A pretexto do livro "A Religião dos Portugueses", de Frei Bento Domingues ("um dos intelectuais de maior craveira do Portugal de hoje", foi desta forma que o classificou Miguel Alves, presidente da CMCaminha), a Rede de Amigos das Bibliotecas de Caminha organizou em finais de Agosto mais uma palestra na Biblioteca Municipal da sede do concelho, trazendo este religioso da Ordem dos Dominicanos "a debater publicamente a teologia (como o próprio propõe)", e não se limitando "a citar os grandes teólogos", como o fazem outros, explicou um dos moderadores do debate, João Basto, natural de Caminha, residente em Carreço e futuro diácono.
Teologia do coração
Este moderador disse ser necessário "pensar no que este livro nos pode dizer hoje", escrito por um teólogo "permanentemente crítico sobre aquilo que é Deus" e que "ama a Humanidade".
Antes de escutar o que o convidado dessa tarde de 30 de Agosto tinha a dizer aos presentes que encheram a sala da Biblioteca, como fez questão de salientar Miguel Alves, outro dos moderadores, Sobrinho Simões, reconheceu que tem aprendido "muito com ele" uma pessoa que recebeu o honoris causa, mas "ninguém fala nisso".
Jogar com a palavra
Frei Bento Domingues aproveitou a sua presença em Caminha para jogar com esta palavra, frisando que "a amente pode caminhar sempre", atendendo a que "ler é interpretar".
Recordando que ele "nasceu" no Instituto Superior de Ensino da Teologia, em 1966 - "a única escola democrática do país", em que os professores eram escolhidos pelos alunos -, Frei Bento Domingues referiu que este tipo de ensino não tinha equivalência universitária após a proclamação da República, assistindo-se na actualidade a um "pluralismo religioso", com o aparecimento de "um movimento de crescente diversificação".
Assinalou que "os portugueses são uma mistura" em que "Fátima é o cais de Portugal", um país cujos habitantes andaram sempre "fora de portas".
Nesta introdução ao seu pensamento teológico, assinalou que "as religiões são uma grande força no mundo, para o bem e para o mal", capazes de "suscitar a presença" de Deus.
Através de frases concisas e profundas, Frei Bento Domingues foi explanando as suas ideias sobre os mistérios teológicos, desde a afirmação de que "Cristo não queria a morte", tendo sido "morto e crucificado", pelo que "se sentiu perdido na Cruz". Mas como sempre pretendeu "destapar o horizonte às pessoas, no momento em que lhe tiram a vida, Ele perdoa-lhes - dá-lhes vida".
"Descrucificar o cristianismo"
Nesta linha de pensamento, este teólogo assegurou ser necessário "descrucificar o cristianismo", porque, acrescentou, "Deus é a respiração do nosso caminho". Esse Deus que "nunca ninguém o viu".
Mais adiante, admitiu que "gosto muito da religião, saída religião", levando-o a dizer que "antes do 25 de Abril, as pessoas eram católicas mas andavam distraídas", existindo ainda "uma distracção em relação ao futuro", levando a que "falte o sentido de cidadania". Segundo este filósofo e teólogo, "o português em apuros safa-se sempre, mas se não estiver em apuros, espera escapar".
A abordagem ao Papa Francisco não foi deixada em branco, tendo aproveitado para relembrar as suas palavras: "A guerra não é solução para nada".
Sempre baseado em Jesus, Frei Bento Domingues, antes de travar diálogo com alguns assistentes, vincou que "a religião só vale como indignação".
"Não vale tudo"
Respondendo a um deles, recordou que "a tentação do poder de dominar é o mais perverso nos humanos". Mas tanto no passado como no presente, "todos os impérios acabam no charco".
Terminou a falar da catequese que "deve ensinar a pensar e não a dar soluções", porque, destacou mais adiante, "a ignorância ensinada não dá".