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Semanário - Director: Luís Almeida

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Do Terreiro à Praça

Subi ontem à Torre.

O dia sombrio trouxe a vantagem de não sobrepor as zonas de luz às demais.

De cima, visualizada a Praça na sua abrangência total, resulta nítida a intencionalidade central do Chafariz1, que o atual desenho do pavimento vem ainda reforçar. O liberalismo conferir-lhe-á este lugar de destaque, para aqui o deslocando, em substituição do anterior pelourinho. Tomará então o nome de "Chafariz de D. Pedro", assim se assumindo como espaço representativo da ideologia do poder2.

É com a construção da Misericórdia3, em 1551 (à ilharga da cerca medieval mas já fora dela e após a demolição da barbacã), que no Terreiro se irá desenhando a Praça, servindo de mote à expansão que o século seguinte há-de ditar, animada pelo dinamismo subsequente à Restauração.

A construção da Capela de S. Sebastião (1622) e a celebração das duas principais festividades da vila - S. Sebastião e Corpus Christi - consolidarão este local como centro religioso e social, complementado ainda, na sua vertente económica, pelo universo das regateiras [que aqui] vendem o peixe e outras cousas comestíveis4.

O liberalismo transportará também para aqui os símbolos dos poderes políticos e militar, com a transferência da Casa da Camara (até então instalada intra-muros, no Largo do Corpo da Guarda) e a instalação da residência do Governador Militar.

A Administração do Concelho, a Repartição de Finanças e a Conservatória do Registo Predial, reforçarão a nova centralidade atraindo, como era de esperar, a burguesia local, que aqui virá a fixar residência.

A nova centralidade arrastará ainda os principais estabelecimentos comerciais da terra, atraídos pelas condições de acessibilidade máxima e até uma bomba de gasolina aqui se instala, por volta de 1929!

Assim se promoverá definitivamente o Terreiro a Praça.

Os anos 80 do seculo XX privilegiarão aqui o trafego pedonal, procurando, desta forma, reforçar o papel da Praça como espaço do encontro e das afetividades.

Muitos e diversos são os tempos da Praça, refletindo os vários momentos da sociabilidade, comunicação, representação, atuação e relação entre as pessoas.



Os novos tempos, trazem à sociedade urbana contemporânea transformações galopantes associadas ao desenvolvimento científico e tecnológico, alterando completamente os estilos de vida, os lugares e os modos do encontro dos cidadãos e da troca de informação, conformando uma nova cultura urbana.

Lugar de passagem, mas também do encontro, da sociabilidade e da troca, local de grande valor histórico-cultural e social, historicamente palco de manifestações culturais, sociais, cívicas, religiosas, espaço simbólico, carregado de memória, a "Praça" precisa de se renovar e adaptar aos requisitos do presente e do futuro próximo.

Como fazê-lo, garantindo-lhe qualidade de vida urbana, espaço público bem-sucedido, onde a cultura do narcisismo não ganha terreno sobre a cultura social, contrariando a tese de SENETT5 sobre a morte do espaço público?

1Em todos os diferentes tempos da Praça, e até aos anos 80 do seculo XX, caberá ao Chafariz o importante papel de abastecer de água Caminha, armazenando a água que, da mãe de agua no monte de Cristelo, pelo caminho da Senhora da Graça, calçada de Santo António (da Escola) e Rua do Repuxo, a ele há-de chegar. […] chafariz das aguas publicas que abastecem esta vila e que vêm conduzidas do monte pertencente a Cristelo. - AMC- LIVRO DAS ACTAS - Setembro 1839 até Dezembro de 1840, p. 36.
2Já antes, passados nem cem anos que foram, D. José I adotou igual receita. Em representação do seu poder absoluto, fará erigir bem no centro da Praça do Comercio em Lisboa, uma bem explícita estátua equestre.
3Igreja e hospital, em 1551, no contexto das respostas da Igreja ao aumento da peregrinação a Santiago de Compostela 4na feira franca, mensal, que aqui se realizava também.
5SENETT, Richard- O Declínio do Homem Publico: as tiranias da intimidade

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENTO, Paulo (2009) - Ruas de Caminha: toponímia e história da vila da foz do Minho. 1ª Edição. Caminha: Junta de Freguesia de Caminha-Matriz, Agrupamento de Escolas Coura e Minho, Junho 2009.ISBN: 978-989-20-1558-

SENETT, Richard- O Declínio do Homem Publico: as tiranias da intimidade.


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