Eram tempos de guerra nos mares. Pintados de branco como anjos de paz, atravessavam o perigoso Atlântico norte os pacíficos lugres da mítica Frota Branca. Iam em busca do fiel amigo, abundante no Grande Banco da Terra Nova e nos mares gelados da inóspita Gronelândia. O perigo espreitava a cada momento da longa travessia: os beligerantes, as minas, os densos nevoeiros, os temporais, os gelos flutuantes. Sobre a brancura dos seus costados, estes navios levavam pintada a bandeira portuguesa e o nome de PORTUGAL em letras garrafais para poderem ser identificados pelos beligerantes como sendo navios de pesca de um país neutro no conflito e não serem torpedeados. Mesmo assim, nem sempre foi respeitada essa neutralidade, pois temos a lamentar o afundamento dramático de dois lugres por submarinos alemães: foram eles o "Delães" e o " Maria da Glória".
Seguindo a viagem do "Maria Carlota" em 1945 através das notas do piloto Caminhense, o navio saiu de Lisboa no dia 29 de Maio de 1945. Esta seria a última viagem de Damião de Matos em lugres bacalhoeiros.
Depois da Bênção dos navios ancorados frente aos Jerónimos como era tradicional antes da partida, levantaram ferro e, com o Tejo a descer em maré baixa e vento fresco de norte, dirigiram-se para o mar. Fora da barra organizaram-se em comboio para a difícil e perigosa travessia até à Terra Nova, ainda mais arriscada pelos mares em guerra entre nações.
Neste comboio seguia como chefe o lugre com motor auxiliar "Maria Frederico" a navegar ligeiramente á frente das colunas de navios: por bombordo os lugres "Maria Carlota", "Paços Brandão", Neptuno Segundo", e o "Lusitânia"; na coluna de estibordo seguiam o " Leopoldina", o " Ana Primeiro", o "Ana Maria", o "Júlia Primeiro"; a fechar a retaguarda seguia o lugre " Infante de Sagres".
Formação do Comboio dos navios
Esta formação em alto-mar com nevoeiros e tempestades, com navios que andavam mais e outros que andavam menos era difícil de se manter, exigindo muito trabalho de manobra das velas e muita paciência para se conservar. Mas todos tinham de fazer o possível por se manterem no comboio. Deste modo, o comboio pôs-se em marcha a partir do azimute com o cabo da Roca nos 32º NE e o farol da Guia nos 82º NE e tomaram o rumo NW4W ( noroeste quarta oeste). Agora, com vento norte muito fresco e mar de vaga grossa, os lugres adornando por bombordo até meter água que varria o convés associada à sarria de barlavento provocada pelo embate das ondas contra o costado molhava toda a estrutura dos navios que voavam sobre as ondas a boa velocidade. Cerca das 20h00, o "Maria Carlota" arreou a mezena ( a vela da popa, ou do mastro da mezena ). A razão principal era já a pouca velocidade do navio chefe do comboio, onde viajava um oficial da marinha de guerra como comandante capitania para a Terra Nova, relativamente aos outros navios. Por isso era necessário abrandar a marcha para este navio não ficar muito para trás. Com a tarde a desmaiar o céu ficou um pouco nublado, mas o horizonte mostrava-se regular.
Nos dias seguintes o vento virou para nordeste frescalhão e mar de vaga.
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No dia 4 de Maio pelas 18h00 o vento acalmou com o tempo de sarria ( chuva miudinha ). Esta situação de calma não era desejada pelos veleiros, apenas os que tinham motor auxiliar podiam progredir algumas milhas embora pouco significativas. Estes navios mesmo assim andavam muito pouco, naquele tempo. Até que, cerca da 1h00 do dia 5 de Maio, o vento começou a refrescar do sudoeste. Entretanto o nosso piloto continuava a encher o seu caderno particular de notas e cálculos de navegação. A sua pertinência está bem expressa nesses cadernos particulares de viagem como espécie de diários, tendo anotado até notícias que ouvia via rádio. Por exemplo anotou a morte de Hitler no dia 2 de Maio em letra gorda de tinta, os seus estados de alma ou o final da guerra na Europa no dia 8 de Maio com alívio, embora este facto não dispensasse a formação do comboio como medida de precaução e segurança que se deveria manter até à chegada ao Grande Banco.
Assim a viagem foi decorrendo queixando-se o nosso piloto de perder muito tempo devido ao pachorrento progredir do navio chefe " Maria Frederico". Realmente seria desesperante o lento navegar de um navio que obriga os outros a amainar velas ou orsar para esperar por um navio companheiro e para mais chefe do grupo, que várias vezes fica tanto atrás dos outros que se perde de vista. Disso nos dá conta o piloto do " Maria Carlota" Damião de Matos, nas suas notas particulares. Várias vezes se refere acusando aquele navio da demora em chegarem ao Grande Banco e poderem pescar. Acha que o tempo, apesar da sua irregularidade climatérica tem sido bom para alcançar aquele objetivo em quinze dias, mas vai levar 37 desesperantes dias. É demais para o nosso piloto, como o é para qualquer marinheiro, muito mais por não ser atribuído à insistência de ventos contrários ou calmarias, esses sim, que podiam determinar grandes demoras.
Finalmente o "Maria Carlota" chegou ao Grande Banco da Terra Nova no dia 5 de Junho de 1945, tendo arriado as estênsulas ( velas que envergam entre os mastaréus dos mastros reais para acrescentar superfície vélica) às 22h00 a fim de fazerem horas de chegar ao pesqueiro ao romper do dia 6. E, assim, foi. O navio ancorou depois de várias sondas em 25 braças nos 44º 19' de latitude N e 50º 05' de longitude W, as coordenadas do pesqueiro Southeast Shoal ( banco de sueste ).
A partir deste dia começou a grande e arriscada tarefa de pescar e pescar muito bacalhau por pescadores em dóris de um só homem. Relembrar a dureza daquela vida já é assunto sobejamente conhecido por inúmeros relatos e obras, entretanto, publicadas. São memórias que o tempo não apaga.
A pesca prossegue com os seus altos e baixos em termos de sucesso e outras vezes de insucesso, com dias de calma e outros de tempestade,
com bons carregamentos e grandes escalas até às quatro da manhã e outros dias de pescas sáfaras. Dias de intensos nevoeiros, chamadas apressadas dos dóris porque o tempo está a mudar e o vento repentinamente a refrescar. Episódios de dóris perdidos e depois recuperados ao cabo de longas e angustiantes horas e de dias, etc. A exaustão dos pescadores pelas longas e intensas jornadas de trabalho, as parcas refeições e a exigência de tanto esforço onde só os fortes resistiam.
O nosso piloto assinala com certo esgar e lamento sempre atribuído ao pachorrento " Maria Frederico" que fez o seu "Maria Carlota" perder tantos dias de pesca, mais ainda quando vê ou tem notícia de outros lugres já carregados a navegar a caminho de Portugal. Ele, com saudades da família e ao mesmo tempo com a vontade indomável de carregar o navio e regressar, vive por vezes este dilema com mudanças passageiras e compreensíveis de humor. Todos que por lá andamos sabemos bem o que é isso.
E o tempo passa, Damião de Matos anota tudo nos seus cadernos particulares, faz cálculos de navegação, contabiliza ganhos, calcula o bacalhau no porão. O navio está carregado, mas o capitão quer mais 100 quintais. O nosso piloto nota o navio pesado, a água já entra no convés alagando-o. Sente o perigo mas está animado pelo grande carregamento. O desejo de carregar muito é tal que, por vezes, roça a loucura.
No dia 11 de Agosto de 1945 o lugre "Maria Carlota"- que dois anos mais tarde afundará no Grande Banco com água aberta - inicia hoje o seu regresso a Portugal. E depois de variadas peripécias de viagem, os ventos adversos, as calmas, os nevoeiros, chega ao calor das ilhas açoreanas e depois à barra de Lisboa, no início do mês de Setembro.
Várias vezes o nosso nauta Damião de Matos pedia e prometia a Nossa Senhora da Bonança ir à missa na sua capela em Vila Praia de Âncora se chegasse a tempo da sua festa no dia 8 de Setembro daquele ano. A Virgem atendeu o seu pedido e ele cumpriu a sua promessa.
No final de todas as vicissitudes, tudo acabou em bem. Foi uma grande viagem de mar e de pesca. A realização do sonho dos homens da Frota Branca: pescar muito e regressar são e salvo da grande aventura. E abraçar os que se ama e por quem se sentiu a dolorosa saudade.
Damião de Matos nas suas notas muito nos conta. Foi um grande prazer consultar esse repositório de memórias. Com certeza voltaremos com outras perspetivas. Agradeço muito ao seu filho e bom amigo Daniel de Matos a gentileza de me contatar por outro assunto que estamos a tratar e me falar deste repositório de memórias do seu marinheiro e saudoso pai, que guarda com amor. Obrigado meu bom amigo!