Roberto Rodrigues, 27 anos, enfermeiro, natural de Viana do Castelo, inclui uma das equipas do INEM que concentra na rapidez de actuação um dos seus pontos nevrálgicos.
Remador do Sporting Club Caminhense há três anos, transfere para a água a velocidade e esse poder de deslize que lhe permite superar os seus adversários, tornando-se, nomeadamente, um skifista de eleição.
Atestam-no os títulos nacionais e as excelentes prestações internacionais que vêm confirmando as suas qualidades de atleta, desde júnior.
Recentemente, em Gent, Bélgica, envergando as cores do clube de Caminha, obteve uma medalha de prata, a despeito de ter remado com um barco emprestado, antiquado e pouco enquadrado com as suas características fisiológicas.
Em Caminha, persegue mais títulos (já conquistou cinco), a par da revalidação do 1X conseguido na época passada e, como seria de esperar, o de Shell/8 em Velocidade (Taça Lisboa) que lhe falta, depois de já o ter obtido por duas vezes, mas em Fundo, e ainda em Sprint.
Renato Rodrigues iniciou-se nesta modalidade em 1994 - ainda nem sequer tinha escalão compatível com a sua idade -, no Náutico de Viana, tendo-se transferido para o SCC em 2009.
Já participou em cinco Campeonatos do Mundo, os últimos dos quais com remadores de Caminha. Obteve um quinto lugar no Campeonato do Mundo Júnior na Lituânia, em double-scull, fazendo dupla com Paulo Quesado, também do Náutico de Viana. Do seu palmarés, contam três títulos nacionais em skiff pesado.
Do seu passado desportivo, até à realidade de Caminha e com os olhos postos no futuro, conversou com o C@2000, antes de realizar o segundo dos seus dois treinos diários.
-Porquê o ingresso no Sporting Club Caminhense?
-Para ter novos objectivos e desafios, trocar de ares, viver o remo de uma forma mais mítica como sucede em Caminha.
-Há objectivos concretos para esta época?
É evidente que é o Shell/8…
-Que diferenças encontraste entre o Caminhense e o Náutico?
Vim para cá com o objectivo de viver o remo como remador e isso já não acontecia em Viana, porque tinha muita responsabilidade organizativa por ser um dos remadores mais antigos e sentia essa pressão. Esperava encontrar aqui outras condições, como efectivamente aconteceu, e ter novos desafios. É evidente que ganhar o Oito foi um dos desafios que me propus, embora quando cá cheguei, me apontaram também como uma aposta o skiff. Isto é, ganhar o barco mais curto e o mais longo.
-É possível comparar os títulos de 1X e 8+?
Não. O de skiff resulta de um trabalho individual, invisível, do qual as pessoas nem sequer se apercebem - mesmo em Portugal -, mas que eu gosto de fazer. Claro que depois, esse trabalho é transportado para o de Shell/8 (rema a sete), tornando-se numa mais-valia para a equipa andar mais.
-Que condições vieste encontrar em Caminha?
Sabemos que nesta época é difícil encontrar as condições ideais, devido às dificuldades sociais, mas duvido que algum clube nacional me pudesse dar mais condições do que em Caminha. Temos material para trabalhar com um mínimo de qualidade a que os objectivos a que nos propomos exigem. Embora gostássemos de possuir material, mais barcos, porque sofrem muito desgaste.
Recordo que o Caminhense, visto de fora, é considerado o melhor clube de remo do país, o que confirmei quando cá cheguei, mas também o tem de ser a nível do equipamento…
-...que é caro…
...é verdade, mas omeletas não se fazem sem ovos.
-Qual o ambiente que encontraste aqui a nível de companheiros?
Acho que o Caminhense tem grandes equipas e com muito potencial. Só é necessário encontrar o timing certo para as coisas acontecerem, porque toda a gente sabe o que tem de fazer, o que é um barco a andar. E foi esse timing que faltou no ano passado e que creio que não vai acontecer agora.
-Gostas mais de remar em ponta ou em parelhos?
Eu, essencialmente, gosto de remar. Acho que sou melhor remador de parelhos do que de ponta, mas remo em qualquer barco.
-Este é um ano de Olimpíadas. Sentes alguma frustração por não poderes participar?
Eu e o Bruno Amorim (remador de Caminha) tínhamos um projecto para fazer um Shell/2 sem timoneiro, mas não foi avante devido à falta de condições e de apoio. Neste momento também não tenho grandes pretensões de representar Portugal porque ao longo destes anos temo-nos apercebido que representar a selecção é investir muito a nível pessoal e receber muito pouco da parte deles (Federação). Acho que é um trabalho desigual, porque há um conjunto de pessoas que está na Selecção Nacional e na Federação Portuguesa de Remo que simplesmente se aproveitam dos atletas para fazer a sua vida.
-Como vês o remo nacional nos dias de hoje?
Acho que em simultâneo, está a passar uma época de ouro e a pior de sempre.
Temos uma equipa de 2XHPL que é uma referência para nós e que se encontra na élite do remo mundial, mas a verdade é que a Federação continua a fechá-los e a esconde-los, nem querem aprender com este barco que poderia servir como um impulsionador da evolução do remo. Infelizmente, com as pessoas que se encontram à frente da Federação, isso nunca vai acontecer. Daí considerar que também é uma época triste para o remo.
-Acabas de participar em Gent pelo SCC e conquistaste uma medalha de prata. O que representa isso na tua carreira desportiva?
Foi uma experiência especial por ser a primeira vez que representei o Caminhense em skiff, servindo como um teste para revalidar o título nacional - o meu principal objectivo, a par do Oito.
Foi um bom teste. Quatro regatas e duas finais. Contudo, a organização minimizou a inscrição de Portugal, porque somos um país muito pequeno em termos de remo, resultando que nos disponibilizaram, provavelmente, o pior barco que estava lá. Após muita insistência junto do meu treinador, ele conseguiu arranjar-me um barco (um BBG de treino) um pouco melhor - embora não tivesse as minhas características -, pertencente a um remador veterano belga, o que me permitiu melhorar um pouco a minha performance.
Apesar deste contratempo, consegui testar os meus limites e ver onde é que posso melhorar e, no final, obtive um segundo lugar nessa regata, o que foi bastante motivante para mim, atendendo ao nível elevado dos participantes.
-A despeito da desilusão actual em termos de participações internacionais - integrado na selecção -, ainda existem objectivos futuros?
Enquanto que estiverem estas pessoas na Federação, nem sequer penso nisso porque me dá tristeza ao ver que há atletas que investem os seus dias todos a treinar para conquistarem um sonho, enquanto que há outros que brincam e se aproveitam disso para propagandas políticas ou fazer disso vida, sem terem um mínimo de qualidade. Portanto, enquanto eles lá estiverem, não vale a pena. É alimentar o parasitismo dessas pessoas.