JORNAL DIGITAL REGIONAL CAMINHA 2000 JORNAL DIGITAL REGIONAL CAMINHA 2000

Corino de Andrade: Um médico ilustre na estância balnear de Moledo

O médico neurologista Corino de Andrade (1906-2005) foi a referência para mais um debate promovido pelos Amigos da Rede de Bibliotecas de Caminha na tarde do dia 25 de Outubro, na Biblioteca Municipal de Caminha.

Figura destacada da medicina portuguesa, descobridor e investigador da doença degenerativa da paramiloidose (mais conhecida pela doença dos pezinhos), foi frequentador da estância balnear de Moledo durante muitas décadas, onde tinha uma casa alugada perto da de António Pedro, com quem convivia frequentemente.

Muitos pormenores da sua vida académica no campo da medicina foram trazidos à actualidade pelo escritor Mário Cláudio, o neurologista António Martins e Sobrinho Simões, moderador do colóquio.

A sua curiosidade por tudo o que rodeava ("perguntava sempre porquê", frisou Sobrinho Simões) foi destacada nesta sessão, sendo revelada a sua personalidade rigorosa com os próprios colegas e alunos, conhecidos nos meios académicos pelos "corinos".

O facto de levar a(s) mão(s) constantemente atrás da cabeça, era, provavelmente, porque "antes de agir, tinha de pensar", justificou António Martins este gesto característico de uma pessoa "muito simples". Adorava cozinhar e detestava os "pomposos e os burros (estúpidos)", a par de ser um "libertário" com a educação dos filhos, a quem tentou sempre libertá-los dos "medos".

A sua filha Mali recordou outros pormenores do seu percurso de vida, como quando foi preso pela PIDE na estação de S. Bento, permanecendo detido durante um ano, numa cela húmida o que lhe causou problemas respiratórios. Chegou a ser proibido de ler na prisão, o que o levou a pedir à mãe que o ensinasse a fazer tricot a fim de se entreter. Quando a polícia política o acordava a meio a noite a fim de o submeter a interrogatório, fazia questão de se vestir devidamente, o que lhe permitia ainda preparar-se para as perguntas que eventualmente lhe iriam fazer. Teria sido por intermédio do cirurgião Bissaia Barreto, de Coimbra (com quem viajava de combóio, procedente do Porto, desde essa cidade - onde ele entrava -, até Lisboa) que acabaria por ser libertado.

Foi amigo de Rui Luís Gomes e Abel Salazar, figuras da resistência ao regime de então e, quando jovem, militou no MUD juvenil. Era ateu, mas a sua mulher era religiosa.

Da sua passagem por Caminha e Moledo, ficaram as sus longas leituras deitado numa cama de lona amarrada a dois pinheiros do Camarido, com opção pela literatura espanhola (António Machado p.e.), muita dela adquirida nas suas deslocações a Espanha, revelou a sua filha Mali.

Esses meses desfrutados com a família em Moledo, serviam-lhe para desligar do bulício da cidade e da actividade médica, embora nem sempre fácil de concretizar.

Segundo exemplificou Paulo Bento, um dos fundadores desta Rede de Amigos das Bibliotecas, durante esse tempo, Corino de Andrade recebia imensos telegramas de inúmeras pessoas relacionados com diversos assuntos. O chefe dos Correios de Moledo foi durante longas décadas Jorge Fão. Quando recebia essas mensagens, chamava seu filho também de nome Jorge, boletineiro improvisado e que as ia entregar a casa do veraneante famoso, tarefa que fazia com inteiro agrado, porque lhe dava sempre vinte e cinco tostões, uma pequena fortuna para uma jovem daquela época, contou Jorge Fão (filho) a Paulo Bento.

Paulo Bento referiu ainda outra ligação de Corino de Andrade a Caminha, através da sua amizade prolongada com o arquitecto vilarmourense José Porto, estabelecida nos anos 38/39, apesar deste ser entre a 10 a 15 anos mais velho. O médico viveu durante algum tempo numa casa do arquitecto, situada na Trav. de Stª Catarina, no Porto, e alguns dos móveis do recheio do seu quarto foram desenhados por José Porto, completou sua filha Mali.

Paulo Bento adiantou como eventual causa do relacionamento entre ambos, o facto de a primeira mulher de Corino de Andrade ser luxemburguesa e a de José Porto, francesa.

"Veio para Moledo descansar e apanhar iodo"

Mali, recordando pormenores da estância de seu pai em Moledo - para onde viajavam de comboio - referiu que ele não apreciava as ondas e a areia, pelo que preferia ficar no paredão - conversando, muitas vezes com o senhor António, o banheiro -, ou se descia à praia, ia sempre vestido, de fato e laço, sapatos e chapéu.

João Caníjo, seu afilhado, recordou duas frases que Corino de Andrade enviara a seu pai: "Um médico que só sabe de medicina, nem medicina sabe" ; "Portugal e os portugueses não iriam aprender nada e iriam passar do subdesenvolvimento para a barbárie".



Edições C@2000
Do Coura se fez luz. Hidroeletricidade, iluminação pública e política no Alto Minho (1906-1960)"
Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000/Afrontamento
Apoiado pela Fundação EDP

Da Monarquia à República no Concelho de Caminha
Crónica Política (1906 - 1913)

Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000


O Estado Novo e outros sonetos políticos satíricos do poeta caminhense Júlio Baptista (1882 - 1961)

Organização e estudo biográfico do autor por Paulo Torres Bento
Edição: C@2000


Rota dos Lagares de Azeite do Rio Âncora

Autor: Joaquim Vasconcelos
Edição: C@2000


Memórias da Serra d'Arga
Autor: Domingos Cerejeira
Edição: C@2000

Outras Edições Regionais