A sociedade, globalmente considerada e as comunidades nacionais e locais, em particular, têm vivido em sobressalto, neste período conturbado, onde as incertezas económicas, financeiras, laborais e tantas outras, que integram a vida dos cidadãos, tornam muito difícil acreditar em certos sistemas, designadamente políticos, empresariais, financeiros e axiológicos. O mundo e os principais líderes, quer das potências económicas, quer dos blocos político-estratégicos, estão sob forte pressão, o tempo e as circunstâncias desfavoráveis estão contra eles, dificultando a busca de soluções e a tomada de decisões.
A verdade, porém, é que em primeira instância compete a tais líderes resolverem, rapidamente, todo um conjunto de conflitos, de incongruências e crises a vários níveis e/ou diversos sectores das actividades humanas: emprego, saúde, educação, justiça, economia, indústria, comércio, serviços, entre outras, igualmente importantes.
A crise, palavra estigmatizada, que se detesta, mas que faz parte da vida dos cidadãos, por enquanto está presente nos indivíduos, nas famílias, nos grupos e comunidades. Os Estados/Governos, as Empresas e Instituições atravessam, igualmente, as suas próprias crises e estas não serão vencidas por estratégias de incriminações, pelo menos nesta fase, nem por processos delatórios e muito menos por atitudes individualistas, do tipo "salve-se quem puder". O momento é de coesão, de compreensão e de tolerância, sem se abdicar de, mais tarde, exigir-se aos responsáveis que assumam o compromisso de reparar os danos que causaram.
O sucesso passa pela união de todos os cidadãos, ricos e pobres, intelectuais, iletrados, autodidactas, produtores e consumidores, empresários e trabalhadores, governantes e governados, religiosos e leigos; passa, também, e necessariamente, pelo entendimento de todos, pelas boas relações humanas entre os cidadãos de boa-vontade, sem prejuízo da auto-realização que legal e legitimamente pertence a cada um alcançar, de resto e na óptica de WILLIAMS, (1978: 11): "O homem é um ser social que, em sua busca do significado e orientação na vida, inevitavelmente encontra os problemas de auto-realização. Esta auto-realização como um indivíduo não depende, como pode sugerir o termo, de uma autocontemplação solitária, mas basicamente de uma interacção com outros indivíduos. Para conhecermos a nós mesmos e sermos nós mesmos, para pôr à prova e desenvolver valores pessoais, precisamos viver e trabalhar com outras pessoas."
Ultrapassada e vencida a crise, pelo menos no que respeita aos seus aspectos mais negativos, é óbvio que se torna necessário responsabilizar quem esteve na sua origem, as causas que conduziram a esta situação, e exigir que de futuro sejam colocados à frente das instituições as pessoas mais competentes, que se lhes pague um salário justo, acrescido de um prémio pelos objectivos positivos alcançados, mas sem mais quaisquer outros benefícios e privilégios, que se lhes peçam responsabilidades, quando, por negligência, facilitismo e reiterada incompetência, administram mal as instituições para as quais foram eleitos e/ou nomeados, até porque, quando um determinado cidadão, no exercício de um cargo humilde falha, todo o mundo lhe pede responsabilidades e, quantas vezes é condenado em praça pública.
O Estado Social, aqui considerado o Governo de qualquer país, a todos os níveis do poder - central, regional e local - deve preocupar-se com os mais desprotegidos, com os mais pobres, com os menos habilitados e com os mais fracos, competindo-lhe levar à prática políticas de solidariedade efectiva, concreta e objectiva, começando por dar exemplos de boas-práticas, de poupança, de rejeição de salários e reformas de luxo, de privilégios, porque o que se gasta com tais benefícios, mordomias, representações e propaganda, por muito legítimos e legais que sejam, dariam, por exemplo, para matar a fome a um milhão e oitocentos mil de portugueses e/ou criar milhares de postos de trabalho.
Cada vez mais se impõe uma verdadeira educação cívica, uma escola social, a frequentar por todos os cidadãos, com vista ao exercício dos vários papéis que numa sociedade justa, humana e segura se exige a cada um, desde já a quem tem responsabilidades de governação. Não basta, aliás, é mesmo muito pobre, uma certa popularidade para a captação de simpatias em períodos mais sensíveis. É muito mais importante uma atitude de humildade moderada, de não se prometer o que não se sabe se se pode cumprir e estabelecer prioridades que visem a dignificação e qualidade da vida humana de cada cidadão.
A admiração e o respeito do povo também se ganham com verdade, com valores cívicos, com uma formação social, com alguma experiência de vida, com o envolvimento sadio do povo. E se existe a obrigação de todos os cidadãos se prepararem para o trabalho, estudando as diversas matérias, também se recomenda, conforme ensina GALACHE, GINER & ARANZADI (1969: 14) que: "Com maior obrigação, se nos impõe o conhecimento da verdade sobre a situação social do nosso tempo, os princípios cristãos que iluminarão a solução dos desequilíbrios, conflitos e crises humanas, e que fornecem as bases de uma estrutura nova de um mundo mais humano e mais justo."
E mesmo admitindo que, cada um com a sua quota-parte, todos são culpados das crises que ao longo da história dos países, sociedades, comunidades, famílias e indivíduos, afectam a uns mais do que a outros, também não se pode ignorar que compete aos poderes instituídos, públicos e privados, criarem as condições mais favoráveis para que os cidadãos estejam preparados para enfrentar tais crises. Por vezes, demasiados facilitismos, podendo ser muito populares e aparentemente benéficos, como por exemplo, o acesso, quase indiscriminado ao crédito, mais tarde surge o reverso de tais medidas e as consequências são imprevisíveis, porém, a maior parte das vezes, dramáticas.
Igualmente, a impreparação de milhões de cidadãos para compreenderem os seus papéis na sociedade, quaisquer que eles sejam, provocam situações de difícil ultrapassagem - alguns trabalhadores que apenas reivindicam, outros estudantes que não querem estudar, diversos reformados que se refugiam numa poltrona, quando ainda poderiam ser úteis à sociedade, alguns jovens que não lutam por valores nobres, enfim, um sentimento quase generalizado segundo o qual o Estado e os Empresários tudo devem dar sem receberem nada em troca, não ajuda a vencer as crises, independentemente da amplitude e dos sectores que elas afectam num dado momento. A Cidadania também é assunção de responsabilidades. A mentalidade social pertence e deve ser património de todos.
Para além das causas, dos responsáveis, das estratégias, dos objectivos que possam esclarecer as situações de crise, sempre tem existido uma ou outra razão de fundo que se prende com o pouco investimento público e privado na formação para a Cidadania em todos os seus vectores, (principalmente num passado relativamente recente) agora mais do que nunca na vertente social, porque se tem considerado como fundamental a tecnologização da pessoa humana, os denominados "Choques Financeiros", "Choques Tecnológicos", o saber exclusivamente técnico, a produção em massa, metas e objectivos numericamente quantificáveis. Os resultados estão aí, colocando o mundo em pânico, os líderes mundiais sem saber o que fazer e os cidadãos descrentes e a passarem inúmeras dificuldades.
Por isso tem que se dar razão aos pensadores que há cerca de quarenta anos, como GALACHE, GINER & ARANZADI, já afirmavam: "A formação da sua personalidade social permaneceria incompleta se, fechando-se em si mesma, se dedicasse tão só a aperfeiçoar-se a si próprio. Tem que abrir suas comportas, misturar-se com o povo, vibrar com suas preocupações, conhecer seus problemas. No trabalho em favor da humanidade seu carácer se fortificará, romperá os diques do egoísmo e estará preparado para realizar sua missão."
A luta contra a miséria foi um desígnio nacional, todavia parece que os resultados não aconselham grande optimismo. Decorridos mais de trinta e quatro anos da instauração da democracia em Portugal, continuam as crises, verificando-se que neste período se acentuaram as desigualdades entre ricos e pobres o que contraria o projecto português tão propalado na tomada de posse do I Governo Constitucional de 23 de Julho de 1976, divulgado pela Secretaria de Estado dão Comunicação Social, pela caneta de VASCO (Coord.) (1977: 57), onde se refere que: "O Projecto Português não visa o socialismo da miséria necessariamente imposto por via repressiva, primacialmente a luta contra o desenvolvimento, a eliminação da miséria que ainda atinge largas manchas do agregado nacional e a criação de um sistema de autêntica justiça social …"
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Venade - Caminha - Portugal, 2009
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
bartolo.profuniv@mail.pt
4910-354 Venade - Caminha - Portugal
Mestre em Filosofia Moderna e Contemporânea
Universidades: Minho/Portugal; Unicamp/Brasil
Professor-Formador
bartolo.profuniv@mail.pt