noite". Então se o algerife era diurno e o tresmalho nocturno, como se consegue fazer uma afirmação deste teor?!
As redes eram lançadas na sua totalidade e como o canal por onde passava o sável ficava por vezes afastado do porto, era ligada à rede uma ou mais cordas, prolongando a sua extensão; estas cordas eram designadas por rabeiro, ficando um homem a segurar a sua extremidade.
Recordo que no porto da Torre, estando a Quebrada do Sousa a exercer a sua faina, sob o comando do meu avô, foram pescados numa tarde largos milhares de sáveis. Às pessoas de Caminha que iam assistir a esta fantástica safra (recordo que o porto da Torre tinha ligação a terra firme) eram oferecidos sáveis, pois eram tantos que os barcos tinham que ir descarregar ao cais da Vila e regressar de seguida.
O responsável pelo registo dessa safra, com o título de roleira (equivalente a tesoureiro), era o António Martins Cavalheiro, já falecido.
Finda a década de cinquenta, o algerife entrou em declínio e as safras foram-se reduzindo até deixarem de ter qualquer rentabilidade, o que conduziu naturalmente à sua extinção.
DESIGNAÇÃO DOS PORTOS
As zonas para o algerife, designadas por portos, de montante para jusante, eram as seguintes:
- Varandas, porto internacional, em frente a Lanhelas;
- Morraceira, porto nacional, em frente a Seixas. Chegou a ter proprietários e registo
predial rústico;
- Pontal, porto nacional, entre o cais de São Sebastião e São Bento, em Seixas;
- Grilo, porto internacional, em frente às Pedras Ruivas, em Seixas;
- Canosa, porto internacional, em frente à Pasage, na Galiza;
- Cabra, porto internacional, em frente a Camposancos, na Galiza;
- Sapinho, porto internacional, em frente a Camposancos, na Galiza;
- Pontilhão, porto nacional, junto às pedras do Courão, em frente ao cais de Caminha;
- Torre, porto nacional, em Caminha;
- Robaliceira, porto nacional, em frente ao Camarido.
Registo que nos portos considerados internacionais, os lanços eram intervalados entre galegos e portugueses e a totalidade da safra era dividida equitativamente, sendo a maioria das Quebradas Galegas oriundas do Rosal.
Com o decorrer do tempo alguns dos portos mencionados deixaram de ser utilizados dada a pouca rentabilidade que as Quebradas usufruíam na sua utilização, originada pelo assoreamento dos canais, tais como Varandas, Pontal, Grilo, Pontilhão e Robaliceira.
Antes do início da safra, os chefes das Quebradas reuniam-se com o Capitão do Porto, na Capitania de Caminha, local onde se procedia ao sorteio do número atribuído às Quebradas, número esse associado aos portos, definindo-se dessa forma o calendário da pesca que se iniciava de montante para jusante.
Recordo-me do nome de algumas Quebradas, como:
- Sousa, de Caminha;
- Escusa, de Vilarelho;
- Viriato. Foi faroleiro na Ínsua;
- Vila Praia de Âncora, composta na totalidade por pescadores dessa localidade;
- Rua, assim designada pela maioria ser da Rua dos Pescadores;
- Jácome, mais tarde substituído pelo Manuel Cairrão, de Coura-Seixas;
Há um painel de azulejos na Estação dos Caminhos de Ferro de Caminha que ilustra a faina do algerife no muito antigo porto da Boalheira, sendo visível a vertente norte do Lugar de São Sebastião, em Seixas, painel esse que suponho ser do primeiro quartel do século XX.
Esta informação, que retrata momentos da minha vida na adolescência, reproduz na íntegra o que existe actualmente na minha memória, contribuindo para que os vindouros tenham conhecimento da actividade piscatória no Rio Minho, no Concelho de Caminha, relacionada com o algerife nos anos 50 do século XX.