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TRIBUNA
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Realização Espiritual da Pessoa Humana

Na vida quotidiana, existem muitos recursos pelos quais as pessoas se podem realizar espiritualmente, basta que não percam os ideais de ter sempre presente a preocupação de como agradar a Deus, porque hoje em dia o que parece estar a acontecer é que cada vez menos se lembram de Deus, O qual tenta-se substituir por outros e mais recentes valores: produtividade, lucro, poder do domínio sobre o próximo, manipulação, ingratidão, desconsideração e aparência.

Nesta confusão e substituição de valores, procura-se ver em cada um, através também de uma auto-crítica, o mais desapaixonada e sincera, onde residem as causas e as orientações para levar a vida que se ostenta. O que é que justifica os pensamentos e ações? Objetivos de domínio sobre o outro? A fé numa vida eterna de felicidade material, espiritual e/ou as duas, caso isso seja possível.

Neste mundo conturbado ainda há espaço, e tempo, para a realização espiritual porque: "Não faz muitos anos que Deus desempenhava uma parte muito importante na vida das pessoas no mundo ocidental. Para ser socialmente aceitável a pessoa tinha de evidenciar ter fé em Deus, mesmo que nem todos praticassem o que diziam crer. (…) Hoje, porém, a situação se inverteu. Ter fortes convicções religiosas é tido por muitos como ser bitolado, dogmático, até mesmo fanático" (SOCIEDADE TORRE DE VIGIA DE BIBLIAS E TRATADOS, 1990:329).

Numa breve análise sobre uma das muitas definições de religião, quando abordado o seu objeto, diz-se que constitui uma relação entre o homem e o sobrenatural. Tal relação pode verificar-se pela oração que constitui uma forma privilegiada de com Ele se manter um diálogo fecundo, íntimo e discreto.

Neste diálogo apenas um interlocutor se conhece que é o próprio homem porque quanto ao Outro, apenas se sente pela satisfação, pelo alívio e pela esperança que no final se verifica. "A oração é o momento forte daquele que descobrindo-se já como filho, consegue ter confiança para desabafar com o Pai, encorajado pela Mãe e pelos Santos…" (FATUCCI, s.d:7).

A realização espiritual passa pelos vários processos que ao longo da vida se vão utilizando e cujos resultados deixam mais satisfação íntima, porque no seu conjunto, sucessos materiais e imateriais, desde que sejam o produto de um trabalho honesto, em solidariedade, em proveito de todos, especialmente dos mais necessitados, sempre acabam por engrandecer e dar alguma felicidade, porque todos os seres humanos desejam, em maior ou menor quantidade: a riqueza, o poder, a saúde; aspiram vivamente a: serem amados, ter vida longa, gozar de um repouso bem confortável.

No entanto, muitos cederiam alguns daqueles privilégios em troca da liberdade. O homem ainda se considera a si próprio um ser relativamente determinado, não atingiu a liberdade absoluta porque esta é uma outra condição da perfeição, por isso a sua busca incessante para uma realização cada vez mais concreta e sublime do seu espírito.

Esta necessidade de liberdade é tão profunda, tão imperiosa que por causa dela o homem consente enormes sacrifícios para a alcançar, mas sente-se impotente para a atingir, quaisquer que sejam os seus esforços, porque sabe que jamais pode fazer tudo o que absolutamente quer e, possivelmente, ainda bem que assim acontece, porque de contrário, a sua ambição poderia conduzi-lo à completa e total destruição. Reside aqui uma pequena e insuficiente explicação para a insatisfação humana porque, salvo raras exceções dos espíritos mais esclarecidos, todos continuam lutando, dia após dia, por uma certa paz de espírito, mesmo quando se afirma estar-se de consciência tranquila.

Na mais profunda intimidade, continua-se com a sensação da insatisfação, por vezes até nem se sabe definir, identificar, localizar o que realmente falta, o que de facto traz insatisfeitos, infelizes e tristes as pessoas: "Ser livre é ter o direito de fazer o que se deve… Compreendida desta amaneira, a liberdade aparece como privilégio imenso, porque nos confere a nossa dignidade de seres humanos mas, ao mesmo tempo, é um privilégio temível porque este poder de escolha estabelece a nossa responsabilidade." (TIÈCHE, 1982:11).

Apesar de limitado, determinado e inseguro, o homem ainda tem um recurso poderosíssimo que lhe permite elevar-se para além de todo o materialismo envolvente e idealizar novos projetos, buscar novas sensações. Na verdade, pelo pensamento, pela sua importância primordial no desenvolvimento, chega-se, com Descartes, a uma hipótese credível, na medida em que enquanto se pensa, sabe-se que se existe, muito embora tal existência implique outros valores, outras sensações, outras possibilidades: "sem pensamento não haveria vida possível. Donde deriva a necessidade de conduzir bem os pensamentos para conduzir toda a vida." (Ibid.:203).

Efetivamente, pelo pensamento conduz-se a vida e contribui-se para a instauração de modos de vida e realizações coletivas e pessoais, através da família, da escola, da igreja que, reconhece-se hoje, como sendo os maiores agentes de socialização. Com efeito, socializar pode-se entender, desde logo e à partida, como a formação de bons carácteres, estes entendidos num conceito que obedece a princípios reconhecidos como justos, fiéis às noções de amor, justiça, bondade e integridade, o que conduz a uma atitude de amar os outros e ajudá-los a tornarem-se amados, justamente pela educação, esta concebida como trabalho, estudo e dádiva com simpatia, para tornar alguém mais útil, mais radiante de alegria e de otimismo, mais confiante e mais preocupado no bem coletivo, por isso, quando se depara esta situação, certamente que o espírito se sente suficientemente realizado.

Mas devem-se analisar outras situações pelas quais o espírito igualmente se realiza. Parta-se, por exemplo, do seio da família cujas informações alimentam o pensamento, influenciando para determinados valores, comportamentos e atitudes que podem conduzir, ou não, a uma realização satisfatória do espírito.

O bem-estar da pessoa e da sociedade humana e cristã está intimamente ligado a uma sólida comunidade conjugal e familiar. Se sociologicamente se considera que uma determinada comunidade vive em prosperidade, com alegria e razoavelmente realizada, logo se buscam as causas de tal situação no modo como vivem as famílias dessa comunidade.

A importância da família, transmissora da vida, perpetuadora da espécie, o meio mais simples e rico para o desenvolvimento da criança, testemunho para os mais novos, da importância da experiência adquirida pelos mais velhos, promotora da educação moral, enfim, um lar, fonte de calor e de amor, sem dúvida a origem das alegrias humanas, e também das tristezas é, certamente, o processo mais poderoso de transmissão prática da verdade e do bem, partindo-se do pressuposto que desempenha cabalmente a sua missão e as diversas funções que tradicionalmente lhe são atribuídas.

Em boa verdade: "A Família é escola do mais rico humanismo. Para que possa conseguir a plenitude da sua vida e missão, exige, porém, a benévola comunhão de almas e o comum acordo dos esposos, e diligente cooperação dos pais na educação dos filhos. (…) Compete aos pais ou tutores guiar os jovens na constituição da família com prudentes conselhos que eles devem ouvir de bom grado; mas evitem cuidadosamente forçá-los, directa ou indirectamente, a casar-se ou a escolher cônjuge. (…) A Família constitui assim o fundamento da sociedade." (GUERREIRO, 1971:335-6).

Nesta linha de orientação, seguramente se reúnem boas condições para realizar os valores espirituais do matrimónio. Se pelas leis positivas existe tal possibilidade será, porventura, pela Divina Providência que se alcança maior satisfação, principalmente a partir dos valores fundamentais do matrimónio e correspondente vida conjugal: amor, fidelidade, respeito e confiança.

Além destes valores imateriais mas absolutamente necessários à realização não só espiritual mas também enquanto cidadãos, outras consequências, igualmente bem agradáveis, resultam do casamento: o nascimento e educação dos filhos, fruto do amor do casal, da vontade de Deus e da necessidade que a sociedade tem em dar-se continuidade.

O desejo legítimo, porque sempre é abençoado por Deus, de um casal ter filhos, não pode ser contrariado por quaisquer argumentos conjunturais e, com salvaguarda dos igualmente legítimos interesses de um outro casal não querer filhos, a liberdade de ter ou não ter filhos caberá sempre em última instância aos cônjuges. É nesta sua decisão que também se realiza a sua espiritualidade na medida em que devem ter a liberdade suficiente para decidirem sem constrangimentos, nem censura, nem castigo.

O casal que como tal se constitui, segundo as regras da natureza, é sempre um elo de ligação entre os seus progenitores ascendentes e os seus filhos. Nesta situação transitória entra de facto toda uma tradição, uma cultura, uma herança. É imprescindível e da maior responsabilidade: "preparar o coração e o espírito dos adolescentes com cuidado infinito e começar esta preparação com muita antecedência. (…) A criança que brincou, estudou e viveu sob os olhares de seus pais e os escolheu como confidentes estará mais bem disposta a seguir-lhe os seus conselhos." (TIÈCHE, 1982:284).

Bibliografia:

BATOLO, Diamantino Lourenço Rodrigues de, (2009). Filosofia Social e Política: Especialização: Cidadania Luso-Brasileira, Direitos Humanos e Relações Interpessoais, Bahia/Brasil: FATECBA - Faculdade Teológica e Cultural da Bahia, Tese de Doutoramento (Curso Livre). Exemplares Portugal na Biblioteca Municipal de Caminha; Brasil: Bibliotecas do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas-SP, Metrocamp - Universidade Metropolitana de Campinas-SP)

GUERRERO, José Maria, (1971). O Matrimónio Hoje, à Luz do Vaticano II, Trad. José Luís Mesquita, Braga: Editorial Franciscana.

SOCIEDADE TORRE DE VIGIA DE BÍBLIAS E TRATADOS, (1990). O Homem em busca de Deus, Edição Brasileira, São Paulo: Cesário Langue

TIÈCHE, Maurício (1982). Guia de Formação Pessoal, Trad. A. Dias Gomes, 7ª Ed., Sacavém: Publicadora Atlântico, SARL.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo


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