A apanha do sargaço e sua secagem na praia de Moledo ainda continuam a ser uma prática habitual de alguns dos seus habitantes, quando, no passado, a totalidade dos agricultores desta freguesia vinham recolher das águas do mar o adubo com que fertilizavam os campos e as suas sementeiras, principalmente de milho e batata.
"O sargaço dá mais paladar", assim justificou José Veiga, 79 anos, esta forma de adubar a terra onde se planta a batata e que ainda hoje, se necessário, enfrenta a água fria do oceano empunhando o seu redenho, com a finalidade de retirar o "argaço" para terra.
Ultimamente, não tem sido necessário este trabalho de quase três horas diárias, entrando e saindo do mar, porque as algas têm vindo dar à praia, por efeito do "mar rijo e vento" assinalou o Tio Veiga, mas, se isso não sucede, não resta outra alternativa que não seja "ir buscá-las onde elas estão".
Aproximando-se o Verão, o(a)s sargaceiro(a)s requerem as respectivas licenças para apanha de plantas marinhas e ocupação de terreno dunar ("mostros"-cabeços de dunas, como lhes chamam os sargaceiros) ou no próprio areal, para a sua secagem e, num dia estabelecido pela Capitania de Caminha, a Polícia Marítima procede ao sorteio das parcelas de terreno.
"Eles deviam era agradecer-nos por limparmos a praia, ao invés de cobrarem 15€ por talhão", afirmava um dos 18 inscritos no sorteio dos 43 lotes sorteados e delimitados com estacas de pau, realizado esta semana.
Reservados estes espaços, os sargaceiros podem começar a estender as algas nos finos areais desta praia até final do ano ou fazendo pequenos montes (outra das formas de secagem utilizadas), a aí podendo permanecer entre três e dez dias, após o que são transportados em tractores para os (poucos) cobertos ainda existentes junto à praia.
José Veiga recorda que quando se iniciou na apanha do sargaço aos 11 anos, ajudando a sua mãe, ainda havia mais de 30 cobertos, presentemente, e na sua maioria, desaparecidos e transformados em construções de habitação.
Esta tradição do sargaço passando de pais para filhos ainda se mantém, como também nos referiu Rosa Ribeiro, aporá substituindo sua mãe. Transporta o sargaço desde a beira do mar, em sacos, até aos "mostros" porque "não tenho quem me ajude a carregar a padiola" onde habitualmente depositavam as algas, depois de aí colocadas com o auxílio dos despedouros, seguindo-se o alisamento da areia com recurso às ancinhas, igualmente instrumentos de trabalho desta faina, tal como os cestos em que também acarretavam esta flora marinha.
Antigamente, os carros de bois (presentemente, já não há um único em Moledo) transportavam o sargaço, agora substituídos pelos tractores, como relembrou Rosa Ribeiro.
O seu aproveitamento para adubo das terras agrícolas estendia-se a outras freguesias, tais como Cristelo, Vilarelho e Venade.
António Alves, morador nesta última aldeia, referiu que quando jovem, vinha de noite até Moledo apanhar algas e aí se mantendo no dia seguinte, mas os que iam para a ilha da Ínsua -outro local de concentração desta flaura oceânica- permaneciam uma semana, aguardando pelas marés mortas a fim de transportarem este adubo natural em gamelas superlotadas, até à ponta Ruiva (Cristelo), doca de Caminha (principalmente os agricultores de Vilarelho) ou navegando pelo rio Coura, até ao cais do Pego, em Venade.