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UM MAR DE TRAGÉDIAS

RELANCES SOB O OLHAR DO PILOTO DAMIÃO DE MATOS A BORDO DO LUGRE "ANA PRIMEIRO"


O "Santa Quitéria"

Como um leão ferido de morte, assim o lugre "Sta Quitéria" vogava à deriva ao sabor das correntes e dos restos da tormenta que enfrentou valorosamente, como se quisesse resistir até ao último tripulante ser salvo. Nesta luta de gigantes o "Santa Quitéria" saiu vencido, as enormes vagas partiram-lhe o leme e atingiram-no mortalmente arrombando o seu frágil casco de madeira. Agora, ainda flutuava moribundo inundado de água. Tinham acabado - como se fosse um ato de misericórdia - de lhe pegar fogo para lhe abreviar a agonia e enquanto não afundasse completamente iluminasse a noite para não constituir perigo para os outros navios que passassem por aquele inóspito e cinzento lugar. Os seus heróicos homens, felizmente, salvaram-se todos nos seus frágeis dóris indo ao encontro de outros navios que vieram em seu socorro, quando viram que o seu navio tinha água aberta passada já a maior força da tormenta.

Estávamos na campanha de 1941. Aquela campanha no Grande Banco da Terra Nova foi assinalada por tragédias, ventos persistentes que impediam os dóris de pescar, nevoeiros e tormentas que punham os lugres bacalhoeiros em perigo. Anotava assim Damião de Matos : … " o dia de hoje esteve muito mau, apesar dos homens estarem o dia todo lá fora a pescar, a gente a bordo estava com muito cuidado por o tempo estar de muito mau aspeto, chuva durante todo o dia e muito frio, trovoadas muito feias a esta hora 9h30 da manhã está a trovejar e o barómetro a baixar, oxalá que só deia chuva"

Este dia os dóris chegaram a bordo do "Ana Primeiro" carregados de bacalhau apesar das condições climatéricas adversas. A necessidade de pescar muito nestas condições era um risco acrescido com os dóris carregados, que só o valor e a coragem destes homens dos dóris de um só homem eram capazes de desafiar. Homens duros, curtidos pelo salitre e queimados, não pelo sol, mas pela intempérie fria do noroeste. Havia dias particularmente agressivos decorrendo entre brisas cavaleiras, céu medonho, frio que, todavia, com o perigo sempre à espreita lá ia permitindo fazer alguma pesca por vezes interrompida pelo navio a chamar os dóris com a pressão barométrica a baixar.

A juntar ao tempo, nesta classe de navios outro perigo podia apresentar-se. As condições das cozinhas dos lugres eram muito precárias e não era raro haver fogo a bordo. Às vezes conseguia-se extinguir quando ainda em início, mas outras vezes não porque o fogo

O "Ana Primeiro"
rapidamente se propagava e havia que abandonar o navio. Assim aconteceu ao lugre "Silvina", que o piloto caminhense regista:

"O dia de hoje está mau, não se arriou os dóris por o tempo não deixar, às 9h da manhã, ouviu-se pela fonia o capitão do lugre "Silvina" pedir socorro que tinha fogo a bordo. Às 10h todos abandonaram o navio e saltaram para os dóris. Durante o dia todo andaram muitos navios em procura dos náufragos, mas como estava névoa muito fechada não lhes foi possível encontrar os pobres e infelizes homens. Durante a noite como desse uma clara os náufragos avistaram os faróis do lugre "Santa Isabel" e para lá se dirigiram e salvando-se todos milagrosamente com a graça do Senhor."

Num mar inóspito e inquieto sob um céu cinzento o dóri do pescador bacalhoeiro, era também o seu último recurso nestes casos de incêndio, mas também a última esperança na desesperada tentativa de se salvar quando o navio soçobrava engolido por ondas implacáveis. Era como se fosse um suicídio, abandonar o navio naquelas cruéis circunstâncias, mas nunca na pesca do bacalhau deixou de haver sempre quem o fizesse, enquanto outros encomendavam as suas almas a Deus agarrados em clamor e lágrimas às pagelas dos santos da sua devoção ou gemendo nos seus beliches prestes a inundar-se de água.

Os navios, por vezes eram surpreendidos por estas tempestades ciclónicas ancorados nos seus pesqueiros. Colhidos de surpresa, já não havia tempo para recolher a amarra e fazer capa ao tempo. Então, tinham de cortar este cabo que estava preso à âncora com grande risco para quem o fazia, pois o balanço transversal violento do navio e a proa a mergulhar na cava das ondas, era um ato que exigia muita coragem e determinação para o fazer. Só depois, solto da amarra o lugre podia colocar-se de capa ao tempo aproado às vagas com o auxílio das velas indicadas para o efeito. Içar essas velas com o temporal e vagas alterosas os homens corriam outro risco, o de serem levados borda fora. O homem do leme só se aguentava amarrado à roda, pois se assim não fosse seria arrastado pelas ondas.

Damião de Matos, no seu diário, descreve-nos a tragédia que envolveu o "Santa Quitéria" e outros navios durante a tremenda tempestade que se abateu sobre o Grande Banco da Terra Nova naquela campanha de 1941 nestes termos:

…"O vento de SE rondou para WSW ( de sueste para oeste sudoeste ) com violência ciclónica, mar medonho que queria quebrar tudo, alguns navios que se viram perdidos tiveram que cortar as amarras: lugres "Brites", "Júlia Primeiro", "Júlia Quatro", "S. Jacinto", " Maria Preciosa", "Lusitânia", "Ana Maria", " Normandia", e mais navios. (…) O lugre "Santa Quitéria" partiu o leme e abriu água, afundando-se o navio mas salvando-se toda a tripulação; o lugre "Gronelândia" também partiu o leme, mas foi a reboque do vapor arrastão "Santa Joana" para o porto de Saint John's reparar a avaria. A bordo do "Normandia" uma volta de mar levou um homem e feriu muitos, sendo alguns de gravidade, com as pernas partidas e cabeças abertas. A bordo do lugre "Ana Maria" uma volta de mar levou um homem e uma outra

Um dóri, um homem
volta de mar conseguiu atirar outra vez esse infeliz para dentro do navio, grande milagre de Deus, que fez com que este infeliz não fosse tragado pelo mar. é o destino, ainda não tinha chegado a hora dele
".

De todo este registo, podemos avaliar a dureza da vida a bordo dos navios bacalhoeiros da pesca à linha com dóris de um só homem. Costumo insistir no termo " de um só homem" por se tratar de um método de pesca exclusivo dos Portugueses. O método mais arriscado e solitário da vida no mar. Estas tragédias descritas pelo nosso oficial Damião de Matos, podiam ser as que sempre ocorreram na longa saga da pesca do bacalhau em navios de linha com dóris, em todas as campanhas. Sempre aconteceram na dureza dos elementos que se desencadeavam no cenário cruel daqueles mares. Os homens dos dóris estavam a descoberto dando o peito, a bordo dos lugres e dentro dos seus dóris, ao perigo.

Na tempestade que roubou a vida ao nosso conterrâneo e amigo Dionísio Esteves, também tivemos um caso semelhante ao acima descrito pelo Damião de Matos. A vaga dobrada que se abateu sobre o " Santa Maria Manuela" também levou outro homem e na cava da onda onde a proa adornou a onda seguinte voltou a trazê-lo ao convés. Esse salvou-se, mas o nosso malogrado Dionísio Esteves não. Para ele tinha chegado a sua hora, o outro camarada sobreviveu. É aquilo a que chamam o destino.

Hoje, ao relatar estes episódios, parece que tudo foi um sonho. Mas não, foi uma realidade que perdurou até ao 25 de Abril e que o novo regime não iria mais consentir uma pesca que foi um clamor de vozes angustiadas, de lutos e de lágrimas sem fim. Esses homens, todos esses homens, não poderão jamais ser esquecidos. Da minha parte, e depois de vários anos ter tentado esquecer, hoje sinto o dever de trazer essas memórias de homens simples e trabalhadores, corajosos e impolutos, verdadeiros heróis: a bordo dos seus dóris de um só homem e a bordo dos seus lugres e navios-motor insignificantes para a fúria demolidora dos mares do bacalhau.

CELESTINO RIBEIRO

1 António Coentrão, o Vermelho. Era natural das Caxinas


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