Fiel a si próprio, o Festival de Vilar de Mouros deste ano (23,24 e 25 de Agosto) evidenciou novamente uma característica que o distingue de entre os inúmeros eventos idênticos que se realizam em Portugal no âmbito da música rock: atrai todas as gerações.
A par de ser o pioneiro dos festivais, desde logo o principal cartaz a ter em atenção por qualquer organização/programação que saiba conciliar a diversidade musical com a imprescindível colaboração das duas autarquias (Junta e Câmara).
Ultrapassadas as vicissitudes que nos escusamos de repetir (tão badaladas em 2014 e 2015), iniciou-se há três anos um novo processo organizativo do evento que se revelou eficaz, pacífico e de consolidação de uma marca pela qual se chegou a temer.
A edição deste ano registou um crescendo de público - ainda sem atingir números dos anos 90 do século passado ou de inícios do actual - que permite encarar com confiança o futuro do EDP-Vilar de Mouros.
A organização ("Surprises and Expectations") fala de superação dos números inicialmente estimados para este ano (30.000 espectadores nos três dias) e os assistentes exigem passos mais ousados no próximo Agosto (22,23 e 24), garantindo os organizadores possuírem já três conjuntos contratados, embora tivessem optado por não os divulgar de antemão.
Contudo, parece existir por parte das três entidades envolvidas nesta nova fase do Vilar de Mouros, uma clara intenção de prosseguir com uma consolidação segura a exemplo do caminho já percorrido, atraindo cada vez mais festivaleiros e ganhando dessa forma a confiança dos patrocinadores o que permitirá a contratação de bandas ainda mais sonantes.
Com três noites de lua cheia, como que a garantir o bom tempo que se fez sentir (esteve bem amena a noite de Sexta-feira), os festivaleiros não deram o tempo por perdido.
Pretenders e Peter Murphy brilharam na primeira noite bem estrelada, tal como Incubus no dia seguinte, ou os James no último dia, com um vocalista cobra (Tim Booth) comunicativo - especialista em "banhos de multidão" como se diria na política -, tantas as vezes em que veio cantar num sotaque bem britânico junto ao público e sobre o qual deslizou, empunhando sempre o micro, erguido pelos braços dos festivaleiros empolgados pela sua dinâmica musical, a que aliou a sua mensagem anti-Trump.
Tivemos oportunidade de recolher alguns comentários a este Vilar de Mouros/18.
"O avô dos concertos"
António Mendes, natural do Porto, 51 anos, costuma vir a Vilar de Mouros todos os anos, mas nesta edição "optei por vir só no primeiro dia, porque os Pretenders e os Human League fazem-me recuar no tempo que já vivi há uns anos atrás." Frisou a actuação "soft" dos Human League e considerou "um espectáculo ver tocar ao vivo os Pretenders, porque é uma recordação que fica para a vida".
Tem pena de não ter estado presente em 1971, ao contrário de dois colegas com quem veio este ano, e dos quais ouviu "relatos" de fazer inveja, levando-o a concluir que esses tempos "deveriam ter sido espectaculares".
António Mendes referiu-nos ainda que tem ouvido chamar a Vilar de Mouros "o avô dos concertos", mas, além disso "tem uma atmosfera especial", dando como exemplo o facto de estar perto do palco "sem haver encontrões e ver famílias inteiras aqui, com esta tranquilidade, o que faz com que de facto seja um festival muito especial, relativamente a outros".
"1982 foi quase um ovni"
João, também do Porto, esteve cá em 1982 e regressou no ano passado. Gostou e "voltei este ano, nomeadamente por causa do cartaz" citando o caso dos "Pretenders, uma banda que ainda não tinha visto".
Mas os 15 dias que passou em Vilar de Mouros em 1982, "marcaram-me", porque foi "um festival sui-generis, e quem está hoje aqui a ver este festival, não tem nada a ver com essa realidade, que era quase um ovni, porque contado, ninguém acredita", recordando que "assisti à actuação dos U2 sentado no palco, tal como outras pessoas".
Satisfeito com o rumo do Vilar de Mouros, assegura que pretende voltar nas próximas edições.
"Quem gosta de música, gosta de Vilar de Mouros"
Em Caminha, naturalmente, há muitos apreciadores do seu Festival.
João Costa não tem falhado as últimas edições, "pela tradição, porque sou um caminhense e esta música tem a ver com a minha adolescência e juventude, permitindo-me desfrutar de uma sensação de nostalgia e prazer".
Este caminhense admite que Vilar de Mouros "aponta para um nicho de mercado bem identificado, na casa dos 40, 50, 60 anos, mas muito convidativo, nomeadamente pela sua localização ímpar, o que acaba por atrair pessoas de todas as idades", concluindo que "quem gosta de música, gosta de Vilar de Mouros".
"O mesmo que sempre me atraiu há muitos anos"
Com 26 anos, veio de Viseu ao segundo dia, porque trabalhou na véspera.
"Há já muitos anos que ouço falar de Vilar de Mouros e tinha que vir comprovar uma vez", justificou a sua presença, após ter atravessado a ponte improvisada sobre o rio Coura de acesso ao parque de campismo.
É presença habitual em festivais e veio até cá atraído pelos Crystal Fighters e James, mas "é como lhe digo, não venho cá propriamente pelo cartaz mas para experimentar o ambiente, porque desde pequenino que ouço falar de Vilar de Mouros e de Paredes de Coura, pelo que tinha muita curiosidade". Desde 2011 que vem a Paredes de Coura, mas "Vilar de Mouros proporcionou-se este ano", concluiu.
Interior do recinto reorganizado
Mais diversão para os mais jovens e crianças e mudança de localização do mobiliário de apoio à gastronomia para junto das barracas e roulottes, resultaram, nomeadamente neste último caso, permitindo que muitos dos espectadores assistissem sentados a alguns dos concertos. É que a idade já um pouco avançada destes veteranos e fieis a Vilar de Mouros requere alguns apoios extra a fim de retemperar forças para enfrentar, de pé, as actuações mais apetecidas.
O parque de campismo manteve os apoios já registados no último ano e o parque para autocaravanas não faltou.
A tranquilidade imperou nesses três dias, já com saudade…da próxima edição.