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TRIBUNA
Espaço reservado à opinião do leitor

FELIZMENTE AINDA HÁ CRIANÇAS

Abalada até ao pior de mim mesma pelas notícias diárias das atrocidades que os adultos operam sobre as crianças, rumei hoje de manhã até à escola do lugar onde vivo, para ler uma história e conversar com a inocência.

Antes de começar, peço sempre ajuda aos pequenos ouvintes e sempre eles me dão boas e inesperadas lições. Sabe-me bem assistir às interpretações do que ouvem, às justificações das mesmas, ao desabrochar de ideias que bem encaminhariam o mundo se ele fosse governado por crianças. Hoje, disse-lhes que tinha ouvido num programa de televisão um senhor contar que numa povoação muito distante um menino perguntando ao chefe da aldeia a razão de pessoas muito boas serem capazes de actos maus e de pessoas muito más fazerem coisas muito boas, tinha tido esta resposta:

- " Dentro de cada um de nós vivem dois lobos, um mau e outro bom. Andam sempre em guerra."

- E quem ganha? perguntou o menino.

- " Aquele que nós alimentarmos melhor."

- " Vocês podem ajudar-me a entender esta resposta do chefe? É que eu não percebo. "

Alguns achavam que se déssemos fruta, legumes, coisinhas doces ao lobo bom ele ficaria com mais força para lutar e ganhar a guerra. Eu continuava a fazer cara de incrédula e há uma garota de seis ou sete anos que falou assim:

- " Se dermos carinhos e amor ao lobo bom, ele fica com mais força para derrotar o lobo mau!" Pasmei e comovi-me com aquela lição de bem conviver com os outros. Aprendi com aquela miúda que talvez se dermos ao Outro um carinho, um abraço, o mundo será melhor. Felizmente ainda há crianças para nos ajudarem a viver melhor.

Também vos quero dizer que esta lição em dias de rescaldo eleitoral veio mesmo a calhar. Fiquei mais calminha e menos agressiva para os que me rodeiam.

Obrigada, Eduarda.

Zita Leal



O Papel do Professor

O valor educação/formação é indissociável daquela qualidade de vida que todo o cidadão tem o direito de aceder, e todo o responsável político tem o dever indeclinável de promover globalmente, sem discriminações, sem elitismos, sem influências, obviamente, a partir da educação, porque: "A qualidade de vida está directamente relacionada às condições em que essa vida se desenvolve: medicina, psicologia, teologia, filosofia, engenharia, agricultura indústrias, desenvolvem actualmente um esforço ingente para atender ao clamor geral por melhores condições de vida." (FINKLER, 1994:8, in: PASCOAL, 2004:38).

Nenhum povo, nenhum país, nenhuma cultura, nenhuma civilização poderão desenvolver-se e enobrecer-se, respetivamente, sem este outro notável paradigma, tantas vezes e por tantos responsáveis esquecido ou, no mínimo, desvalorizado ao longo dos tempos: Educação/Formação para a convivencialidade societária, no respeito, na tolerância, na solidariedade e cooperação entre pessoas, povos e nações, porque: "Educação é formação de todos, em todas as oportunidades e espaços do quotidiano, ao longo da vida. (…) a educação torna-se efectivamente permanente: educação para uma vida cultural e socialmente multi-ativa em qualquer fase do percurso da vida dos indivíduos." (PINTO, 2004:151).

Podem-se construir, implementar e estabilizar: os paradigmas da objetividade, da quantificação, da reversibilidade, da previsibilidade, da universalização das leis científicas, enfim, com todas as características das denominadas Ciências Exatas, porém, o Mundo não terá paz enquanto os paradigmas das Ciências Humanas e Sociais, da Religião, da Filosofia, e das transcendências (sem dogmas, nem fundamentalismos) não forem assertiva e publicamente reconhecidos e integrantes da humanidade.

Com polémicas ou sem elas, goste-se ou não, afirme-se ou negue-se, o homem não terá, apenas, uma composição física, mensurável, determinada, concreta e objetiva, nem só sentidos, porque para além destas características e faculdades, respetivamente, outras imateriais existem: "Pensamentos e raciocínios são sentidos, porém mais sofisticados que os da visão, audição, olfacto, tacto, gosto, uma vez que são os atributos e determinantes maiores e essenciais da própria vida humana." (COLETA, 2005:14).

O insondável continua a existir no homem e incomoda técnicos, cientistas, materialistas, laicos, intelectuais e outras elites, obviamente, salvo honrosas exceções, entre eles. O contrário é, igualmente, verdade, a dimensão físico-imaterial existe, é reconhecida universalmente, inclusive por muitos daqueles que valorizam mais a dimensão imaterial, o psíquico, o sentimento, a crença convicta numa outra existência e transcendência, o tal insondável, o mistério que continua a ser o homem, dotado de alma e corpo, que continua angustiado, porque, em parte, ainda não sabe para onde vai.

Mas estes: conhecimentos, ou sensações, ou emoções, ou sentimentos, ou ainda, convicções profundas, também se ensinam (?), concretamente no sentido em que: "Ensinar é a atividade pela qual o professor, através de métodos adequados, orientará a aprendizagem dos alunos." (HAYDT, 1997:12), melhor ainda, também se aprendem (?). Se a resposta for afirmativa, quais os conteúdos, que estratégias, que metodologias, que pedagogias/andragogias, como avaliar a interiorização de tais competências, e a sua prática na vida concreta, objetiva, material e terrena?

E que professores são necessários, em termos da sua preparação, praxis e ética ou deontologia profissionais, se lhes deve exigir? Pode-se parar por aqui, porque de contrário os problemas avolumam-se e agravam-se, ao ponto de se ter que rejeitar toda e qualquer abordagem. E se o mundo material, natural e/ou artificialmente construído pelo homem, já é complexo, pese embora a mentalidade positivista ter pretensões de os resolver, outro tanto, seguramente, não se verifica com o mundo sobrenatural.

Estes dois mundos existem: o material e o imaterial; o físico e o espiritual; o fenoménico e o numénico, o que se quantifica e o que se qualifica; o que se objetiva e o que se subjetiva. Aceitando, sem preconceitos, sem superioridades, estas duas realidades, focalize-se a reflexão no mundo dos ideais, dos valores, da superior condição humana, assente na trilogia: Dignidade - Dever - Divindade.

São três aspetos que melhor podem caracterizar o homem, concretamente o homem que se considera titular de duas dimensões: em que uma, para o crente, é constituída à imagem e semelhança do seu Criador, isto é, da Divindade esta, por sua vez, causa primeira e última da existência daquele ser, ainda misterioso, insondável e fascinante, que é o Ser Humano.

Com a dignidade que lhe é própria, no sentido da respeitabilidade, da coerência e da tolerância e, usando do privilégio que é a sua transcendência, para a qual envia esta comensuração, também única, a da espiritualidade, no sentido do encontro com a perfeição da Divindade, aborde-se, então, a partir da dimensão educacional do homem, o papel de professor, o que significa, de facto, este ideal do Dever, precisamente no contexto de um sistema educativo globalizado, integral, aceitando, como inevitável, o ponto de partida em que a humanidade se encontra: ideologicamente materializada.

A dimensão educacional do homem implica, afinal: uma atitude facilitadora e recetiva para novas técnicas educativas; novas pedagogias/andragogia; novas didáticas; novas metodologias, enfim, novos objetivos. A predisposição e abertura ao ainda não científico, e ao não cognitivo, são um contributo importante para novas estratégias, novos compromissos.

A tolerância do cidadão-cientista deve ser correlativa com a sua humildade intelectual e, nesse sentido, pode aceitar, sem o preconceito positivista, outras abordagens, não tradicionais, mas, eventualmente, interessantes e até proveitosas na perspetiva educativa.

Uma nova "pedagogia não cognitiva" poderá constituir uma alternativa credível para a construção de uma sociedade mais humanista, mais afetiva e, nesta fase da evolução do conhecimento técnico-científico, que continua impotente para resolver determinados problemas do foro mais íntimo e dos valores mais ambicionados pelo homem, por que não dar uma oportunidade a outras leituras alternativas? Pode (e/ou deve) o professor enveredar por tais alternativas, conciliando-as com as já existentes?

Bibliografia.

COLETA, António Carlos Dela, (2005). Primeira Cartilha de Neurofisiologia Cerebral e Endócrina, Especialmente para Professores e Pais de Alunos de Escolas do Ensino Fundamental e Médio, Rio Claro, SP - Brasil: Graff Set, Gráfica e Editora

HAYDT, Regina Célia Cazaux, (1997). Curso de Didática Geral. 4ª Edição. São Paulo: Editora Ática

PASCOAL, Miriam, (2004). Qualidade de Vida e Educação, in: Revista de Educação PUC-Campinas, Campinas SP: PUC, Pontifícia Universidade Católica, N. 17, pp. 37-45

PINTO, Fernando Cabral, (2004). Cidadania Sistema Educativo e Cidade Educadora. Lisboa: Piaget

Diamantino Bártolo


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