Após a edição do livro "Há estórias de casas e casas com história - Externato de Santa Rita de Caminha", de Rita Bouça, chegou à nossa redacção um e-mail de um antigo estudante dessa escola nos anos 60 do século passado, recordando episódios vividos por ele próprio e colegas da sua época.
Publicamos nesta edição esses relatos, de diferente cariz, e que poderão servir como estímulo para que mais ex-alunos venham a revelar outras vivências ("estórias"), das diferentes gerações de jovens que passaram por esta casa "com história".
Recorde-se que juntamente como este livro, foi editado um DVD (colocado na parte de trás contracapa), em que antigos alunos e professores falam da sua experiência e dos momentos que passaram no Externato de Santa Rita de Caminha.
NOTA: Este livro poderá ser enviado por correio para os interessados residentes fora do concelho de Caminha, através de cobrança (17€), ou por correio azul (14€) após pagamento prévio. Mais informações através do email: caminha@caminha2000.com ou 258 922 138.
Meu caro Luís Almeida.
Já li o livro. Dá resposta às perguntas que fazíamos quando éramos alunos do Externato e nos interrogávamos: quem seriam os donos daquela enorme e bonita casa?
Ninguém sabia. A autora Rita Bouça deu essa resposta. Eu, passados 60 anos, sei agora, que ali era a "Casa da Rocha".
Como estabelecimento de ensino era um edifício com poucas condições, até porque tinha muitos anos, não tinha tido intervenções a nível de construção, para melhorar os espaços. Mas tinha suprimido uma carência a nível de ensino que existia na época, entre Valença e Viana do Castelo.
Sala de fumo
Recordo que a casa de banho era um anexo, em que um pequeno rego de água, funcionava como esgoto onde a malta se servia em linha sem o mínimo de privacidade.
A dita cuja, também servia de Inverno e Verão, como sala de fumo onde os maços de tabaco, Provisórios, Definitivos ou Kentucky voavam de mão em mão ou de boca em boca (nos tempos de maior escassez) dentro do maior espírito democrático e solidário.
O livro e o vídeo centraram-se na casa e professores. Talvez numa próxima oportunidade o Caminha 2000 e a autora tragam a lume aqueles para quem foram a essência do Externato: OS ALUNOS. Foi naqueles primeiros anos que ali se iniciaram para a vida e nas mais variadas profissões jovens que devido às suas capacidades e oportunidades tiveram atividades de muito prestígio e responsabilidade.
Mas, no princípio dos anos 60, estava no auge a ditadura Salazarista, com o principio da guerra colonial, movimentos contra o regime, onde Caminha era visto como uma terra do contra, o Externato, pelos seus responsáveis, encarnava na perfeição o princípio daquela máxima que era o respeito pelo Pai, Padre e Professor usando métodos, que tinham mais à mão ou até na biqueira do sapato, como era o caso do inesquecível professor Monteiro. No prefácio do Jorge Fão, com muita oportunidade frisa: "Pese embora alguns exageros que eram cometidos nas práticas pedagógicas então seguidas e nos modelos de disciplina impostos, o Externato de Santa Rita foi, na sua época, uma marcante experiência de escola de e para a vida".
Solidariedade com colega
Mas nesses tempos havia um enorme sentido de camaradagem e amizade, algumas para a vida toda, mas também atos de rebeldia.
Recordo-me de uma tragédia no mar com o naufrágio de dum barco de pescadores que entre outros vitimou o pai de um colega nosso o Américo. No dia seguinte, alguns amigos fomos visitá-lo a casa, na Rua dos Pescadores, onde o nosso amigo chorava, pois já era órfão de mãe e lamentava-se por não poder voltar ao Externato por falta de meios. Ao chegarmos ao colégio, transmitimos aos professores a mensagem do Américo, pelo que logo ali ficou decidido que o aluno continuaria sem qualquer encargo. Foi um momento de grande sentido humanitário que os diretores deram. Nós ficamos felizes por podermos continuar com o Américo.
Deserção
Outro momento que ficou para a história do Externato, foi um acampamento da Mocidade Portuguesa, nas férias da Páscoa, durante uma semana, onde participavam jovens de todo o distrito.
Ficou decidido que iam participar no acampamento, eu, Chico Sobrosa, Tó Jão Matos, Zeca Pereira da Silva, Fernando Barata e um aluno já meio adulto, graduado da MP, chefe da comitiva, o Ivo. No domingo, dirigimo-nos para Viana, onde se formou uma grande parada. Daí fomos para umas instalações da Inatel que existiam no Cabedelo. Quando chegamos, foram montadas tendas para dormir. Um grande toldo cobria uns fogões e grandes panelas, onde militares do BC9 cozinhavam. Aconteceu que essa semana do mês de Abril foi de chuva e frio. A par de um ou outro exercício militarizado, havia palestras pelos jovens comandos da Mocidade e de outros responsáveis da estrutura. Tudo se resumia, como hoje se diz: Uma enorme seca. A isto juntava-se o frio da noite nos ditos aposentos da tenda, acompanhados da fome, com a comida intragável, que íamos colmatando com uns chocolates e uns sumos numa cantina que aí existia. Na 4ª feira à noite, na tenda, os quatro, à revelia do Ivo, decidimos DESERTAR. Juntamos os tostões para o comboio. Na quinta feira de madrugada, fizemos um buraco no terreno arenoso que sustentava a rede que vedava o recinto, e pelo meio das matas do Cabedelo, para não sermos apanhados, dirigimo-nos à estação de Viana. Entramos no primeiro comboio que saiu para Caminha, onde chegamos sujos, cansados e esfomeados.
Dias depois, entra o Reitor, Padre Vaz, numa sala de estudo, com o braço levantado com uma carta /oficio na mão, a qual lamentava a nossa atitude porque tínhamos infringido os princípios da disciplina e desprestigiado o Externato de Santa Rita de Caminha. Fomos ameaçados com castigos exemplares, mas que nunca chegaram à prática. Um jornal de Viana do Castelo, através dos comandos da Mocidade Portuguesa, vieram, num artigo, elogiar as virtudes do evento, mas nas entrelinhas, lamentar que tinha havido um ou outro ato de indisciplina. Nós, jovens, fomos protagonistas, ainda que duma forma inconsciente, dum ato de rebeldia numa altura que a disciplina era uma imagem de marca do País e dos estabelecimentos de ensino. Muitas outras histórias há. Passados 60 anos, o autor deste livro e os alunos e professores que intervieram no filme avivam-nos memórias.
Desse tempo ficaram amizades. Uma vontade de voltar, e sempre que me é possível passear por Caminha, como se fosse no princípio dos anos 60.
Parabéns à Rita Bouça e Luís Almeida. A todos os colegas dessa época um enorme abraço, com uma enorme saudade dos amigos que já partiram e não têm a possibilidade de ler O Vosso livro e partilhar estas histórias.