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"Fascistização portuguesa acentuou-se com a Guerra Civil Espanhola", Fernando Rosas

120 alunos do Agrupamento Escolar debruçaram-se sobre uma realidade trágica vivida no outro lado do Rio Minho

A Guerra Civil de Espanha (1936/39) foi pretexto para um trabalho escolar neste ano lectivo, com os 120 alunos do 9º ano do Agrupamento de Escolas de Caminha, que culminou com uma série de actividades nos dias 28 e 29 de Abril.

Segundo Paulo Bento, professor de História do agrupamento e um dos impulsionadores da iniciativa, "não fazia sentido que a Guerra Civil de Espanha não fosse tratada no contexto das escolas" de Caminha e Vila Praia de Âncora, atendendo à proximidade do concelho com a Galiza e à própria carnificina que originou, sendo definido este conflito fratricida por um dos participantes, como "a pior coisa do mundo".

Este historiador apresentou um trabalho sobre a interdependência de Caminha e A Guarda e demais municípios vizinhos no decorrer dessa guerra que causou mais de 100.000 vítimas entre fuzilados e desaparecidos.

Visita ao "campo de concentração"

Uma visita realizada ao antigo Colégio dos Jesuítas (os Jesuítas portugueses ocuparam-no entre 1916 e 1932, data em que foram expulsos após a instauração da República no Estado Espanhol), na Pasaxe, A Guarda, e posteriormente convertido em campo de concentração aquando do levantamento franquista em Julho de 1936, marcou o primeiro dia desta actividade escolar.

Os alunos envolvidos neste projecto visitaram as ruínas do antigo Colégio, numa acção guiada pelo Professor galego Xosé Malheiro Gutiérrez, convertido num dos 12 campos de concentração criados pelos falangistas a partir de 1936 na costa galega, como sucedeu com o Mosteiro de Oya.

Aqui estiveram detidos em condições desumanas mais de 2 mil presos políticos republicanos (incluídas mulheres que aqui deram à luz), muitos dos quais viriam a ser fuzilados sem julgamento ou como resultado de juízos sumários. Além dos presos galegos, a sua maioria era proveniente da frente de guerra das Astúrias, região em que foi colocada resistência armada aos golpistas, ao contrário do sucedido na Galiza, em que não houve capacidade para o fazer, limitando-se os insurgentes a procurar os republicanos em suas casas, prende-los ou matá-los, com excepção dos que conseguiram emigrar (nomeadamente para a América do Sul) ou passar à clandestinidade.

Houve alguns que tentaram refugiar-se em Portugal, tendo-o conseguido graças ao apoio de oposicionistas e da própria população, mas os que eram descobertos pela GNR e Polícia Política, seriam devolvidos a Espanha, sendo desde logo eliminados.

Xosé Malheiro chamou à atenção dos alunos que ainda hoje existem campos de refugiados com características semelhantes, bem como guerras civis com consequências devastadoras, recordando que "não estamos livres de que isto se repita".

Memorial em memória das vítimas

Posteriormente, os alunos deslocaram-se até ao cemitério de Sestás, em Camposancos, onde foi erguido nos anos 80 do século passado um Memorial dos 40 presos fuzilados de noite e enterrados numa vala comum, fora dos muros primitivos. Um deles era português, natural de Vila Real (Fernando Nunes da Costa).

"Quantos de vós serieis capazes de morrer pelos vossos ideais, como estes fuzilados?", questionou o guia desta visita a um local onde os guardeses, anonimamente, se habituaram a depositar flores em recordação dos presos políticos, ainda antes da construção deste memorial.


Após o regresso a Portugal, foi inaugurada na escola uma mostra dos trabalhos dos alunos premiados e, à noite, exibido no Valadares o filme "Por Quem os Sinos Dobram", seguindo-se no dia seguinte as conferências e a exibição de um documentário com declarações de antigos prisioneiros políticos e seus familiares, em que esteve presente o seu realizador.

"Transmitir conhecimentos (aos alunos), com enfoque nas ligações comuns" entre Caminha e A Guarda, foi o mote da intervenção de Maria Esteves, presidente do Agrupamento de Escolas, a abrir o ciclo de intervenções, esperando que essa jornada se revelasse "uma boa jornada de enriquecimento pessoal".

"Iniciativas importantes"

Segundo se expressou Jorge Fernandes, director do Centro de Formação do Vale do Minho, esta iniciativa "complicada de organizar", enfatizou, foi das mais importantes e em que a escola tem vindo a insistir, recordando, a propósito, o colóquio dedicado a Luciano Pereira da Silva. Por tal motivo, agradeceu aos professores Paulo Bento e Carla Alves, principais impulsionadores desta acção destinada a docentes e não docentes, admitindo que "tenho-me enriquecido com estas formações".

Alcaide de A Guarda presente

A presença de António Lomba, presidente do Município de A Guarda, foi registada com ênfase pelo seu colega caminhense Miguel Alves, o qual destacou a "colaboração" que tem sido conseguida, porque, justificou, "temos um caminho comum".

Comentando as conferências e demais iniciativas, o autarca caminhense recordou que "foi aqui ao lado que a guerra estourou", tendo evocado o bombardeamento da cidade basca de Guernica pelos nazis alemães e fascistas italianos (alunos da escola de Vila Praia de Âncora reproduziram a tela de Picasso que imortalizou esse genocídio).

Referiu que como consequência desta guerra, a própria Europa viria a ser "contaminada", descambando na II Guerra Mundial.

"Os muitos episódios de fronteira" verificados nesta região, os presos e mortos na outra margem do rio Minho, cujos "gritos e tiros de morte" se ouviam na raia portuguesa, "devem merecer respeito institucional e físico, pelo que se passou aqui mesmo ao lado", concluiu.

Contributo do jornalista moledense Ilídio Rocha

A primeira intervenção de fundo sobre o tema, coube ao historiador Paulo Bento, centrando-se na criação do Colégio de Camposancos e nas vicissitudes pelas que passou o Colégio dos Jesuítas, passando a elencar episódios e vivências de uma época trágica, baseando-se em relatos do jornalista moledense Ilídio Rocha, uma figura da história local ainda pouco conhecida, mas de importância capital para perceber as movimentações políticas no lado português, nomeadamente em Moledo, antes do levantamento militar falangista.

Política externa do Estado Novo

A intervenção do historiador Fernando Rosas foi seguida com expectativa, face à sua visão ibérica de um conflito em que o salazarismo jogou em vários tabuleiros, embora estivesse de alma e coração com os franquistas.

Rosas baseou a estratégia de Salazar em três pontos: Defender o Império, sem o qual, na sua óptica, não haveria independência nacional; defender a soberania continental face ao perigo espanhol, temendo a subversão comunista com o advento da República em 1932 e eventual anexação de Portugal (um receio que acompanhou o ditador português mesmo após o triunfo de Franco, havendo documentos de 1940 no Estado Maior Espanhol que revelavam a intenção de invadir Portugal de modo a criar a Espanha única que tinha terminado em 1640, tal como Hitler também se preparava para fazer o mesmo em relação a Espanha e Portugal, mas acabando por desistir dessa intenção); defender o regime (Estado Novo), aproveitando a velha aliança com a Inglaterra que foi aproveitada pelos três regimes (Monarquia, I República e Estado Novo).

"Intervenção subversiva contra a República"

Contudo, Salazar viria a "imiscuir-se" com empenho no combate aos republicanos espanhóis (os quais, no curto espaço de tempo que durou a República no país vizinho, apoiaram o chamado "reviralho" português), permitindo conspirações em Lisboa e na fronteira contra o Governo legítimo republicano, auxiliando os franquistas com material bélico (logística), controlando fronteiras e devolvendo fugitivos políticos aos seus algozes espanhóis, fazendo propaganda através do Rádio Clube Português e Emissora Nacional, recrutando voluntários ("Viriatos") para combateram ao lado das tropas franquistas junto dos legionários, a par dos mercenários provenientes da Guerra da Abissínia e da Pérsia.

BES apoiou financeiramente fascistas espanhóis

Pormenor curioso atendendo aos acontecimentos na banca portuguesa dos últimos tempos, foi o facto de o BES e a CUF terem apoiado financeiramente os fascistas espanhóis.

Fernando Rosas considerou "decisivo" o apoio de Salazar nos primeiros meses da Guerra Civil, para o triunfo dos golpistas, e recordou a "humilhação" pela qual passou a Embaixada Espanhola em Lisboa no tempo em que representava a República, cujo responsável diplomático, Sanchez-Albornoz, via a sua actividade cerceada pela designada "Espanha Negra", acabando por ser expulso de Portugal após a eclosão da Guerra Civil.

O historiador abordou ainda as diversas movimentações diplomáticas dos países europeus para que a Espanha franquista triunfadora do conflito interno, não viesse a lutar ao lado de Hitler e Mussolini na guerra mundial que se seguiu. Fernando Rosas revelou que os únicos países que apoiaram efectivamente os republicanos espanhóis durante a Guerra Civil, foram a União Soviética e o México.

O historiador concluiria, dizendo que a "fascistização portuguesa se acentuou com a Guerra Civil Espanhola".

Redimir a Espanha pela escola"

O último orador foi Xosé Malheiro Gutiérrez, tendo destinado a sua intervenção à repressão exercida sobre o ensino no final da Guerra Civil.

Destacou o esforço encetado pelos republicanos na luta contra a iliteracia, criando bibliotecas populares (muitas delas itinerantes e com 100 livros) e escolas, na tentativa de alfabetizar as classes populares, atendendo a que nos anos 30, havia 80% de analfabetos, dos quais 80% eram mulheres, tendo sido investidos 800 milhões de pesetas nesse objectivo.

"Sagrada missão"

Logo que terminada a Guerra Civil, os vencedores envolveram-se numa "sagrada missão", aproveitando as estruturas existentes para as transformar em propaganda e afastar muitos professores, dos quais, cerca de 100 foram fuzilados e exilados, só na Galiza, tal a "purga" levada a cabo pelo "Movimiento" fascista.

Foram apreendidos e destruídos livros com o pretexto de conterem propaganda marxista e comunista, sendo substituídos por outros de "ordem cristã" com incidência a partir de 1941, ao contrário do que sucedera na República, que pugnou pela secularização do ensino.


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Edição: C@2000/Afrontamento
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