JORNAL DIGITAL REGIONAL CAMINHA 2000 JORNAL DIGITAL REGIONAL CAMINHA 2000

Corema associa-se à campanha
"Não à exploração de lítio na Serra d'Arga"

"Só se compreende defender a serra na sua globalidade", José Gualdino

Rego da Torre e margem do rio Minho sem fiscalização

Dunas e camarinhas alvo de restauro e recuperação

A Corema considera "uma contradição insanável" que se esteja a lutar pela criação de uma área de paisagem protegida na Serra d'Arga, e, simultaneamente, se avance com a exploração de lítio neste maciço granítico integrado na Rede Natura 2000.

José Gualdino, presidente da direcção da Corema, no decorrer de uma assembleia geral desta associação de defesa do património natural e construído, insistiu nesta "contradição", tendo levado Luís Guerreiro, presidente da assembleia geral, a interrogar-se se a candidatura de classificação não passaria simplesmente de "uma manobra de diversão", porque, justificou, "só se compreende defender a serra na sua globalidade".

Esta interpretação foi comungada por Ângelo Fernandes, vice-presidente da Corema, recordando que a importância paisagística e patrimonial da Serra d'Arga não se confina a um mero interesse local, mas também nacional e internacional, como a atestam as preocupações já verificadas em Espanha e França devido à tentativa de extrair lítio por parte de empresas estrangeiras, com a aparente complacência das autoridades portuguesas, conforme o indica o vídeo apadrinhado pelo Governo da República.

Governo não pode ter uma visão "minimalista"

Este dirigente da Corema deu conta de que se tinham deslocado a Covas de Barroso, Trás-os-Montes, a fim de se inteirarem da luta das gentes transmontanas contra a ameaça do lítio (recorde-se, a propósito, que no passado dia 1, o presidente da Câmara de Montalegre convocou a população de Pitões de Júnias para uma reunião sobre o lítio, com a presença de dois professores universitários e um jornalista a moderar). Disse ainda que que o Governo português não poder ter uma visão "minimalista" em relação à serra d'Arga.

Gualdino Correia apontou o exemplo desta freguesia transmontana, onde foram construídas mais de 300 plataformas a fim de realizarem prospecções e "retalharam tudo", avisou, existindo crateras com 600 metros por 200.

Ângelo Fernandes evidenciou receio pelos efeitos da limpeza dos minerais extraídos do interior da Serra d'Arga nas praias do concelho, dando como exemplos a praia da foz do Minho e de Moledo, sendo que esta última foi incluída num lote das 10 melhores do mundo pelo jornal inglês The Guardian.

O consumo enorme de água obrigará a que freguesias como S. Lourenço da Montaria seja abastecida pela barragem do Lindoso, quando possui água de minas e nascentes de elevada qualidade, alertou Luís Guerreiro.

"Valorização louca"

O "consumo de água brutal" a que a exploração de lítio obrigará e as crateras que serão abertas, mereceram igualmente uma reprovação de Ângelo Fernandes, o qual denunciou os interesses bolsistas e financeiros que se encontram por detrás das empresas estrangeiras que se vêem cada vez mais cotadas em alta nas bolsas, a par do aumento do preço deste minério ("valorização louca", frisou) que passou de 16.000 dólares em 2018 para 25.000 no corrente ano, a par das guerras entre China e EUA devido à utilização deste metal.

O debate sobre o lítio no seio da associação absorveu grande parte desta reunião, insistindo José Gualdino que "estamos muito preocupados" com esta situação que já alarma muitas freguesias, dando como exemplo a de Sistelo, Arcos de Valdevez, que contactou a Corema a fim de a ajudar na luta contra a exploração de lítio no seu território, acabando por resultar na desistência da empresa que queria fazer prospecções.

A Corema já reuniu com o vereador Guilherme Lagido, responsável pelo pelouro do ambiente da Câmara de Caminha a fim de se inteirarem da posição do Município, sendo reafirmada a posição contrária deste Executivo já expressa em 2017.

O facto de Vila Nova de Cerveira ter ficado de fora da criação da área de paisagem protegida suscitou interrogações ao sócio Rui Fernandes, o qual já reuniu igualmente com Guilherme Lagido, tendo-lhe confirmado a posição contrária do Executivo quanto ao projecto de extracção de lítio.

O facto de haver indicações seguras de que as prospecções se localizam à volta da área de paisagem protegida que as câmaras de Caminha, Ponte de Lima e Viana do Castelo pretendem ver aprovada, suscita muitas dúvidas sobre estas coincidências.

José Gualdino alertou para a quantidade de informação falaciosa lançada na opinião pública, tentando desvalorizar os impactes da exploração e fazer prevalecer o pragmatismo da importância económica do lítio.

Este combatente veterano da defesa do ambiente adiantou ainda que tinha sido criado um grupo de trabalho do lítio, em que a Serra d'Arga era apontada como a primeira produtora deste metal, estudo este aprovado em 2018 pelo Conselho de Ministros.

Ministério do Ambiente já silencioso em 2011

Recordou ainda que em 2011 tinham enviado um ofício para o Ministério do Ambiente solicitando esclarecimentos sobre o aparecimento de um aviso para a prospecção em Covas, Vila Nova de Cerveira, mas nem sequer responderam, lamentou.

As sessões de esclarecimento já se vêm realizando, como sucedeu em S. Lourenço da Montaria (uma das freguesias alvo do apetite das multinacionais do lítio, juntamente com Arga de S. João, Dem e Covas), em que a posição da Câmara de Viana do Castelo não ficou muito definida, assinalou Rita Roquete. Uma caminhada de protesto pela exploração de lítio está a ser preparada para o dia 27 de Julho, pela Associação Montariense, foi dado a conhecer nesta assembleia.

Embora a questão do lítio esteja na ordem do dia e por tal motivou absorveu grande parte da reunião, outros temas foram abordados, nomeadamente, os relacionados com a freguesia de Lanhelas.

Choupos e alergias não combinam

Rui Fernandes disse ser recomendável eliminar os choupos fêmeas plantados na beirada do rio, devido à quantidade de pó que espalham, o qual se estende por grande parte da aldeia, causando problemas às pessoas alérgicas.

Muro perigoso e ilegal em Lanhelas

Este membro do Conselho Fiscal da Corema chamou a atenção para a perigosidade que um muro construído sem licenciamento a sul da Casa da Torre, por fora da zona de juncal. Alertou que o mesmo poderá ruir e apanhar alguém.

A direcção da Corema evidenciou a sua discordância em relação ao que se tem passado dentro e fora da Casa da Torre, tendo referido José Gualdino que já vêm denunciando diversas situações a diferentes entidades com responsabilidades na fiscalização do litoral, mas sem resultado.

Reconheceu a existência de correntes de água fortes junto a esse muro erguido ilegalmente e referiu que o proprietário da Casa da Torre vem comprando os terrenos à volta desse conjunto patrimonial classificado.

Recordou as diligências efectuadas pela Junta de Freguesia de Lanhelas e as denúncias feitas pela própria presidente da autarquia lanhelense na Assembleia Municipal, mas ninguém intervém.

Os caminhos de acesso assinalados nas cartas militares ao longo da beirada do rio na zona do Rego da Torre têm sido eliminados. Foi recordado que chegou a existir um letreiro indicando "Caminho da Torre", entretanto desaparecido.

Dunas de Moledo alvo de recuperação

A Corema tem em mãos um projecto em colaboração com a Junta de Freguesia de Moledo/Cristelo, tendo em vista recuperar o cordão dunar e plantar camarinhas e outras espécies endógenas (5.000 camarinhas e 11.000 plantas diferentes encontram-se em estufas à espera de serem plantadas a partir de Outubro).

A Câmara de Caminha, o Agrupamento de Escolas do Concelho de Caminha, a empresa "Raiz da Terra" e o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária integram esta acção de "renaturalização" dunar.

Este projecto entregue à Junta de Freguesia de Moledo/Cristelo aguarda pela respectiva aprovação e envolverá verbas na ordem dos 300.000€, prevendo ainda defender as dunas através da remoção dos chorões (espécies infestantes) que abafam as camarinhas e colocar passadiços de acesso à praia e placas informativas, de modo a acabar com os corredores eólicos que contribuem para destruir as dunas devido ao pisoteio a que são submetidas.

A necessidade de contar com a colaboração dos organizadores do Sonic Blast para que haja cuidado por parte dos espectadores deste festival de música acampados a sul do Camarido, mereceu uma chamada de atenção desta associação ambientalista.

A Corema corrobora a opinião da Junta de Freguesia ao pretender terminar com os bares de apoio de praia existentes no areal, junto às dunas e paredão ou em cima delas, e apoiar os que se encontram em terra firme.

Pesqueiras do Rio Minho alvo de classificação

Um projecto de conservação e classificação das pesqueiras do rio Minho conta com o apoio das câmaras municipais de Melgaço e Arbo, pescadores dos dois lados do rio e Aquamuseu do Rio Minho, salientou o presidente da Corema, associação fortemente envolvida neste processo.

No seu "programa mínimo de acções" aprovado nesta assembleia para estes dois anos, constam outras acções, como é o caso de organização de trilhos relacionados com geologia, botânica, paisagem natural e património histórico-cultural; realização de colóquios e exibição de filmes; acompanhamento da alcateia da Serra d'Arga e representação em diversas organizações não governamentais de Ambiente nos Conselhos Eco-Escolas de Caminha e Cerveira.



Edições C@2000
Do Coura se fez luz. Hidroeletricidade, iluminação pública e política no Alto Minho (1906-1960)"
Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000/Afrontamento
Apoiado pela Fundação EDP

Da Monarquia à República no Concelho de Caminha
Crónica Política (1906 - 1913)

Autor: Paulo Torres Bento
Edição: C@2000


O Estado Novo e outros sonetos políticos satíricos do poeta caminhense Júlio Baptista (1882 - 1961)

Organização e estudo biográfico do autor por Paulo Torres Bento
Edição: C@2000


Rota dos Lagares de Azeite do Rio Âncora

Autor: Joaquim Vasconcelos
Edição: C@2000


Memórias da Serra d'Arga
Autor: Domingos Cerejeira
Edição: C@2000

Outras Edições Regionais