Um painel de azulejos da autoria de Mário Rocha, simbolizando a figura do popular tocador de concertina de Covas, Vilarinho, recentemente falecido, pode ser apreciado à entrada da Casa do Marco até ao próximo dia 19 de Agosto, data em que encerra a 20ª edição da Arte na Leira inaugurada há oito dias nesta freguesia caminhense.
"Era um grande mestre da concertina"
Mário Rocha explicou-nos o envolvimento desta figura popular e carismática da Serra d'Arga na mostra deste ano, constituindo um dos seus principais atractivos:
"Foi uma promessa que eu tinha feito há muitos anos ao Vilarinho, em que lhe iria fazer uma coisa em cerâmica, além de um trabalho a óleo concretizado há 30 anos. Só agora calhou, depois de ele ter falecido há uns anos, e aproveitei o facto de a Arte na Leira cumprir agora 20 anos para preparar este trabalho, depois de ter feito há dois anos uma exposição em Covas, com pessoas da aldeia, altura em que pensava fazer um trabalho muito grande sobre o Vilarinho, mas não houve tempo suficiente para fazer um bom trabalho, porque ela coincidiu com a abertura da Arte na Leira desse ano.
Adiantou que essas figuras de pessoas de Covas que estiveram patentes há dois anos numa mostra nessa freguesia cerveirense, vieram agora incluir a 20ª edição da Arte na Leira.
Foi desta forma que "eu quis prestar homenagem ao Vilarinho, porque vinha cá todos os anos com a sua concertina, bebia o seu copo, animava as pessoas, além de o encontrar várias vezes em Covas ao longo do ano".
"Um ícone da arte popular"
Fernando Nogueira, presidente do Município cerveirense, acompanhado pelo secretário da Junta de Freguesia de Covas, convidados para a inauguração da Arte na Leira deste ano, disse ao C@2000 que o "Nelson Vilarinho é um ícone da arte popular e da genuinidade dos nossos artistas, à qual sempre se manteve fiel" através da sua concertina, "nunca pretendendo modernizar-se nem comercializar-se, mantendo o seu percurso musical intocável", não seguindo as pisadas de outros artistas.
O autarca cerveirense elogiou "o fabuloso painel de azulejos" representando o homem da concertina de Covas, uma aldeia integrada no maciço rochoso da Serra d'Arga.
Acentuou a importância e a integração da Arte na Leira no contexto serrano, e que agora perpetuou a imagem de um dos mais fiéis intérpretes da tradição musical por intermédio desta peça de arte, em relação à qual não colocou de parte a hipótese da sua aquisição - uma sugestão desde a primeira hora sugerida pela Junta de Freguesia de Covas -, porque "se encaixaria muito bem na nossa magnífica freguesia de Covas".
"Arrisco muito, sou muito teimoso"
Se a Arte na Leira deste ano fica indelevelmente marcada pela figura de Nélson Vilarinho, o projecto de atrair até Arga de Baixo artistas de todo o mundo mantem-se inalterável.
Mário Rocha trouxe até aqui mais de 50 artistas de diversos países (Portugal, Espanha, Brasil, Holanda e França), a par da sua própria produção, voltando a pegar no tema da luta contra a fome "porque continua tudo na mesma, não é verdade?", expressa num segundo painel de cerâmica "com algumas mudanças em alto-relevo".
Mário Rocha aproveita este espaço e este momento para inserir na mostra algumas peças da sua autoria de menor tamanho, para que a sua venda possa minimizar os custos desta exposição, "sem a qual isto não teria durado vinte anos", reconhece, a par do apoio de amigos e da Câmara Municipal de Caminha.
"Já vai em 20 anos e de certeza que não vai ficar por aqui", rematou, com o som de uma concertina ao fundo.
Questionado sobre se se sente realizado ao fim de 20 anos de insistência e aposta na Serra d'Arga e na Casa do Marco, admitiu que "quando acordo de manhã, sinto-me sempre realizado, porque todos nós temos um caminho, um percurso, do qual nunca tive medo e fui sempre em frente, arriscando muito, porque sou muito teimoso", sempre "com humildade, porque não quero enganar ninguém".
"Faço-o com muito gosto"
Guilherme Lagido, vice-presidente camarário, face à ausência de Miguel Alves, representou o Município de Caminha na abertura da Arte na Leira/18, fazendo-o "com muito gosto", disse ao C@2000, porque, justificou, "acho que é um evento que se conjuga muito bem com a preservação e promoção da Serra d'Arga, até porque nem sempre a promoção garante a preservação e, por vezes, tem-se a ideia de que a preservação não permite a promoção".
"Promoção do nosso concelho"
Adiantou que "um evento como este é absolutamente amigo da Serra d'Arga e é uma forma de trazer pessoas que habitualmente não a visitam, constituindo também uma forma de nós mostrarmos aquilo que é a modernidade, com aquilo que é o passado". Por tal motivo, "acho que este evento é um casamento perfeito" apoiado pela Câmara de Caminha, atendendo a que "dignifica o concelho, as gentes da Serra d'Arga e é isso que nós pretendemos: a promoção do nosso concelho".