Miguel Alves, presidente do Município caminhense, concedeu importância à chegada do combóio ao concelho de Caminha, considerando que essa inovação se tornou "avassaladora" para a economia da região, a tal ponto de o Executivo municipal da altura ter ido esperar a comitiva chefiada pelo primeiro-ministro da época (1878) a Gontinhães, após o que foi servido um lanche, bem melhor do que o que o seu Executivo ofereceu aos palestrantes e participantes no seminário de 20 e 21 de Abril: "Nós demos um café!", disse, com humor.
O autarca elogiou o trabalho desenvolvido pelo Agrupamento de Escolas do Concelho de Caminha, bem como a exposição patente no Museu Municipal, sobre os 140 Anos do Combóio no Concelho de Caminha, um evento que "nos coloca num patamar superior" na tentativa de "envolver a comunidade caminhense".
A presidente da Direcção do Agrupamento, Maria Esteves, também agradeceu o empenhamento dos alunos, professores e autarquia na concretização deste evento que honrou a escola.
A presença de familiares de Gilberto Renda neste evento não deixou de ser referenciada por Paulo Bento professor e historiador local, bem como de ex-funcionários da CP, incluindo um antigo chefe da Estação de Caminha, ele próprio descendente de ferroviários desde o tempo de seu avô.
"É um testemunho"
A exposição levou o vice-presidente Guilherme Lagido a "exultar" com a iniciativa levada a cabo pela escola, após ter destacado igualmente a chegada da linha férrea a Caminha, e ser uma "sorte que ela se mantenha activa, o que permite garantir o património".
Recordou que as pessoas choravam nas estações quando se iam despedir e destacou a presença da apanha do sargaço num dos painéis da estação de Caminha, uma arte "em extinção", lamentou, tais como os meios de tração animal.
Falando das opções tomadas ao longo dos tempos com as vias de comunicação, Lagido salientou que o país após ter apostado no plano rodoviário, se tinha voltado novamente para o ferroviário.
A presença de Paula Azevedo e o seu contributo na área da arquitectura ferroviária, foi outro dos pontos altos do colóquio, tal como o da ancorense Aurora Rego, centrada nos acontecimentos locais.
Aurora Rego centrou-se nas ligações Âncora-Caminha
Após referir as diligências efectuadas pelos deputados junto dos governos nos meados do século XIX, para que a linha férrea chegasse ao Minho, esta historiadora ancorense chamou a atenção para o facto de o traçado da linha férrea de Viana do Castelo para norte acompanhar a antiga Estrada Real, junto à costa portanto, o que permitia desfrutar "do melhor passeio de Portugal", conforme escreveu Figueiredo da Guerra em 1891. Entre Âncora e Caminha, a distância é de 6.400 metros.
Esta historiadora divulgou uma série de dados sobre obras e pontes, sem esquecer o túnel (410 metros) de Caminha, o tal que permitia a esta vila ser a única do país em que os vivos passam por baixo dos mortos, conforme referiu outro historiador local, o engº João José Azevedo, pelo facto de o cemitério se encontrar por cima.
Na sua dissertação, Aurora Rego referiu-se às pontes sobre o rio Coura, suas vicissitudes, atrasos de construção e opções tomadas, assinalando ainda o fim inglório da Ponte Eiffel sobre o rio Âncora, em 1988, cujos restos foram desprezados e, mais tarde, foram parar a outro município minhoto com a finalidade de ser adaptada à circulação rodoviária, o que nunca sucedeu, ficando para ali "abandonada".
"Dei uns centos de quilómetros ao meu país"
A visita ao concelho de ministro Fontes Pereira de Melo, a 30 de Junho de 1878, "acompanhado de mil pessoas convidadas", transportadas em 20 carruagens, desde Campanhã até Caminha, na sua intervenção, recebidas em apoteose em Gontinhães e na sede do concelho, onde o Município presidido por José Maria Rego ofereceu um lanche num pavilhão improvisado para 150 convidados, mereceu destaque especial. Paralelamente, bandeiras, foguetes e bandas de música e muito povo animaram o acto de inauguração da via-férrea até Caminha, durante o qual o primeiro-ministro Fontes Pereira de Melo discursou, rebatendo aqueles que o acusavam de "esbanjador". Se o apelidavam de "esbanjador", isso não o perturbava, disse em Caminha, porque "dei uns centos de quilómetros ao meu país".
Passageiros, mercadorias, peixe fresco (sardinha) de Gontinhães, gado e outros produtos locais passaram a ter um vínculo de transporte privilegiado para norte e sul do concelho, além de permitir um incremento substancial de turistas nas estações balneares da antiga Gontinhães e Moledo, incluindo galegos, após a construção da ponte Eiffel de Valença.
Fotorreportagem: António Garrido