O Centro de Memória do Centro Social e Cultural realizou o seu último trabalho de registo e arquivo do património imaterial do Vale do Âncora, através de uma exposição dedicada às "festas e devoções" das freguesias deste vale, depois de ter organizado uma outra centrada nas duas festas mais simbólicas deste território: Festa de Nª Sª da Bonança, em Vila Praia de Âncora, e Senhora da Cabeça, em Freixieiro de Soutelo.
Criação de Arquivo Digital
Cláudia Fernandes, responsável pelo Centro de Memória que agora interrompe a sua profícua actividade durante mais de quatro anos devido à falta de apoios, ao apresentar este derradeiro trabalho de pesquisa e divulgação da recolha de "testemunhos dos atores mais ligados a estas manifestações religiosas", reconheceu que "reencontrei-me com muitos aspectos da minha vida familiar alargada que desconhecia, tanto na participação associativa como profissional", inteirando-se dessa forma de "muitos aspectos e de familiares que nem sabia que tinham estado ligados à comunidade".
Considerou essa descoberta "muito interessante", relacionada com "muitos aspectos do passado de Vila Praia de Âncora" e manifestou esperança de seja possível "retomar este projecto de outra maneira e que era aquilo que eu gostaria de ter tido desde o princípio", referindo essencialmente a organização de um "arquivo digital que eu acho ser fundamental" para que o trabalho desenvolvido não se tivesse cingido às 12 exposições concretizadas.
Esta técnica acrescentou que os temas abordados e expostos à apreciação da comunidade "não são estanques e ainda há muito a dizer sobre eles", fazendo votos para que essa nova fase venha a ser possível mais tarde - anotando que a "universidade de Aveiro vai agora começar um projecto assim" -, se forem conseguidas fontes de financiamento.
25 festas
Embora o acto inaugural não tenha sido muito concorrido, como a própria admitiu, devido à época de Natal e à existência de muitas outras actividades profissionais e associativas, a adesão da comunidade à iniciativa foi grande, mas "não nos foi permitido estudar tão exaustivamente estas 25 festas", como sucedeu com as da Senhora da Bonança e da Senhora da Cabeça mercê da sua "dimensão mediática" e pelo conteúdo que encerram, bem como devido à sua "regularidade, ao contrário de muitas outras" agora expostas, com uma "devoção muito própria".
Se as duas anteriormente referidas eram "exposições monográficas", estas, deixam a porta aberta para se voltar a investiga-las, face à disponibilidade das pessoas para colaborarem.
Manifestações locais de devoção e fé
Cláudia Fernandes assinalou que em quase todos os fins-de-semana do ano havia festas nas freguesias do concelho de Caminha situadas no Vale do Âncora, "porque não houve tempo para abarcar as outras pertencentes ao concelho de Viana do Castelo. Por serem festas de menor dimensão, tinham sempre, contudo, um padrão comum: uma eucaristia festiva e uma procissão, embora não fosse tão certo que houvesse uma novena preparatória ou um baile, tudo dependendo da existência ou não de uma comissão de festas, ou se era a comissão fabriqueira a realizar as festividades.
Algumas destas festas "estão extintas", pormenorizou esta técnica que esteve ao serviço do Centro de Memória, por "falta de comissão, de mordomia ou comissão fabriqueira, mas ainda há quem nos fale um bocadinho sobre elas, com é possível apreciar nesta exposição patente até 17 de Fevereiro.
A organizadora desta mostra patente no Centro Cultural de Vila Praia de Âncora, reflectindo sobre a razão do desaparecimento de muitas destas pequenas festas, atribuiu-o aos inúmeros eventos e diversões existentes nos dias de hoje que atraem as pessoas, e esses "momentos de convívio (do passado) já não são tão necessários.
"Trabalho muito positivo"
O desempenho do Centro de Memória foi elogiado nesta ocasião por José Luís Presa, presidente do Centro Cívico de Vila Praia de Âncora, louvando "estes quatro anos de actividade em que se fez um trabalho muito positivo, incluindo um levantamento que vai ser desactivado" atendendo a que "não há condições (financeiras)", ficando pelo caminho o alargamento do projecto ao concelho de Caminha e ao distrito de Viana do Castelo, como se propunham inicialmente.
"O espólio fica cá para investigação", assinalou ainda após o que agradeceu à Cláudia Fernandes o seu "empenhamento", bem como a todos aqueles que se envolveram neste projecto do Centro de Memória, fazendo votos para que "no futuro", haja condições para prosseguir com ele, disponibilizando-se o CSCPA para o apoiar.
Junta louvou papel do Centro de Memória
Apanhados de surpresa pelo anúncio da suspensão do Centro de Memória, tanto Carlos Castro, presidente da Junta, como Liliana Ribeiro, vereadora da Educação, consideraram uma pena que este projecto terminasse.
O autarca de Vila Praia de Âncora elogiou o papel de Cláudia Viana, com uma "costela" de Vila Praia de Âncora, sublinhou, bem como do Centro de Memória, realçando que sempre estiveram presentes na maioria das iniciativas para as quais foram convidados e apoiando no possível.
Vereadora ficou "triste"
"Triste" por saber nesta ocasião que o Centro de Memória iria suspender a sua actividade, mas como "acredito no reviver da memória", a vereadora vincou que a Câmara tudo fará para "apoiar e encontrar outras alternativas", porque, justificou: "não vamos permitir que as coisas desfaleçam".
Após estas notas introdutórias, Claúdia Fernandes encabeçou uma visita guiada à mostra, tecendo diversos comentários sobra cada uma das Festas do Vale do Âncora, baseada nos documentos e informações das pessoas com mais idade das diferentes freguesias.