"As crianças são como as flores no jardim e como os passarinhos no ninho quando estão ao colo das mães. As mães dão-lhes muitos beijinhos. Eu gosto muito de ser criança e rir e comer coisas boas que a minha mãe faz."
Esta era uma das redações que se faziam na escola, no tempo da inocência e que valiam ao aluno um Bom e um beijinho de parabéns pelo jeitinho que revelava na escrita. A minha professora primária gabava-me o jeitinho para escreve, mas beijinhos nunca me deu. Claro que eu não era merecedora disso. Hoje gostaria de escrever essas coisas lindas, mas falta-me a inocência, faltam-me as palavras, falta-me o jeitinho.
Como em frente à minha janela da cozinha há um jardim infantil, não me faltam as crianças e é um regalo ouvi-las como se de passarinhos se tratassem. Alegram-me mesmo as manhãs. O pior é depois na hora de almoço. As crianças que me aparecem no écran da televisão não andam de baloiço, não riem, olham-nos com ar mais que infeliz, e impedem que o meu caldo verde passe calmamente para o estômago. Não passa. As costelas salientes, as pernas finíssimas, os ventres enormes, gritam verdades cruas às minhas preocupações com varizes, com peles de galinha, com "a- vental" na barriga ou mamas caídas. Que mundo louco! Que mundo obsceno!
Perdoem-me os crentes em qualquer Deus, em qualquer religião, mas vem-me sempre à mente esta pergunta: " como é possivel existir algures um ser criador , bom, justo que vele por nós? Será cego, surdo aos pedidos de socorro destas crianças? " Faz parte do karma de cada um de nós, asseguram-me alguns. Mas... tanta criança má na outra encarnação? Não dá para acreditar. E as violadas, as maltratadas, estão a pagar o quê?
Calculo que esteja a ser inconveniente, politicamente incorreta. Desculpem, por favor. Repito as palavras do poeta.
"... mas as crianças, Senhor, porque lhes dás tanta dor? Porque padecem assim?"
Com efeito, considera-se neste trabalho, cujo tema central é a "Ética do Professor", a colaboração que ele poderá (e deverá) dar na preparação de um novo cidadão, que seja capaz de contribuir para a resolução de questões de natureza algo inefável e abstrata, mas que influenciam a vida concreta, material e objetiva do ser humano. Ser capaz de avaliar todas as hipóteses possíveis: as tradicionais e as que têm cobertura científica, mas também todas aquelas que podem constituir alternativa e caminho para as soluções, que tardam em aparecer, para os problemas sociais.
Será no âmbito da cooperação, entre os vários níveis do conhecimento, que se regista o aparecimento de uma nova "pedagogia não cognitiva", a qual possibilita a análise de diferentes hipóteses de solução para os vários problemas que obstaculizam o objetivo pelo qual o homem vem lutando: viver numa sociedade mais feliz, humanista, solidária, justa e segura.
Num contexto ecuménico tão complexo, o professor, qualquer que seja o nível de ensino/aprendizagem, certamente tem dificuldades em posicionar-se cultural, científica e tecnicamente, face aos seus alunos, a problematização da sua posição é mais evidente, quando é confrontado com decisões que envolvem o domínio ético, porque: entre a competência profissional; a observação das normas jurídicas aplicáveis; os legítimos interesses dos alunos e respetivos encarregados de educação; a imagem da Instituição em que está integrado e as normas deontológicas, provocam-lhe dificuldades acrescidas na consolidação de princípios, valores, interesses e sentimentos envolvidos em todo o processo.
Num mundo de situações, é suscetível vislumbrar-se, como é verdadeiramente pertinente, dir-se-ia, eticamente exigível, que todos estejam preparados para a vida real que, tanto dentro como fora das escolas, existe e, nesse sentido, se acolhe bem a estratégia segundo a qual: "A orientação prática prepara de forma mais concreta para a futura vida profissional, sugerindo pistas acerca do modo de relacionar e aplicar conhecimentos e, também, formas de agir e de resolver situações profissionais." (REGO, 2003:52).
Resulta que, um posicionamento ético-deontológico do professor, pressupõe a sua total abertura para acolher, dos seus alunos e encarregados de educação, as sugestões que sejam do interesse destes intervenientes, no que se relaciona com o estudo e prática de matérias que eles consideram como as mais necessárias para as suas futuras atividades profissionais, respeitando, obviamente, um curriculum mínimo nacional, fixado pelas entidades competentes.
Com igual posicionamento, ético-profissional, o professor deve, em princípio, e havendo acordo entre os alunos, negociar com estes, no início de cada ano escolar, os instrumentos e ponderações para as avaliações, naturalmente no respeito por critérios de justiça, e num quadro de absoluta legalidade, buscando, por esta forma, uma avaliação do aluno, o mais justa e abrangente possíveis: "Para realizar uma avaliação integral do aluno, isto é, para avaliar as várias dimensões do seu comportamento, é necessário o uso combinado de várias técnicas e instrumentos de avaliação, que devem ser relacionados tendo em vista os objetivos propostos." (HAYDT, 1997:313).
E se para o aluno, a avaliação deve constituir-se como estímulo, informação, orientação e prémio, e em circunstância alguma entendida como castigo ou rotulagem de incompetência, ou atraso mental; para o professor, trata-se de uma função complexa que lhe proporciona oportunidades únicas para aperfeiçoar seus procedimentos de ensino/orientação/tutoria, com um sentido orientador, em suma, sendo uma função complexa, ela é nobre, porque lhe proporciona a realização da sua própria introspeção: "…a auto-avaliação efectuada pelo professor é o seu momento de reflexão mais intensa, de encontro com as suas verdades, o seu conhecimento e a realidade caracterizada então pela sua prática com um determinado grupo de alunos." (KENSKI, in: HAYDT, 1997:319, citada por VEIGA, 1988:131-43).
A responsabilidade de quem avalia é inquestionável, porque de uma avaliação, justa ou injusta, pode depender o futuro de um jovem, de um profissional na sua carreira, da evolução individual e/ou coletiva de um grupo. Avaliar é julgar, e quem julga deve munir-se de todos os meios ao seu alcance, legais, irrefutáveis, verdadeiros e justos, com os quais formará, conscientemente, a convicção de que está a ser correto e equitativo.
A Deontologia Profissional do professor é fundamental no julgamento que vai fazendo dos seus alunos e, tal como o juiz, em processo judicial, que julga a partir dos factos, inequivocamente provados, e da convicção que forma em sua consciência, sobre o caso concreto em apreciação, podendo resultar danos incalculáveis, injustiças e consequências irreparáveis ao condenar um inocente, também o professor será responsabilizado pelo futuro de uma pessoa, de um grupo profissional e até de uma sociedade inteira.
Uma ética da justiça no sistema educativo, centralizada no aluno e no processo de avaliação, é essencial para a formação de cidadãos íntegros, competentes e justos. Na formação dos cidadãos do futuro, não há caminho que não tenha que passar pela trilogia: Educação-Aluno-Professor.
São estes os elementos fundamentais, entre outros, igualmente importantes, para uma nova sociedade. A responsabilidade é pesada para todos: sistema educativo nos seus organismos competentes; alunos quanto ao seu empenhamento; professores éticos-pedagogicamente competentes; encarregados de educação vigilantes e cooperantes; sociedade esclarecida e atuante. Bolonha e o Ensino Superior não devem ser ignorados, todavia, prudentemente aplicados e desenvolvidos, respetivamente.
Bibliografia.
REGO, Arménio, (2003). Comportamentos de Cidadania Docente: na Senda da Qualidade no Ensino superior, Coimbra: Quarteto Editora
HAYDT, Regina Célia Cazaux, (1997). Curso de Didática Geral, 4ª ed. S. Paulo: Editora Ática
VEIGA, Ilma Passos A., (Coord.), (1988). Repensando a Didática. Campinas SP: Papirus