Após alguns anos de ausência, o maestro Victorino d'Almeida voltou a evidenciar os seus dotes musicais, a sua vasta cultura, capacidade de diálogo (bem humorado) com a assistência que se deleita com os seus concertos, excelente improvisação, e empenhamento no lançamento de novos valores, como sucedeu neste verão nos dois concertos proporcionados pela Câmara Municipal de Caminha, na sede do concelho e em Vila Praia de Âncora.
A imprevisibilidade do autor é outra das suas facetas, como o demonstrou no Cineteatro dos Bombeiros Voluntários de Vila Praia de Âncora, quando se propôs dedicar o sarau dessa noite às músicas compostas para filmes, uma via que "deu grande liberdade aos compositores", assinalou.
Em tempos conturbados de uma Europa indefinida, Victorino d'Almeida decidiu recordar a sua primeira composição ("foi como que uma rapsódia", precisou) feita para música de fundo do filme "O Farol da Europa", na Áustria, nos anos 60/61, película que classificou de "extremamente interessante" e como que "prevendo a criação da União Europeia".
A sua ligação a Caminha, por razões familiares, deu-se aos seus 13 anos e desde então não mais deixou de marcar aqui presença.
"Pagava-lhes com bacalhau"
Recordou as suas actuações tendo como companheiro o piano, quer na Casa da Anta que tantas emoções lhe provocam, quer em diversas freguesias do interior do concelho, na primeira década deste século, às quais trouxe consigo muitos músicos de grande craveira, conforme salientou, e que "lhes pagava com bacalhau", disse com humor.
Citou o caso de Olga Costa ("uma das maiores pianistas da Europa") ou de outro virtuoso deste instrumento musical, que veio expressamente a Caminha depois de ter dado um concerto em Nova York, 48 horas antes.
Lançar músicos novos
Simultaneamente, Victorino d'Almeida dava a conhecer novos músicos jovens, projecto que quis repetir no concerto de Vila Praia de Âncora, em que Francisco Pereira, com 13 anos, estudante de música em Viana do Castelo e que tinha actuado recentemente num concurso de piano na Lituânia, teve oportunidade de demonstrar pela primeira vez a sua destreza sobre o teclado do piano camarário utilizado nessa soirée.
Vencer concursos não deve ser obsessão
Tendo como exemplo uma pianista romena que se tornou famosa sem que tivesse necessidade de triunfar em concertos, o maestro aconselhou igualmente o jovem a não se obcecar com a participação nesses certames.
Como é seu timbre, qualquer pormenor serve a Victorino d'Almeida para improvisar e dar uma lição sobre música. O jovem pianista escolhera uma valsa de Chopin para a sua primeira interpretação e logo o maestro dissertou sobre o autor nascido da Polónia, mas de pai francês. Esta dicotomia parental de Chopin terá estado na origem da diferenciação evidenciada na obra do compositor polaco, frisou, variando entre a mazurca desse país e a valsa de origem francesa.
"Muito bom"
Após o jovem ter tocado outra peça de um autor andaluz (Joaquín Turina), o maestro felicitou-o pela interpretação, dizendo ter sido "muito bom", logo variou de flanco (como se fosse num jogo de futebol) para elogiar a música de Quim Barreiros ("é de cá", recordou, como se algum dos presentes não soubesse…), afirmando que "gosto muito dele, porque diz muitas obscenidades "mas "sem dizer um palavrão", o que originou risos na assistência.
Chopin voltou a centrar as atenções do maestro no diálogo que manteve com o jovem músico - entrecortado com interpretações de mais autores por parte de ambos -, levando o maestro a auspiciar uma grande carreira a Francisco Pereira: "Vais ser um grande pianista".
- Que melhor estímulo para quem começou a tocar piano há cerca de três anos?