A religiosidade popular estrutura-se numa cultura, numa classe social própria que possui a sua expressão específica. Assim, nasce de uma constante busca do ser humano no sentido de encontrar Deus. É a expressão da busca de Deus e da fé de cada modo de viver e estar no mundo. Encontramos o seu enraizamento numa cultura; não de saber intelectual profundo mas de uma cultura marcada por um conjunto de valores, de ritos, de cerimónias, de romarias, que a diferenciam de todas as outras. "A religiosidade popular é, de raiz, estranha a uma fé intelectual [...] A religiosidade popular não ganha o divino por salto intelectual: detecta-o, pressente-o, busca-o, na cerimónia, no objecto, no ambiente." (Manuel Clemente, A Religião Popular, 4).
A piedade popular é marcadamente festiva. Nela são exaltados a bondade de Deus, que concede até os frutos da terra, a vida (num sentido extensivo, ou seja, desde a vida da natureza até à própria existência humana), a amizade, a fraternidade... Os costumes tradicionais cristãos das nossas aldeias, as práticas de piedade, as devoções marianas, a festa dos padroeiros, as procissões, as imagens dos santos e muitas outras expressões exteriores são marcas exemplificadoras dessa alegria partilhada nas festividades.
Ela é essencialmente rica em valores tais como uma abertura ao absoluto, reconhecendo a fragilidade do homem e buscando em Deus a firmeza; a busca de um sentido real para a sua vida; o sentido de pertença a um povo que Deus escolheu para realizar um projecto; a misticidade que consegue criar e descobrir nas celebrações litúrgicas, passando além da exterioridade, atentam ao ambiente que os rodeia (entoação, pausas, silêncio...); é, ainda, entre este tipo de pessoas que encontramos as maiores virtudes evangélicas tais como a solidariedade para com os pobres; o testemunho de fé viva, de quem crê verdadeiramente mas que pretende que essa fé se contagie; a capacidade de sofrer com resignação vendo nesse sofrimento não um castigo de Deus (por vezes) mas a manifestação da Providência divina.
Em determinadas circunstâncias a religiosidade popular pode favorecer a evangelização. Num tempo em que o homem se fecha na sua cultura egoísta do individualismo, é função desta religiosidade intensificar e testemunhar uma experiência religiosa superior. Dentro de cada pessoa existe um ser religioso que procura encontrar Deus apesar de muitas vezes o querer encontrar fora de si, nas cerimónias, nos ritos, nos textos. Através das manifestações próprias do povo, têm de conseguir transmitir essa mensagem que corresponde à procura desse homem desorientado.
A religião popular é uma Praeparatio evangelica (Cf. Juan Martín Velasco, Encreencia y Evangelización, 202), ou seja, tem de ser um ponto de partida para a nova evangelização. A riqueza desta religiosidade tem de estender-se, de se difundir àqueles que necessitam de actos externos para confirmar a sua fé. A expansão do evangelho tem de passar, também, pelos actos externos porque esses são testemunho, "cultivo de admiração, intensidade afectiva, solidariedade e participação, densidade simbólica" (Cf. Juan Martín Velasco, Encreencia y Evangelización, 201), tudo isto valores evangélicos ricos da religião popular que devem ser comunicados.
Na Paróquia de Santa Eulália de Venade, a festa em honra do Senhor da Saúde e Nossa Senhora das Dores está povoada de elementos de piedade popular. São momentos mais visíveis a oração dos "romeirinhos ao Senhor da Saúde", a bênção dos frutos novos, as orações de sufrágio no cemitério pelos falecidos que "a doença levou", as procissões: seja a das candeias, seja a das dores de Nossa Senhora, as orações passadas de geração em geração que se fazem antes de trabalhar: lavrar, semear, colher o milho ou desfolhá-lo, após amassar o pão ou ao abrir o forno…
Por tantas razões, estas e outras práticas da piedade popular vão decaindo, desaparecendo e não há nada que as substitua ou supere, o que faz com que o património cultural, religioso e cultual fique mais pobre! Estas festividades em honra do Senhor da Saúde e Nossa Senhora das Dores podem ser um contributo para preservar a tradição de um povo religioso que se veste com os trajes pobres para trabalhar, mas que se apresenta no domingo com roupa de "ver a Deus", para "Deus os ver".
Algumas datas da "Cestada de Venade", em setembro de 2019:
Dia 14, sábado, procissão das candeias;
Sexta-feira, dia 20, lagarada: pisar e ralar as uvas;
Sábado, 21, desfolhada minhota;
Dia 22, domingo, cortejo das primícias na avenida e leilão dos dons;
Dia 29, domingo, às 16:00 a santa missa e em seguida a procissão.