Jornal Digital Regional
Nº 510: 23/29 Out 10
(Semanal - Sábados)






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TRIBUNA
Espaço reservado à opinião do leitor


DA MONARQUIA À REPÚBICA -
Caminha, 1906 / 1913 - novo livro de PAULO BENTO

Conforme anunciado realizou-se neste último fim de semana, em jornada dupla, a apresentação ao público do novo trabalho do historiador Paulo Bento, “Da Monarquia à República no concelho de Caminha – Crónica política (1906 – 1913)”. Trata-se de mais uma edição do Jornal Digital Regional – Caminha@2000, propriedade de Luis Almeida que, cumprindo agora o seu décimo aniversário, enriquece, com o lançamento de mais esta obra, sem quaisquer apoios ou subsídios, um já relevante currículo em termos jornalísticos e culturais a nível do concelho de Caminha.

A primeira cerimónia ocorreu em Vila Praia de Âncora, no sábado, dia 16 de Outubro, no Centro Social e Cultural e a segunda no salão da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da sede do concelho, domingo, dia 17, ambas às 17H00.

Tendo-se verificado uma boa adesão do público (as primeiras fotos documentam a apresentação ocorrida em V.P.Âncora e as últimas em Caminha) em cada uma das localidades, a sessão de apresentação do livro foi aberta, em ambos os casos, pelo editor, Luis Almeida que, numa breve intervenção, começou por enaltecer o importante contributo que o Prof. Paulo Bento vem prestando ao concelho de Caminha, através do preenchimento de uma grave lacuna que se verificava, em termos de realização de trabalhos de pesquisa, estudo, documentação e registo de factos históricos de interesse local e concelhio, que de outro modo correriam o risco de se perderem para sempre na memória dos tempos.

Referiu como esse contributo vem de encontro às preocupações que o Caminha@2000 também vem sentindo e aos esforços que vem desenvolvendo para que as gerações futuras não percam importantes referências dos seus antepassados recentes, sendo este já o quarto livro que edita e o segundo deste autor.

Quanto à intervenção de Paulo Bento que, em ambas as sessões e durante cerca de hora e meia, conseguiu manter bem viva a atenção dos muitos presentes, não irei, naturalmente, desenvolvê-la, até porque, no essencial, tratou-se de um resumo comentado do livro acabado de publicar e, como ele disse no final, o importante é que as pessoas o leiam.

Assim, limitar-me-ei a referir, para além do lugar onde foi escrito, do tempo e das fontes, duas ou três notas sobre as motivações que, segundo o autor, estiveram na origem do presente livro e na opção de escolher Vila Praia de Âncora para a sua primeira apresentação:

- o livro foi escrito de um fôlego, em 20 dias de Agosto, em Esposende, aproveitando as últimas férias de verão, mas a sua preparação envolveu um longo trabalho de pesquisas, durante mais de seis anos, sendo as fontes principais as actas da Câmara Municipal, mas sobretudo a correspondência da administração do concelho e a imprensa local, não só de Caminha mas também de Viana do Castelo;

- a razão fundamental que o levou a escrever este livro deve-se ao facto de a história contemporânea do concelho de Caminha estar, salvo raras e boas excepções, quase toda por fazer e, tal como o editor, Luís Almeida, considerar que o conhecimento das referências do passado é decisivo para a compreensão do presente;

- fez questão de que a primeira apresentação do livro fosse em Vila Praia de Âncora uma vez que, embora reconhecendo ter havido, no concelho, em termos quantitativos e mesmo qualitativos, iniciativas interessantes no âmbito da comemoração do 100º aniversário da implantação da República, ficou um tanto chocado pelo facto de, com a honrosa excepção da escola Ancorensis, todas elas terem sido centradas na vila de Caminha, considerando isso uma falsificação da História até porque, afirmou, se há duas grandes terras republicanas e de tradições democráticas neste concelho uma é a Praia de Âncora, lugar urbano da antiga freguesia de Gontinhães, agora Vila Praia de Âncora e a outra (garantiu não estar a puxar a brasa para a sua sardinha), Vilar de Mouros.

A concluir estas breves notas sobre um acontecimento de tanta importância para o concelho de Caminha resta-me, como caminhense, felicitar os dois actores principais, cada um no seu papel, que o tornaram possível: obrigado Paulo Bento, obrigado Luís Almeida e, tal como é “prometido” no final do livro…que seja para continuar. Claro que estas felicitações terão de ser extensivas ao GEPPAV (grupo que integra o próprio autor e ainda os vilarmourenses Joaquim Aldeia, Plácido Souto e António Lages) ao Carlos da Torre, pela concepção gráfica e a todos quantos contribuíram para que esta obra fosse uma realidade.

Basílio Barrocas (http://vilardemouros-sempre.blogspot.com/2010/10/a28-deixou-marcas.html)

Periscópio Social

O papel da escola face à toxicodependência

O consumo de drogas atingiu grande notoriedade, no ensino secundário português, a partir de meados da década de 90 do século passado. Desde então começam a ser produzidos inúmeros trabalhos sobre o tema atingindo-se uma infindável produção literária acerca da toxicodependência.

O problema da droga nas escolas está ligado, a nosso ver e de forma apriorística, a duas questões essenciais: 1) a mudança social relativamente ao consumo de drogas, tornando-se as sociedades mais permissivas neste particular; 2) a massificação do ensino que cria tensão entre uma das vocações da escola (avaliar) e a rebeldia juvenil inerente a este período do desenvolvimento humano.

Existem claramente, nas sociedades actuais, preocupações em manter os jovens afastados dos consumos que prejudicam a sua saúde e lhes retiram qualidade de vida.

Os próprios jovens consumidores de algumas drogas não se consideram "toxicodependentes" pois associam a toxicodependência ao uso de estupefacientes injectáveis. Esta perspectiva coloca-nos perante um paradoxo relevante que é o de consumirem charros e/ou pastilhas não se considerando toxicodependentes e, por outro lado, conceberem que só a droga, injectável, é má para a saúde.

As escolas e os professores vivem diariamente o drama que resulta do convívio de alunos com o consumo e o comércio dos estupefacientes. A maioria das entidades parece conhecer inclusivamente o percurso que a droga faz até entrar no corpo dos jovens mas, quer a idade dos alunos, quer a permissividade social faz com que as actuações dos mais diversos agentes estejam tendencialmente limitadas.

A escola secundária acontece durante um importante ciclo de mudança biológica, social, psicológica e cultural do indivíduo pelo que se torna terreno fértil para a transformação de práticas e de hábitos. É aquilo a que a sociologia apelida de culturas juvenis conceptualizando uma certa forma de estar e de viver em sociedade.

Se recuarmos aos tempos da Grécia Antiga verificamos que a escola era um local de lazer para os cidadãos ricos que gostavam de reflectir sobre o sentido das coisas, do mundo e do Homem. Esta visão quase hedonista apagou-se por completo a partir da Idade Média que tornou a escola um local difícil de trabalho intelectual subjugado a princípios de rigor, disciplina e avaliação, penalizadoras dos alunos.

Ainda hoje, a escola tem muito de saber escolástico, de dogmas sobre as práticas quer de professores, quer de alunos estando ainda orientada para a obrigatoriedade do saber (para não ficar retido) do que para o prazer da descoberta dos mistérios da vida (natural e social). Não sendo este o tema deste artigo não poderíamos deixar de sinteticamente fazer esta alusão à evolução da escola e do seu conceito.

Ora com as drogas, assistimos também a uma evolução do pensamento social sobre a sua utilização e (in) tolerância nas diversas comunidades humanas ao longo dos tempos. Assim, inicialmente o consumo de drogas aparece-nos associado às religiões primitivas onde o seu uso era moderado e controlado pela comunidade, estava integrado de forma ritualizada e cultural. Havia como que um sentido religioso e medicinal no seu uso que conduzia o homem a práticas colectivas rituais invocadoras do sagrado e do mágico.

É claro que os Descobrimentos permitiram intercambiar drogas e conhecimentos numa primeira globalização das drogas.

Já no século XIX, o hedonismo e a medicina iniciam um momento fundador na história das drogas no ocidente. O homem descobre que pode ter acesso ao paraíso artificial. Personagens como Freud, Baudelaire ou Fernando Pessoa são o exemplo claro desta descoberta muito utilizada por militares, médicos e poetas (principalmente do ópio, morfina e cocaína).

Com o século XX as drogas passam a relacionar-se com o individualismo moderno, a cultura do corpo, o narcisismo… transformando-se mais em recreação que, cada vez mais, se foi tornando acessível a todos os estratos sociais.

A massificação do consumo das drogas levou a ciência a debruçar-se sobre este tema tentando perceber até que ponto esta prática constitui um benefício ou, pelo contrário, um malefício para a saúde e o bem-estar do indivíduo. Embora consoante a especificidade científica de cada escola a conclusão parece ser cada vez mais óbvia em desfavor do consumo dos estupefacientes que são considerados inimigos da saúde e da qualidade de vida principalmente se levarmos em linha de conta a definição da Organização Mundial de Saúde (anos 40) do conceito de saúde definido como "um estado completo de bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de invalidez ou doença".

São vários os modelos que nos permitem trabalhar esta problemática demonstrando não só a sua transversalidade científica mas também o carácter evolutivo da construção do conhecimento científico: modelo médico, modelo jurídico, modelo da distribuição do consumo, modelo sociológico, modelo sociocultural, modelo psicossocial e modelo ecológico.

Existe, no nosso país, um conflito enorme entre as ideias e a prática que se concretizam na dificuldade de interpretar os normativos sociais vigentes e a vontade/aceitação da mudança. Esta tensão perene conduz a própria sociedade a uma sensação de anomia sobretudo relativamente a uma questão tão fracturante como a do consumo de drogas.

Os partidos políticos, por exemplo, discutem legislar sobre substâncias como a cannabis estando despenalizado o seu consumo e penalizada a sua venda. Por outro lado, criam-se "salas de chuto", em defesa da saúde pública, para que os toxicodependentes de injectáveis possam estar a consumir de forma controlada e monitorizada por profissionais de saúde ao mesmo tempo que se tenta incutir um espírito de entrada em programas de desintoxicação. O que queremos dizer é que os jovens acabam por encontrar nesta sociedade não um clima de rejeição do consumo mas uma sensação de aventura perdoável porque filha dos desvarios da própria idade da experimentação e da irresponsabilidade.

A escola não é o centro disseminador dos males sociais mas antes uma amostra, a pequena escala, do quotidiano e realidade da sociedade. A tarefa árdua dos professores é tentar moldar o indivíduo transformando-o num ser capaz de ter uma visão crítica do mundo e da existência humana sem ferir princípios como o respeito (por si e pelos outros), a tolerância, a liberdade, a responsabilidade… dotando-o dos instrumentos necessários a uma escolha informada de um projecto de vida que o realize através da integração plena no palco da vida social.

À sociedade cabe credibilizar os docentes que afincadamente no seu dia-a-dia exercem a sua função de educadores em tempos difíceis de crise familiar, de autoridade e de falta de uma identidade cultural comprometida com a saúde, hábitos e comportamentos de todos nós.

Por Pedro Ribeiro
www.periscopio-social.blogspot.com