A "Cova da Onça" mantém um ritual no 1º de Novembro de cada ano que continua a arrastar centenas de clientes até este popular estabelecimento comercial localizado numa das travessas de acesso ao Terreiro, já conhecida pelo nome do próprio bar-restaurante.
Pão quente barrado com manteiga e canela e, uma taça de vinho a acompanhar, compõem um menu começado a servir logo pela manhã e que se prolonga até à hora do almoço.
Neste Dia de Todos os Santos, contrastando com a data que requeria algum recolhimento, o ambiente de festa e boa disposição reinam na "Cova da Onça".



Grupos de amigos entram e saem ainda mais bem dispostos, depois de saborearem este menu nascido de um hábito criado no tempo em que as pessoas das aldeias, nomeadamente das Argas, vinham de véspera para Caminha, para a Feira de Todos os Santos, e dormiam sobre a gravanha recolhida junto ao forno de lenha da padaria aí existente. Pela madrugada, quando começavam a sair os primeiros pães, barravam-nos com manteiga e canela e assim faziam o seu pequeno-almoço acompanhado com o vinho das pipas da taberna contígua.

Muitas pessoas passavam essa noite no cemitério, velando os mortos, e quando regressavam de manhãzinha pela Calçada de Santo António ainda com as candeias acesas, ao passarem pela "Cova da Onça", alguém terá dito que se tratava de alminhas, apreciação logo seguida de um comentário jocoso, dizendo que eram alminhas mas de "merda".
Daí a associação aos pães com manteiga, nome por que ficaram conhecidos neste dia de Finados.
Mil alminhas

"A Cova da Onça foi minha doze anos", disse-nos Américo Alves, um homem da Serra d'Arga a marcar presença no seu antigo estabelecimento no passado Sábado, porque, justificou: " eu posso não vir todo o ano mas, no dia 1 de Novembro estou aqui, porque é uma tradição muito antiga, eu próprio fiz parte destas alminhas e gosto disto", exclamou.
Recordou, com algum orgulho, que "cheguei a fazer mil alminhas" nesta data, não querendo com isso significar que "as minhas fossem melhores", porque, o importante "é manter a tradição", afiançou. Eram acompanhadas com vinho tinto de pipa, proveniente de Outeiro, Viana do Castelo.
No seu tempo, a manteiga já não era feita de uma forma artesanal, como noutras épocas, referindo que quando o João da Cova da Onça (antigo proprietário) barrava as broas caseiras com esta gordura, "aquilo era um espectáculo!".
"Chegavam a trabalhar oito pessoas aqui, no meu tempo, e aquele era o melhor dia da casa", reconheceu. "Desde as sete horas da manhã, até que a Guarda mandava fechar a porta", apenas parando à hora de almoço, quando tinha de servir refeições, porque se tornava complicado fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

José Gavinho Pinto, já entrado nos noventa, não faltou a mais esta cita com a tradição, convidado por amigos, embora não seja uma grande apreciador deste prato, mas defendendo sempre a tradição. Desde jovem que não faltava e recorda que o ambiente era ainda muito mais animado do que actualmente, porque, "depois de virem do cemitério (era um hábito), vinham todos aqui e eram bebedeiras que era o fim do mundo!".
Acentuou que do aparecimento dos trigos barrados com manteiga e aquecidos no forno, resultou o nome de "alminhas de merda".

O cumprimento deste ritual é uma constante de praticamente todos os clientes da Cova da Onça. João Vieira, de Moledo, veio aqui todos os anos, com excepção dos que esteve emigrado. Por "tradição e porque gosto das alminhas", justificou este moledense, agora a residir em Vila Praia de Âncora, a sua presença e dos amigos na "Cova da Onça".