O 25 de Abril deste ano ficou marcado por uma intervenção de Miguel Alves , presidente da Câmara Municipal de Caminha, no decorrer da evocação da Revolução de Abril em sessão extraordinária da Assembleia Municipal, em que anunciou "um conjunto de acções sobre Sidónio Pais", realçando ser "um filho de Caminha", registe-se, pretendendo "revisitar" agora a sua praxis política e a sua vida, por alturas do 1º centenário do seu assassinato ocorrido a 14 de Dezembro.
Refira-se que a alusão a Sidónio Pais nas comemorações do Dia da Liberdade, mereceu uma apreciação negativa da parte do deputado municipal Celestino Ribeiro, da CDU, na Assembleia Municipal seguinte, por se ter aproveitado dessa data para citar um ditador.
Face ao desconhecimento que poderia existir sobre a ditadura de cerca de um ano de duração com que Sidónio Pais subjugou o país, aproveitando-se da crise do regime republicano "que só não foi terminal, logo em Dezembro de 1917, com o sidonismo, porque as direitas portuguesas ainda não tinham a experiência de como instalar e fazer durar esse ensaio premonitório de uma ditadura de tipo novo" - como veio a ocorrer com o 28 de Maio de 1926 - conforme referiu o historiador Fernando Rosas no seu livro " Primeira República 1910-1926 como venceu e porque se perdeu", a Câmara de Caminha concretizou um programa neste final de ano, em que envolveu o Armistício da Grande Guerra (1914-1918) com o assassinato de Sidónio Pais.
Esta mistura (leia-se colagem) do fim da I Guerra Mundial com a "República Nova" - como a definiria Fernando Rosas nesse livro -, "esse novo tipo de regime autoritário, nacionalista e corporativo que seduzira Sidónio Pais", acrescentaria ainda o historiador, e que foi apoiado pelas "forças vivas e as direitas integralistas ou protofascistas a partir de março de 1918", prosseguiu o melhor historiador da época contemporânea, como foi há uns meses definido, mereceu um distanciamento do C@2000, embora não se coíba de dar outra visão da história, para que não restem dúvidas aos que pareceram ter sido assaltados por elas.
A insuspeita (assim a julgamos) Antena 2, possui uma rubrica intitulada "Há 100 anos", com o apoio da Hemeroteca Municipal de Lisboa e da Biblioteca Nacional de Portugal, em que são trazidos para a actualidade factos relatados em jornais dessa época.
Num desses apontamentos, somos transladados a 2 de Novembro de 1918, em pleno regime sidonista, caracterizado pela repressão ao movimento operário, prisões e exílios de republicanos, como foi o caso de Jaime Cortesão (deputado na I República, escritor, historiador, fundador da revista Seara Nova, opositor do regime salazarista que também o prendeu) um republicano defensor da entrada de Portugal na I Guerra Mundial contra os boches, na qual se integrou voluntariamente com o posto de capitão-médico. Foi gaseado e regressou a Portugal a fim de reconvalescer mas foi mandado prender.
Segundo referem os responsáveis desse programa no dia 2 de Novembro do passado mês, o jornal "Manhã", nesse mesmo dia mas de 1918, pedira explicações sobre as razões que ditaram a prisão de Jaime Cortesão no consulado sidonista.
Desde a penitenciária de Coimbra, Jaime Cortesão envia uma carta publicada nesse jornal a 2 de Novembro de 1918, respondendo ao apelo do director desse jornal.
"Meu caro amigo
Li na "Manhã" as suas palavras pedindo justiça para mim. Agradeço-lhas do coração. É o socorro do amigo em ré incerta. Já passaram 10 dias depois da minha prisão, ignorando ainda os motivos que a determinaram.
Como sabe, desde que regressei de França, outra coisa não tenho feito se não cuidar da minha saúde que trouxe rudemente abalada. Nem sequer me foi possível reatar os meus trabalhos literários. Foi tal o golpe sofrido, que durante dias estive cego e em sérios riscos de morte. Sofri algumas das piores torturas que podem sofrer-se na guerra.
Regressei a Portugal para tratar-me, tendo iniciado por indicação médica, a cura de repouso ao ar livre nas montanhas. Há mais de dois meses que vivi à beira-mar, numa pequena praia do norte, encontrando-me à data dos últimos acontecimentos em Carcavelos.
Mal que li nos jornais um aviso que mandava que se apresentassem os oficiais em determinadas condições - não sabendo se a nota me dizia também respeito -, dirigi-me esse dia a Lisboa, ao Quartel-General Territorial do Corpo Expedicionário Português (CEP) e apresentei-me ao Sub-chefe do Estado Maior. Foi com a sua anuência, que nesse mesmo dia segui para S. João do Campo, nos arredores de Coimbra, onde tinha então a minha família.
No dia seguinte, foram-me ali prender.
São estas as condições em entrei na Penitenciária. Ao entrar aqui, a minha saúde estava muito melhorada. Desde que aqui estou, tem ela vindo a diminuir progressivamente".
Nesta que é a primeira vez que Jaime Cortesão escreve para o público depois da sua vinda de França, o escritor e médico conclui:
"Fala apenas como protesto, o orgulho, a dignidade ferida do soldado. Aqui dentro há outros soldados vindos de França e África que trazem ao peito condecorações nacionais e estrangeiras ganhas nesta guerra.
E no silêncio da minha fria cela, aferrolhado como um penitenciário, minado novamente pela doença, a abrirem-se nos pulmões as chagas que os alemães lá tinham rasgado, em pergunto: - É esta então a Mãe-Pátria?".
Segundo investigamos ainda, este capitão-médico voluntário esteve preso e incomunicável, durante três meses, sem culpa formada durante o consulado sidonista.
Para quem tem dúvidas sobre o sidonismo, aqui fica um relato, prometendo voltar ao assunto.
SIDÓNIO PAIS NUNCA MAIS