A pretexto da apresentação do livro "O Amor é: Para Memória Futura", de Júlio Machado Vaz, a Rede de Amigos das Bibliotecas de Caminha e a Câmara Municipal de Caminha trouxeram até um "espaço de verão", como o apelidou Miguel Alves, em referência à realização de um colóquio numa "rede aberta no átrio" da Biblioteca Municipal de Caminha, mais um momento de debate em que o amor foi tema dominante mas não único, porque a pretexto de qualquer dito ou frase, logo se encadeavam outros tópicos.
Divagar…falar…conversar
Esta versatilidade da conversa travada entre Júlio Machado Vaz, Inês Meneses e Francisco Guedes de Carvalho, permitiu destacar "a ansiedade e o envelhecimento" nos dias de hoje, apesar de "se falar pouco deles", como sublinhou este último, motivo logo agarrado pela radialista Inês Meneses e relembrar as gaivotas no filme "Morte em Veneza", de Visconti, em que o caminhar para o fim da vida é um dos argumentos centrais. Ou a "dificuldade" em ler a poesia de Brel, que "tentou a todo o custo evitar a degradação antes da morte", atalhou Júlio Machado Vaz, numa referência ao envelhecimento que continua a ser "um tema actual".
"A partir dos 65, somos radical (oficialmente) velhos" e, prosseguindo o seu raciocínio - desta feita virado para os princípios de vida - Machado Vaz precisou que "hoje em dia, estamos em adolescência até aos 24 anos".
Este psiquiatra e presença assídua em tertúlias radiofónicas, falou da "eco-ansiedade" - um tema "fascinante", admitiu -, lamentando o "trabalho e amor" sem estabilidade nos dias que correm.
De política (com ou sem humor) se falou nesse fim de tarde ao ar livre, nomeadamente quando o presidente da Câmara de Caminha anunciou que teria de se ausentar porque tinha de participar numa reunião para escolha dos candidatos à Assembleia da República pelo distrito, oportunidade não desperdiçada por Júlio Machado Vaz para ironizar com o facto, definindo-a como "uma reunião de risco e de riscos".
Crianças preocupadas com o futuro do planeta
Sem sair da política - porque disso se trata igualmente -, um salto até à ecologia para referir o movimento das "crianças preocupadas" com o ambiente, destacou Guedes de Carvalho, levando Machado Vaz a evidenciar temor ao constatar a sensação de que "pensar passou de moda".
"A nossa geração falhou", reconheceu o Secretário Geral da ONU, "mas é a deles que está no poder", completou Machado Vaz, adiantando "ser bom assumirmos isto", após o que atribuiu ao "vil metal" a causa de todas as consequências nefastas no meio ambiente, porque, como dizem muitos desses destruidores da natureza, "se posso ganhar hoje, porque me vou preocupar com o que se passará daqui a 30 anos?".
Jovens devem intervir na política
"Sou céptico, mas tenho esperança", assim definiu a sua própria contradição Machado Vaz, entendendo a posição de muitos em relação à participação na política activa, ou de alguns mais, que asseguram que o seu limite são as autárquicas. Apesar do desalento de muita gente com os políticos (nem todos, foi realçado), Machado Vaz não hesitou em incentivar os jovens "a trilhar o caminho do poder ou o futuro será sombrio", vaticinou, receoso.
Mais cultura e educação foi sugerido neste colóquio que reuniu algumas dezenas de pessoas que também intervieram no debate, sendo considerado "obsceno" que "se assista ao agravamento das assimetrias".
"Parceria entre os dois sexos"
O papel das mulheres na sociedade actual, a partilha de tarefas familiares("também é fazer política", foi acentuado), as quotas ("abomino-as em tese, mas no concreto sou a favor", vincou Júlio Machado Vaz, embora "as coisas possam não ser assim", ressalvou), foram objecto de ampla discussão envolvendo os próprios assistentes. Contudo, o principal interveniente dessa tarde, também escritor e participante em vários programas de rádio sobre o amor e a sexualidade, recordou que "a igualdade foi conseguida pela luta das mulheres e homens", devendo a integração ou a promoção das mulheres ser obtida "por mérito".
Aspectos machistas contidos nos últimos Censos realizados foram denunciados neste debate (Quem é o chefe de família? - era perguntado aos inquiridos num dos últimos recenseamentos), tal como o carácter sexista da língua portuguesa, e o drama das migrações culminaram as intervenções do público e as respostas dos três convidados.