Jornal Digital Regional
Nº 546: 2/8 Jul 11
(Semanal - Sábados)






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TRIBUNA
Espaço reservado à opinião do leitor



ANCORENSES
NO "SANTA MARIA MANUELA"

O lugre-motor "Santa Maria Manuela" imortalizado no documentário de Hector Lemieux com o título "The White Ship" ( O Navio Branco ) para A National Film of Canada Documentary e o tema "The Portuguese Cod Fishing Schooner, Santa Maria Manuela on her 1966 campaign to the Grand Banks East of Newfoundland, Canada and Davis Strait West of Greenland" ( O navio Santa Maria Manuela à pesca do Bacalhau na campanha de 1966 nos bancos leste da Terra Nova e Estreito de Davis, ao oeste da Gronelândia ), foi construído nos estaleiros da CUF em 1937 iniciando nesse mesmo ano a actividade para que foi destinado: a pesca do bacalhau à linha.

É irmão gémeo do "Creoula"- actualmente ao serviço da Marinha como navio de treino de mar - e, juntamente com o "Argus", do mesmo tipo imortalizado na obra de Alan Villiers "A Campanha do Argus", formam os três cisnes brancos, orgulho da nossa tradição marítima de grandes veleiros.

O Santa Maria Manuela entrou no dia 19 de Maio do corrente ano no mítico porto da "White Fleet" em St. John's, Terra Nova, para uma visita de cortesia e de estreitamento das relações entre Portugal e o Canadá. Recorde-se que este histórico porto, onde a torre de Cabot assinala a recepção da primeira mensagem transatlântica por código Morse; a catedral católica alberga a imagem de Nossa Senhora de Fátima levada aos ombros dos nossos pescadores numa impressionante procissão de milhares de portugueses realizada no dia 27 de Maio de 1955; e onde se ergue imponente frente ao Parlamento do Estado de Newfoundland and Canada a estátua de Gaspar Corte Real o navegador português a quem se atribui a descoberta da Terra Nova, foi considerado o porto estrangeiro da Frota Branca Portuguesa e, segundo muitos, a "segunda casa".

Por esta razão se inaugurou recentemente naquela cidade um novo monumento junto ao cais onde atracavam os nossos navios e o Santa Maria Manuela efectuou esta viagem ao fim de mais de três dezenas de anos de ausência e de quase um impossível regresso ao mar deste maravilhoso navio que venceu, graças à Empresa Pascoal, o destino do camartelo a que estava condenado.

Foram muitos os episódios de mar que este navio e as suas tripulações tiveram de enfrentar nos mares agrestes e traiçoeiros do Atlântico norte e da inóspita Gronelândia do frio, dos ventos glaciais e do gelo como ameaça permanente à navegação.

Enfrentou com valentia ciclones, num dos quais que o atingiu a sul do cabo Farwell teve de dar o flanco invadido de água pela obstrução dos embornais entupidos pela vela grande que se desfez com o temporal. Correndo um risco tremendo ao atravessar ao mar e ao tempo, valeu a intrepidez dos seus marinheiros que cortaram os cabos que prendiam os destroços da vela ao navio e esta acabou por ser varrida pelo mar enfurecido libertando os embornais e permitindo a saída da água. Com grande risco arrastado pelo temporal a navegar à popa em árvore seca, coberto pela espuma das ondas que lhe varriam o convés da popa à proa, o navio conseguiu resistir entrando no menos encapelado mar do estreito de Davis e afastando-se da área de acção do ciclone.

Mas muitas outras tempestades enfrentou como um gigante contra outro que além da força desigual é traiçoeiro no combate. Aliás, as tempestades eram uma certeza de cada campanha, arrancando velas, partindo dóris, destroçando o que apanhasse no convés varrido pelas vagas. Mas, também, é um prazer recordar as singraduras com ventos de feição e aquela proa a devorar milhas, inclinado com a borda de sotavento metida na água e o navio a deslizar como se tivesse asas. Uma verdadeira gaivota sobre as ondas.

O Santa Maria Manuela pescava com pouco mais de cinco dezenas de dóris que eram arriados das pilhas do seu convés às quatro horas da madrugada e içados por volta das dezoito horas, tempo passado fora do navio às quais se seguia a tarefa de escalar e salgar o bacalhau durante seis ou mais horas. Portanto, vinte horas de jornada ou mais, até, de trabalho intenso. Às quatro da madrugada os dóris tinham de voltar ao mar se o tempo o permitisse, o que só a intensidade do vento e mar alteroso podiam obstar. De resto, o nevoeiro intenso, o frio inclemente, o cansaço natural, o vento que os dóris em limite pudessem aguentar, o sinó a cair, não eram motivos suficientes para um capitão não dar ordem de arriar. Aquela vida era mesmo dura, " vida de cão", segundo a observação imparcial do personagem francês inserta nas páginas de Alan Villiers e inimaginável na sua aspereza e riscos.

Em trinta e cinco campanhas, de 1937 a 1972 ( quando desembarcou do navio o último tripulante ancorense matriculado em 1964 no SMM - o primeiro foi Carlos da Cunha em 1937 e o último desembarcado o autor deste artigo em 1972) - foram 47 os Ancorenses que passaram pelo Santa Maria Manuela. Um destes Ancorenses pereceu em pleno Atlântico em resultado duma trágica decisão de desembaraçar a vela da bujarrona rasgada pelo vento e pelo mar de uma tempestade desfeita. Os seus nomes seguem por ordem aleatória:

José Maria Presa Alves, José Maria da Silva Cerqueira, Manuel da Silva Alves, José Salvador de Araújo Cunha, Manuel Maria Alves, José Oliveira da Cruz, Manuel José Pereira Barbosa, Carlos da Cunha, Francisco dos Santos Brandão, Jorge Gomes de Castro, Álvaro Gonçalves dos Santos, José de Fátima Parente Fão, Dionísio Cândido Quintas Esteves , Manuel Fernandes Fão, Domingos Pereira Esteves, Alfredo Franco, Damião Fernandes Fão, Sebastião Ferreira Franco, Domingos Fernandes Gomes Fão, António José Gomes, Daniel Gonçalves, Jorge Pereira Parente, José Presa Gonçalves, Manuel Pereira Parente, Luís dos Santos Malhão, José Maria Pereira, Rogério Filipe Malhão, Manuel José de Vasconcelos Pereira, João José Casqueiro Pacheco, Octávio Augusto Pereira, António dos Santos Pereira Pinto, José Carlos Cerqueira Rodrigues, José Luís Ramos, Manuel Rodrigues, José Luís Ramos Jr., Alfredo Fernandes Simões, José Maria Ramos, José luís Valadares, Joaquim Celestino Fernandes Ribeiro, Carlos Esteves Verde, Domingos Esteves Verde, Joaquim Pereira Vilar, Horácio de Araújo Verde, José Lourenço Evangelista Verde, Jorge Evangelista Verde, Almerindo Parente Fão e José de Araújo Verde.

Este foi o navio de linha que mais homens de Vila Praia de Âncora teve. Por essa razão, este apontamento evocativo de um navio e dos seus homens, com destaque para os Ancorenses nele embarcados.

CELESTINO RIBEIRO

UM HOMEM DE DIREITA , UM HOMEM DO POVO

Finalmente, ao fim de trinta e sete anos de Democracia, temos um Homem de Direita e um Homem do Povo. Uma Homem de Direita, porque o Dr. Pedro Passos Coelho, é do Partido Social Democrata, portanto da Direita Política. Neste momento, da mesma área política, temos um Presidente da República, uma Presidente da Assembleia da República, um Governo e um Primeiro Ministro. Um Homem do Povo, porque fez toda a sua carreira política, desde a JSD até aos nossos dias.

Ora é deste Primeiro Ministro que eu quero falar. Primeiro que tudo, como afirmou alto e bom som, durante a campanha eleitoral para as Eleições Legislativas, ele era um Homem do Povo e que iria lutar, com todas as suas forças para ser Primeiro Ministro de Portugal. O Povo acreditou nele, nas suas promessas de mudar Portugal, no seu programa e deu-lhe a maioria. Maioria que com o CDS é absoluta. Agora, esse mesmo Povo espera que o Dr. Pedro Passos Coelho cumpra aquilo que prometeu e consiga tirar este País do buraco onde se encontra. E deu logo um bom exemplo, exemplo que tem que vir da classe política. Quando teve que viajar, aqui há dias para Bruxelas, prescindiu de o fazer em classe executiva da TAP e viajou em classe económica, onde concerteza se encontravam passageiros de diversas profissões, uns em viagem de negócios, outros em viagem de férias. Viajou no meio do Povo. E numa conversa com os jornalistas, avisou que, de futuro, nas viagens dentro da Europa, todo o Governo, incluindo, Ministros, Secretários de Estado e respetivos acessores, viajarão sempre na classe mais económica. Foi um gesto bonito mas não se lembrou que, desde o Governo do Dr. Salazar, a TAP não cobra nenhum dinheiro ao Estado, quando os membros do Governo viajam nos seus aviões!

No entanto, para mim, um simples analista político, este gosto pela "propaganda de austeridade", não me convence, pois para propaganda, já bastaram os últimos seis anos de governo socialista.

A austeridade, na minha modesta opinião, não é uma questão de imagem; é uma questão de resultados sérios, palpáveis, concretos, que contribuam, duma vez por todas para a melhoria do bem estar dos portugueses. Além disso, viajar em segunda classe, de avião, para Bruxelas, significa uma poupança insignificante…Mais. Quando o Sr. Primeiro Ministro e Portugal viaja, não é o mesmo que o Sr. Gonçalves, esposa e filhos, emigrantes na Bélgica, fazem quando vêm de férias ou regressam ao trabalho. Não. Salvo melhor opinião, o Dr. Pedro Passos Coelho desloca-se, em nome dum País chamado Portugal e essa deslocação tem que ser feita com dignidade inerente ao cargo que ocupa.

Mas, se o Sr. Primeiro Ministro entende que está certo, então tem que começar já a dizer aos seus Ministros e Secretários de Estado que os carros do Estado, que custaram milhares de euros, de futuro, apenas servirão para os transportar da casa para o Ministério e vice-versa, acabando de um vez por todas com outras deslocações, de caráter particular… E também, porque não lembrar ao Sr. Primeiro Ministro que, quando for de férias, em vez de se instalar em condomínios fechados, escolha um hotel de duas ou três estrelas…!

Antero Sampaio