Sem constar do programa do Entre Margens que no passado fim-de-semana se desenrolou na sede do concelho, Carlos Nuñez, o intérpetre vigués de música tradicional galega, fez questão de marcar presença numa das palestras agendadas para o auditório do Museu Municipal, subordinada ao tema: "Usos do cancioneiro galego-português".
"O primeiro som europeu ouvido no Brasil foi uma gaita-de-fole-galega", revelou Carlos Nuñez, ao iniciar a sua intervenção nessa palestra, baseado numa gravura da carta de Pero Vaz de Caminha, em que se vê um gaiteiro (natural de Santarém) a tocar para os índios do novo continente.
Estreitamente ligado à investigação musical, a par da sua actuação exímia como intérprete de gaita-de-foles, flauta ou ocarina, Carlos Nuñez, ultimamente, tem mantido contactos estreitos com a realidade musical brasileira, aprofundando os seus conhecimentos da miscigenação musical resultante dos contactos dos músicos galegos e portugueses desde há séculos.
Este intercâmbio musical é ainda comprovado, segundo Carlos Nuñez, através de uma estatueta existente na Catedral de Tuy, representando um índio gaiteiro, resultante, na sua teoria, do aproveitamento deste instrumento pela Igreja (Jesuítas), para cativar os indígenas. Assinalou, contudo, que a gaita ficaria reduzida no Brasil a pequenos grupos, sofrendo as naturais evoluções de construção.
Este foi um dos pormenores interessantes do músico internacional galego, que se deslocou a Caminha, não para tocar, mas para falar deste "cancioneiro galego-português", resultante de uma prática comum, em que "cantamos e tocamos com os portugueses", frisou o mestre da gaita ibérica.
Revelou que um gaiteiro de Rianxo, um tal José Luís, também emigrou para o Brasil, contribuindo todas estas andanças para uma "mescla de músicas". Muitos estudiosos desse país avalizam a importância dos instrumentos desta região peninsular, na evolução da música brasileira.
Citou Castelao nesta sua passagem por Caminha, que afirmou no seu tempo que "Espanha era um Estado e Portugal uma Nação".
A origem dos instrumentos musicais e as movimentações dos povos em épocas remotas, interessam este estudioso daquilo que habitualmente se dá pelo nome de Mundo Celta, daí resultando a designada Música Celta, na qual ele próprio se integra.
Através de vídeos e fotografias, Carlos Nuñez aproveitou esta palestra cultural para revelar mais pormenores desse momento da evolução da história europeia.
Mostrou um gaiteiro escocês a tocar uma gaita-de-foles ibérica, facto aproveitado pelos escoceses para tentar provar que este instrumento musical era proveniente do nosso noroeste peninsular. Com alguma dose de ironia, Nuñez disse que o que os escoceses pretendem "é que não se diga que a gaita era inglesa!"
Chamou a atenção para a importância da informação oral - a única possível durante milénios - cuja recolha se revela determinante na preservação do legado musical, a par de diversos documentos medievais que chegaram aos dias de hoje, como os cancioneiros dos trovadores, em que se incluem Afonso X e as suas Cantigas de Santa Maria ou do seu neto D. Dinis.
A origem dos povos celtas e a sua presença no noroeste peninsular, Bretanha e ilhas britânicas, sempre foi objecto de controvérsia, embora prevalecesse a teoria da sua proveniência do centro da Europa.
Carlos Nuñez disse em Caminha que um linguista inglês, baseado num documento proto-celta inscrito numa necrópole no sul do nosso país, incluindo uma divindade desses povos, defende agora a hipótese de os celtas serem originários da região que agora é Portugal.
"Norte de Portugal é um tesouro escondido"
O C@2000 falou com Carlos Nuñez no final da sua palestra, recordando este a sua actuação na Casa da Anta, em Lanhelas, lá pelos meados dos anos 90, depois de ter gravado um disco didáctico em Lisboa uns anos antes, porque, justificou, "Portugal era uma aventura necessária".
Recorda que esse concerto de Lanhelas foi "mágico", como um avant premiere da sua carreira no nosso país.
Pedindo-lhe uma justificação para a sua presença-surpresa no Entre Margens, à beira do rio Minho, entre o Minho e a Galiza, admitiu ser isto "uma realidade tão perto e tão longe", para que, no futuro, "sejamos capazes de compartir com mais gente no mundo esta energia e curiosidade mútuas".
Definiu o Norte de Portugal como um "tesouro escondido", como se fosse uma "reserva da Humanidade que, afortunadamente, está viva", daí o seu prazer em vir falar "convosco, falar com os músicos".
Referiu ainda que a Galiza já é uma "autonomia consolidada" o que levou à perda de uma "certa autenticidade" quando se realizam eventos "de uma forma oficial". No de Caminha, existe uma identidade natural, vincou.
Actuar em Caminha seria um sonho que um dia gostaria de concretizar.
(NOTA: Na próxima edição, daremos mais apontamentos de reportagem deste evento.)