Natal 2000
ASSINATURAS
FICHA TÉCNICA

PUBLICIDADE
Nº 9: 23 a 29 DEZEMBRO 2000


"PORCUREI SEMPRE TER FAIR-PLAY E CAPACIDADE DE RIR E APRENDER COM ELES (CARICATURISTAS)"

Mário Soares, ao CAMINH@2000, no acto de inauguração da exposição de caricaturas suas, patente no Museu Municipal de Caminha até final de Janeiro.

A Casa-Museu João Soares e a Fundação Mário Soares trouxeram até ao Museu Municipal de Caminha uma exposição de caricaturas e peças de cerâmica do actual eurodeputado e ex-presidente da República Mário Soares, o que acontece pela segunda vez no nosso país, após uma primeira mostra em Aveiro.

Mário Soares em pessoa, apresentou-se em Caminha, recordou a sua passagem por estas paragens quando ainda jovem, velejou no rio Minho na companhia de Álvaro Salema -um intelectual e companheiro de oposição ao regime salazarista possuidor de uma quinta em Vilarelho-, bem como a presidência aberta em Viana do Castelo, com diversos actos públicos no nosso município.

As boas vindas na câmara municipal e a recepção oficial no auditório da Biblioteca, onde Mercedes Reis, "uma hispano-portuguesa", como a apelidou Mário Soares, com raízes em Caminha e directora da Casa-Museu de Leiria, realçou o "papel de Mário Soares no mundo, na defesa da liberdade e democracia".

"HOMENAGEM AOS CARICATURISTAS"

O personagem político alvo desta exposição, explicou aos presentes que a ideia de promover este certame, surgiu no decorrer de um almoço-convite endereçado a caricaturistas durante o seu segundo mandato como presidente da República, em que um deles se terá lamentado de nunca se ter realizado uma exposição dos trabalhos destes desenhadores críticos.

Mário Soares pegou a deixa e concretizou-a no próprio palácio de Belém, o que, inclusivamente, surpreendeu o próprio presidente da república brasileira, Henrique Cardoso, na altura de visita a Portugal, e tão encantado ficou, que se mostrou encorajado a realizar idêntica mostra satírica no Brasil.

Todo o espólio desta exposição foi recolhido na Casa-Museu de Leiria -"um pólo que irradia cultura para todo o distrito há já quatro anos", assim a definiu Mário Soares- e que prepara uma exposição sobre a história contemporânea (Séc. XX), para além de pretender tornar-se num centro documental de estudos sociais e políticos, concentrando na sua biblioteca dezenas de milhar de obras.

Após este acto, o presidente do município caminhense ofereceu lembranças ao antigo presidente (um prato em cerâmica com um desenho da praça forte de Caminha, da autoria de Duarte d'Armas, e uma réplica em prata de uma das peças descobertas no decorrer das escavações arqueológicas do Coto da Pena/Vilarelho), tendo ainda oportunidade de visitar as instalações do museu e biblioteca.

Antes de deixar Caminha, Mário Soares prestou-se a responder a algumas questões relacionadas com o tema que o fez deslocar até cá:

CAMINH@2000 - No seu entender, qual o caricaturista que o retratou melhor?

MÁRIO SOARES - Todos eles me caricaturaram, cada um com o seu estilo, quase todos com o seu traço inconfundível. O Augusto Cid publicou um livro sobre mim -muito engraçado- e que não está aqui reproduzido, intitulado "Soares é Fish", e em que estou sempre de peixe. Outro grande caricaturista é o António, bem como o João Abel Manta, o mestre.

P - São melhores os caricaturistas de direita ou de esquerda?

R - Os caricaturistas são mais de esquerda do que de direita, mas a maior parte deles não tem partido, são independentes e muito críticos, e é nisso que consiste a sua grande força.

P - Acha que os portugueses aceitam com humor e fair-play as caricaturas que lhes são feitas?

R - Conforme os portugueses. Uns sim e outros não. Aqueles que são seguros de si, com certeza que aceitam com graça, mesmo quando as coisas são um bocado dolorosas. Riem-se e dizem : - Está bem, isto é injusto, mas teve graça!

P - Qual a caricatura que mais o irritou?

R - Nenhuma me irritou, propriamente dito. Achei graça a algumas, como aquela em que apareço a dizer : "Os portugueses empurram-me todos para a presidência!", surgindo eu caricaturado e umas dezenas de caricaturas minhas atrás, a empurrarem-me (risos)...e é evidente que isto é uma crítica engraçada, tal como muitas outras que eu agora não me lembro.

P - Se fizesse a sua auto-caricatura, o que é que desenharia?

R - É uma hipótese que eu não vejo, porque não tenho nenhuma aptidão para desenhar. Realmente, com um lápis na mão, não faço nada de jeito...

P - Qual o melhor político português para caricaturar?

R - Bem, os políticos que estão mais em evidência, por uma razão ou por outra, no poder ou na oposição, são os mais caricaturados. Desde o 25 de Abril, o Otelo, Melo Antunes, Spínola, Costa Gomes, Eanes, Cunhal, eu próprio, Sá Carneiro, Freitas do Amaral e, agora, os que estão ou estiveram no poder, como o Cavaco e a Maria de Lurdes Pintasilgo, sem esquecer os não políticos.

P - E o político estrangeiro?

R - É difícil responder-lhe a essa pergunta. Conheço caricaturas com muita graça do presidente Mitterrand e lembro-me de caricaturas do Filipe Gonzalez, Willy Brandt e muitos outros. Os americanos também fazem caricaturas muito boas.

P - Acha que as caricaturas são uma arma de desgaste para um político?

R - Sem dúvida. São uma arma de correcção e de moralização do político. O caricaturista é sempre um moralista e vê por um olho crítico os políticos, pondo em relevo aquilo que são as suas fraquezas ou debilidades.

P - Sofreu muito com isso?

R - Não, procurei sempre ter fair-play -como dizem os ingleses- e ter a capacidade de rir e aprender com eles.