A Universidade Sénior aproveitou o espaço da capela do antigo Convento de Santa Clara, integrado no antigo Asilo da Infância Desvalida, para encenar um diálogo entre os irmãos Francisco Maria Silva Torres (Conselheiro) e José Maria Silva Torres (arcebispo), no decurso da sua viagem de cinco meses a bordo da fragata D.Fernando II e Glória, desde Goa até Lisboa, no ano de 1849, com desembarque de escala em Luanda.
Baseando-se no testamento do Conselheiro Silva Torres (nascido em 18 de Maio de 1812, daí a encenação ter coincidindo com os 200 do seu aniversário) e outros documentos, o historiador Paulo Torres Bento elaborou um texto dramático que o encenador Fernando Borlido adaptou à capela de Santa Clara, com representação de professores e alunos da Universidade Sénior do Rotary Club de Caminha.
Os dois irmãos, aproveitando a viagem por mar, foram desfiando a sua vida na Índia e perspectivando o regresso a Portugal, com várias referências à sua terra natal, Caminha.
As saudades desta vila com os seus nevoeiros pela Rua Direita acima e pelo sável do rio Minho, as preocupações pelas infiltrações de água na cobertura da Igreja Matriz (pelos vistos, o problema persiste, dois séculos passados…) e os apoios que pensavam conceder à câmara para conservar o templo - como viria a suceder após o falecimento do conselheiro - o apoio que pretendiam conceder à sua sobrinha neta órfão, de 12 anos e que já pretendiam adoptar quando aqui chegassem, a par da maior obra legada a Caminha por sugestão de José Maria Silva Torres: a criação do Asilo, todos estes assuntos foram objecto de conversa durante a viagem.
Os acontecimentos políticos em Caminha e no país vividos por ambos antes de rumarem para as Índias, foram também recuperados neste diálogo, através das lutas entre liberais (eles próprios adeptos desta causa) e absolutistas, a par dos projectos que perspectivavam quando se restabelecessem no seu país.
"Somos amadores mas gostamos destas andanças"
No final da representação, entre velas e equipamentos de bordo que enquadraram o cenário, Avelino Pedra, director da US e um dos actores no papel do próprio Conselheiro Silva Torres, admitiu ter sido um "desafio" colocado à própria universidade a aceitação deste trabalho partilhado por mais quatro colaboradores.
Afiançou ainda Avelino Pedra que "gostamos(US) de colaborar com todos os que contribuem para a comunidade", enfatizando a dificuldade sentida a "trabalhar este texto" — rigoroso, como é seu timbre — da autoria de Paulo Torres Bento, bem como a encenação concebida por Fernando Borlido.
"Foi um resultado fantástico"
A Câmara de Caminha, por intermédio do vereador da cultura Paulo Pereira, elogiou o "resultado fantástico" deste trabalho "num dia tão especial", a que o executivo se associara, ao mandar celebrar uma missa e realizar duas visitas guiadas ao centro histórico de Caminha e ao jazigo da família Silva Torres, a par de terem sido colocados um óleo do conselheiro e uma mesa das Índias no hotel inaugurado nesse dia na própria Praça Conselheiro Silva Torres.
Embora não o citasse, o jazigo da família Silva Torres no cemitério municipal de Caminha, foi limpo por acção do município, nas vésperas do bicentenário, conforme o determina, aliás, o testamento do próprio Conselheiro.