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TRIBUNA
Espaço reservado à opinião do leitor

DIREITO AO DESCANSO?

Se o trabalho pode ser considerado um dever, será que o descanso pode ser considerado um direito?

Vai longe o tempo em que depois de um dia de escola caminhava para mais de um quilómetro no regresso a casa e pedia à minha mãe para descansar um bocadinho em cima da cama. Que não senhora, que ainda era muito nova para me queixar das pernas, que fosse mas era fazer a cópia e as contas ( o termo " trabalhos de casa "ainda não tinha sido inventado ) porque logo-logo era preciso pôr a mesa. De má vontade, lá ia. A criança de então não sabia que o descanso era um direito.

Mulher feita, lida de casa a exigir dedicação total, filhos a zelar, que os infantários demorariam muitos anos a chegar, pouco tempo sobejava para o amor que o cansaço era muito e até dava para adormecer antes do acto.

A mulher de então não sabia de jacúzis, de exercícios de relaxamento, de yogas ou pilates.

Direito ao descanso? Quem? Onde?

Na nova era, a mulher alia a tarefa doméstica à profissão, tem ajudas ou não, por norma não se sente " escrava " do lar e sabe contar com a sua personalidade para viver sem olhos no chão. Tem tempo para descansar se assim o entender.

Na rampa descendente da vida, aspira-se, muitas vezes, ao descanso quando no quarto ao lado o choro de um neto diz que ainda não é hora de descansar e a mulher cede à urgência. Mesmo assim, há momentos em que se deseja parar porque o corpo exige o fim da dor ou o coração não aguenta mais as arritmias da existência. E é nesta altura que a interrogação surge:

" É legítimo sonhar com o DESCANSO ? "

Zita Leal



Relações Humanas Sinceras

Atualmente, em quaisquer contextos da vida das pessoas, um dos pilares essenciais para um relacionamento interpessoal de sucesso, centra-se na lealdade que é necessária para colocar, quando se desenvolve uma qualquer conversa, incluindo aqueles diálogos bem-humorados.

A sinceridade entre interlocutores ajuda à compreensão e, sempre que necessário, à tomada de boas decisões, porque a mentira, a ambiguidade e a omissão, intencionais, para negar, confundir ou esconder, respetivamente, partes importantes do discurso, normalmente conduzem à desconfiança, ao descrédito e ao rompimento de relações e, também, quando existe, ao fim da própria amizade.

As relações humanas sinceras revelam o verdadeiro caráter de quem assim procede. Faltar à verdade é trair quem em nós acredita e nos ouve, é levar as pessoas a formular juízos de valor a propósito de quaisquer interesses, situações e outras pessoas que, assentes na mentira, são errados, injustos, imorais e eticamente condenáveis.

Por vezes, há quem afirme que a mentira (a infração) compensa e talvez, em circunstâncias excecionais, em que se jogam interesses vitais, valha a pena invocar uma inverdade, todavia, sem nunca prejudicar quaisquer outras pessoas, interesses, situações, projetos e resultados, quando legais, legítimos e justos, que visam o bem comum e/ou da própria pessoa.

Faltar à verdade para salvar a própria vida, ou de algum ente querido, ou de um amigo especial, sem incriminar outras pessoas, poderá ser, moralmente, aceitável? Negar um facto para evitar que alguém seja condenado, quando tal episódio não prejudica ninguém, a não ser a própria pessoa, que até se prova ter sido involuntário, impensado, sem premeditação de dolo, poderá ser objeto de castigo? E num teatro de guerra, ou similar, mentir quanto à nacionalidade, religião e quaisquer convicções políticas, filosóficas ou outras, para salvar a vida e o bem-estar daqueles que dependem de nós, constituirá mentira, assim tão gravosa? E, finalmente, num simples jogo, afirmar-se que se possuem determinados elementos, (cartas importantes, estratégias e táticas, por exemplo) para levar o adversário, a cometer erros, e nós ganharmos a partida, tal mentira será condenável?

Na verdade, tudo indica que é necessário avaliar muito bem até onde vai a mentira e começa a lealdade, ou vice-versa, nas relações humanas, ou se em circunstância alguma, a relação entre duas pessoas, que se respeitam, que se gostam, a inverdade, a desconfiança, a deslealdade têm justificação. Nestas circunstâncias a mentira jamais poderá ser utilizada, mesmo quando se diz "piedosa", como por exemplo no caso de uma doença grave. Aqui, é preferível animar a pessoa nossa amiga, dar-lhe coragem e tudo fazer para que ela se sinta confortada e continue a acreditar na nossa total amizade, que mesmo nos piores momentos da vida estamos ao lado dela com verdade, com lealdade.

Mas em alguns dos exemplos anteriormente mencionados, será possível, ainda assim, evitar ou substituir a mentira pela omissão? Provavelmente sim, porque a omissão, em última análise, revela-se como uma falha, eventualmente, o incumprimento de um dever, no fundo poderá corresponder a não expor uma verdade (enquanto que a mentira é, no mínimo, deturpar a verdade).

A omissão leva a não se dizer tudo quanto se sabe sobre um determinado assunto, às vezes até para salvar uma relação pessoal. Será como uma espécie de mensagem telegráfica: objetiva e, simultaneamente, evasiva quanto a pormenores, responde-se, exclusivamente, ao que nos é perguntado, sem se entrar em detalhes, porque de contrário, novas questões surgem, novas particularidades são pedidas e, poder-se-á chegar a determinada situação em que das duas uma: ou se diz toda a verdade, que até não convém; ou se entra pela mentira que, igualmente, virá a ser prejudicial na maior parte das situações de vida. A opção é difícil e cada pessoa é aquilo que as circunstâncias lhe pedem.

Excluídas, portanto, situações-limite, praticamente de vida ou de morte, determinados tipos de jogos, não esquecer que o negócio, por vezes, também é um jogo, todavia, depois de fechado, não será correto reabri-lo com argumentos falsos e diversas conjunturas onde a omissão é utilizada, nada justificando a mentira e, como diz a sabedoria popular: "A mentira tem a perna curta" ou seja: mais tarde ou mais cedo, ela é descoberta como tal.

Infelizmente, nos tempos conturbados que as sociedades modernas atravessam, com uma flagrante e confrangedora ausência, ou esquecimento, de valores que honram a superior dignidade humana, pode-se afirmar que a ideia, segundo a qual, é necessário cada pessoa colocar as máscaras dos diversos interesses, recorrendo a comportamentos, mais ou menos forçados e/ou intencionais, como a bajulação, o cinismo, a falsidade, as palmadinhas, a hipocrisia, os sorrisos permanentemente "rasgados", ao uso e abuso da verbosidade contrária ao pensamento coerente e verdadeiro, ao deixar cair um amigo quando já não serve, para agradar a outro e assim alcançar objetivos e interesses próprios, tudo isto se revela com preocupante frequência.

Hoje, praticamente, não se fecham negócios com um simples e vigoroso aperto de mão; hoje, nem o documento escrito é respeitado quando outros interesses, por vezes mesquinhos, se levantam; hoje, o que juramos sob palavra de honra, pela própria saúde e até dos entes mais queridos, pela felicidade, por Deus, amanhã poderá ser negado, na medida em que se ontem havia uma verdade, rapidamente ela poderá ser substituída pela mais descarada e abjeta mentira.

O comportamento humano nestes novos tempos, assumido por muito "boa gente" parece cada vez mais volátil, é o rumo que, para certas pessoas, parece produzir os melhores resultados. Então a mentira utilizada neste tipo de "navegação à vista", de vidas efémeras, certamente que conduzirá à desconfiança, às desavenças, ao conflito cego e fatal, enfim, ao "naufrágio".

Nas relações humanas entre pessoas que se respeitam, que se cuidam (e quem cuida, gosta, ama, está sempre ao lado) a mentira, quando descoberta, por quem é vítima dela, dói profundamente, magoa indelevelmente, provoca um sofrimento atroz, para o resto da vida, de quem se sente covardemente atraiçoado e sabe que não merece ser alvo de tão pérfidos comportamentos.

Nas nossas relações humanas diárias, em quaisquer contextos civilizados e humanamente credíveis, deve-se utilizar sempre a verdade, com abertura de espírito, para melhor podermos dialogar com lealdade e, por que não, com amizade? A, verdade, normalmente, é sempre a mesma, não tem alternativa, deve ser utilizada por quem se quer bem, por quem revela consideração e estima por outra pessoa, por quem deseja viver em harmonia consigo e com os seus semelhantes, com felicidade.

Claro que se excetuam aqui certas "verdades" científicas e outras de idêntica natureza, incluindo judiciais, porque através da investigação, mais tarde, pode-se chegar a outras verdades que destronam as anteriores: lembremo-nos do conflito entre a Igreja e Galileu Galilei com a teoria heliocêntrica. Evidentemente que seremos leais nas nossas relações, quando não somos detentores de outros conhecimentos e sinceramente afirmamos o que de facto sabemos e temos consciência de que não existe nada mais para além do que está na nossa posse.

A lealdade nas relações humanas, a partilha de alegrias e tristezas, sucessos e fracassos, desejos e projetos, é um valor que cimenta a amizade para toda a vida, que abre um "cantinho no coração", para nele acolhermos quem nos fala verdade, só que às vezes deixamo-nos iludir, corromper por quem nos quer impressionar com uma qualquer aparência, ou posições sociais elevadas, por "lobos vestidos de cordeiros" e somos levados a rejeitar quem sempre nos falou verdade, porque esta lealdade nas relações humanas, para muita gente, é bem difícil, nada conveniente e, por isso mesmo, desvalorizada, ridicularizada, nomeadamente por quem tem objetivos de uma qualquer conquista.

Diamantino Bártolo


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