Jornal Digital Regional
Nº 510: 23/29 Out 10
(Semanal - Sábados)






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CIDADANIA

Genericamente considerada, poder-se-á conceptualizar a cultura sob várias perspectivas, porém, continua a prevalecer o seu significado mais restrito, como um conjunto de conhecimentos, não acessível a todos, que deslumbra aqueles que não a possuem, nesta dimensão, isto é, cultura no domínio das artes, das letras, da filosofia, das viagens, das línguas, dos diplomas, da ilustração, que conduz à eloquência, à oratória, à persuasão que, pela palavra se consegue. O homem culto, como sendo aquele que é admirado pela fluidez de conhecimentos, influência e actualização na evolução científica, tecnológica e da globalização.

O ritmo alucinante, que caracteriza a vida das sociedades actuais, não se compadece com o descuido da aquisição de conhecimentos, sejam escolares, profissionais ou culturais, de resto, todos são necessários, incluindo aqui os de natureza religiosa, estes como uma outra dimensão humana, mas que, igualmente, integram, justamente, a cultura no seu todo. Ignorar esta cultura elitista, ou intelectualizada, é retroceder no tempo, mas sobrevalorizá-la, em prejuízo das culturas minoritárias ou individuais, pode constituir um preconceito inaceitável, conotado ao etnocentrismo. Todas as comunidades produzem as suas próprias culturas que, ao longo dos séculos, vão transmitindo de geração em geração até aos dias de hoje.

É assim que, complementarmente à cultura no seu sentido elitista e/ou vice-versa, se tem colocado a cultura antropológica, isto é, a cultura no seu sentido mais genuíno, na verdadeira dimensão do homem natural, produtor e consumidor de bens próprios à sua sobrevivência, mas também, intrinsecamente, ligados à sua história. Cultura de usos, costumes e tradições, não científica no passado mas cientificamente estudada no presente. É neste relacionamento, entre a cultura elitista e a cultura antropológica, que deverá e/ou poderá entrar o contributo de um agente da socialização muito importante: a escola.

Com efeito, a escola existe para formar, preparar para a vida profissional e cívica, não tanto parta educar no sentido da pessoa "bem-educada", porque nesta dimensão caberá à família tal preparação. A escola, também, como transmissora de factos históricos e culturais. A escola, ainda, como difusora de valores nacionais, religiosos e políticos, obviamente, opcionais, em regimes democraticamente instituídos. Concordando-se, ou não, com TEIXEIRA, (1990:65), ele afirma: "Ao conceber-se a educação como processo individual, as teorias educacionais fundamentam-se em uma concepção de cultura enquanto fenómeno individual de realização da essência humana."

Valorizar a cultura antropológica como um património da humanidade, na sua diversidade mundial será, certamente, uma preocupação daqueles que têm por missão desenvolver e avaliar esta cultura. O desenvolvimento pode fazer-se através da recuperação e divulgação, em eventos e outras cerimónias públicas, a partir da iniciativa privada ou dos organismos do Estado e não só ao nível das pequenas comunidades como também no quadro das grandes urbes com o objectivo de: compilar usos, costumes e tradições, compatíveis com uma cidadania de valores verdadeiramente humanistas; Avaliar se em relação à genuidade não há, ou há, alguma adulteração e, no caso de haver, se ela colide com aqueles valores.

A cultura do homem, ao longo da sua história, precisamente no contexto da sua própria evolução, é um percurso que não se deve ignorar, até para melhor se compreender a situação dos tempos modernos, das elites culturais e manter bem presente um património cultural, um pouco espalhado pelo mundo, a partir do século XV, pelo menos. Evidentemente que a cultura antropológica de diversos costumes e práticas do passado, ainda que fazendo parte de uma certa mentalidade da época, que aqui se pode recuar ainda mais, provavelmente ao século XII, no que a Portugal respeita, tais usos, costumes e tradições, hoje, seriam inaceitáveis.

Importa, naturalmente, recuperar a cultura tradicional em diversos níveis: político, turístico, gastronómico, religioso, lazer, entre outros aspectos, desenvolvida em cidades, vilas e aldeias. Quem não se lembra de, quando criança, em idade escolar, desfrutar dos seus momentos de recreio, dos tradicionais jogos do arco, do pião, do botão, da boneca, das escondidas e tantos outros. Quem ignora, na sua adolescência e juventude, dos " jogos de namorados", "bailaricos"; como esquecer as desfolhadas e a espiga de milho-rei, bailes e outras brincadeiras que faziam corar as jovens; enfim, muito haveria a mencionar e a reflectir sobre esta cultura antropológica, que até parece estar a ficar esquecida e, provavelmente, desvalorizada.

Esta cultura antropológica manifesta-se, também, noutras dimensões, mais maduras e responsáveis, designadamente, através de eventos públicos e/ou pela sabedoria do povo, materializada nos tão famosos adágios populares. A nível nacional já são famosas as "Janeiras" em que grupos de pessoas munidas de diversos instrumentos musicais, visitam os moradores, cantando as canções próprias da época dos Reis e também dos objectivos e aqui aproveitam para pedir dinheiro para um melhoramento qualquer na comunidade.

Nos tempos de crise que se atravessa, naturalmente que haverá dificuldades em contribuir com o que quer que seja, por isso, uma vez mais, caberia aos Órgãos do poder a manutenção destas tradições, porque elas fazem parte de uma história e de uma cultura que, provavelmente se perdem no tempo, aliás, tal como se apoiam iniciativas da denominada cultura intelectualizada: ópera, concertos, bandas e outras formas desta cultura, também se deverá ajudar as organizações locais, quando a finalidade é a manutenção da cultura antropológica, sem se sobrecarregar o cidadão com mais despesas.

O século XXI, iniciado há uma década, na linha do que já vinha sucedendo no final do século anterior e no que respeita à evolução técnico-científica, que faz parte de toda uma cultura elitista, para o bem e, em certos domínios, também para o mal, deve, portanto "ressuscitar" a cultura genuína do homem do passado, criar condições favoráveis para uma divulgação e, por que não, rentabilização desta cultura antropológica, desde logo ao nível das diversas formas de turismo: rural, folclore, religioso, artesanato, gastronómico, jogos e todo um conjunto der iniciativas que produzem riqueza e bem-estar nos participantes.

O homem não é um ser de hoje, mas de todos os tempos. Tem uma história, um passado que vem evoluindo, um presente e um futuro que o espera, desejavelmente sem renegar o passado. Neste presente que ainda vive, obviamente, não pode ignorar o passado vivido com mais ou menos erros, com bons e maus momentos.

Actualmente e tendo em conta toda uma cultura que vem construindo, a começar ma sociedade, pretensamente, cada vez mais organizada e "segura", porém, ainda muito distante do que seria desejável, talvez, e uma vez mais, pela falta ou excesso de valores antropológicos, provenientes de toda uma disciplina e, dir-se-ia, respeito, não medo como no passado. Todas as construções humanas, afinal, assentam em dois aspectos ou características importantes: a sociabilidade e a cultura.

Claro que uma está ligada à outra e como que formam um todo, aliás, a história do homem comporta uma sociedade, desde que nasce até à sua morte, compreendendo a família, por exemplo, como a primeira célula e princípio de toda essa mesma sociedade. Com efeito e segundo TORRE, (1983:44): "O homem, em geral, já nasce como membro de um grupo: a família. À medida que vai vivendo, passa a pertencer a outros como: grupo de amizade, vizinhança, escola, Igreja, cidade, grupos profissionais, expandindo assim seu mundo individual. Mas, apenas a natureza biopsiquica, adquire a natureza social, formando e desenvolvendo sua personalidade. Além disso, o homem cria cultura e, através desta, satisfaz suas necessidades e adapta-se ao meio ou adapta o meio a si, modificando-o."

Sem forçar demasiado o pensamento, não se pretenderá ofender os defensores da cultura elitista, se se afirmar que o desenvolvimento humano também passa por esta cultura antropológica, principalmente nos primeiros anos de vida da pessoa, ainda quando ela está entregue à família, da qual recebe os ensinamentos essenciais, para depois se confrontar com os restantes grupos sociais até, finalmente, se integrar na sociedade. Parece um papel importante, este que é desempenhado pela cultura antropológica, além desta poder acompanhar o indivíduo ao longo de toda a sua vida e, inclusive, ser estudada a nível do ensino superior, em várias especialidades e graus.

Na humildade do titular de uma cultura antropológica é possível vislumbrar conhecimentos práticos, dir-se-ia, do senso-comum, portanto, diferentes daqueles dos religiosos, filosóficos, científicos e técnicos, o que vem valorizar todos estes, afinal, tratar-se-ia de uma outra via, que na ordem evolutiva até será a primeira, provavelmente, ainda antes do mito, pelo qual se procurava explicações para certos fenómenos, porque a cultura do homem primitivo já lhe permite, se não resolver, pelo menos explicar os problemas mais elementares.

Igualmente se julga inofensivo aceitar a cultura antropológica como um conhecimento prudente, ainda que não totalmente provado pela ciência, se tal prova fosse necessária. Pensa-se que se pode dispensar, nesta fase da história da humanidade, a aplicação da matriz: método e objecto do conhecimento científico à cultura antropológica, porque esta apenas realiza ou afirma a realidade possível e visível, todavia, é bom lembrar que a Antropologia, nas suas várias especializações já é, actualmente, considerada uma ciência. Esta pode (e deve), a par de quaisquer outros conhecimentos, ser a cultura de todos, dadas as circunstâncias do processo evolutivo do homem.

A vida acelerada que actualmente, por todo o mundo, os indivíduos, as famílias, os grupos e as sociedades enfrentam, para atingirem objectivos diferentes, na maior parte dos casos, justos, legítimos e legais, também comporta algum espaço para a cultura, considerada nas suas vertentes: antropológica e intelectualizada.

Haverá preocupações para algum investimento, ou pelo menos disponibilidade financeira para a cultura, porém, ignora-se se isso será, ou não suficiente. Na verdade e de harmonia com GALACHE-DINER-ARANZADI, (1969:45) verifica-se que há quarenta anos já eles afirmavam: "Trabalha-se hoje, em certos sectores da sociedade, pela promoção económica, social, cultural e religiosa dos mais abandonados da natureza. Um surto de nova vida social levanta o espírito de alguns, suscitando ideais mais caridosos, mais humanas com os pobres, operários, famintos, analfabetos. Impedir essa conscientização do jovem, pelo medo de criar subversivos, é querer uma juventude amorfa, superficial, boazinha, acomodada. Pretende-se sacudir o comodismo e a irresponsabilidade de muitos, acelerar o processo de libertação da escravidão moderna, que é a miséria, a ignorância, a irreligiosidade, a superstição, as diversas classes do materialismo."

O investimento na cultura, aqui considerada no seu sentido mais geral, o que supõe a inclusão da cultura na sua expressão antropológica é, portanto, uma preocupação que se tem feito sentir ao longo dos tempos, o que se considera um bom indicador para o desenvolvimento humano, ainda que, eventualmente, insuficiente. A sensibilização e mobilização dos que detêm os recursos: humanos científicos, técnicos e financeiros deve manifestar-se de forma inequívoca e mais significativa porque, como se tem analisado, verifica-se que ao longo das últimas décadas existe essa vontade em muitos países; assim como a concretização de projectos culturais noutros.

A cultura é, indiscutivelmente, um factor dinâmico, exclusivo ao desenvolvimento humano. Reflectiu-se que o senso-comum a interpreta como sendo própria de quem tem muitos conhecimentos, a cultura elitista e/ou intelectualizada, também se abordou com mais profundidade a cultura na sua dimensão antropológica, ancestral que, talvez esteja a ser um pouco esquecida e/ou ignorada. Não se abordou a cultura na sua aplicação institucional que, de igual forma, é importantíssima no desenvolvimento social e económico em geral, bem assim como de quaisquer outras organizações. Conhece-se, hoje, a necessidade de qualquer trabalhador não só conhecer, como também exercer uma cultura de espírito de empresa/instituição onde trabalha. Trata-se de outro tipo de cultura que, seguramente, trás mais-valia para as partes envolvidas.

Qualquer administração não pode desvalorizar, muito menos deixar de implementar uma cultura de dignificação dos seus recursos humanos, voltados para objectivos, que a todos beneficiem. Os seus recursos humanos, nunca podem ser ultrapassados e subestimados por quaisquer outros: máquinas, infra-estruturas ou financeiros.

Os seus trabalhadores têm de possuir uma cultura, também eles ao nível empresarial. Na perspectiva de RESENDE, (2000:146): "cultura da valorização do factor humano: por incrível que possa parecer a quem não está habituado a conviver em ambientes empresariais, a grande maioria das organizações valoriza mais as estruturas, os equipamentos, os processos do que as pessoas." E, no final, os resultados, em falências e encerramentos, estão à vista. Tem sido difícil implementar uma mentalidade de formação integral da pessoa, ficando-se muitas vezes por uma formação profissional que torna o trabalhador equivalente a uma qualquer máquina robotizada. A formação do "Saber-ser", Saber-estar", "Saber-conviver-com-os-outros" é prejudicada em favor do, apenas, "saber-fazer"

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Venade - Caminha - Portugal, 2009
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
bartolo.profuniv@mail.pt
4910-354 Venade - Caminha - Portugal
Mestre em Filosofia Moderna e Contemporânea
Universidades: Minho/Portugal; Unicamp/Brasil
Professor-Formador
bartolo.profuniv@mail.pt