A Casa do Orfeão engalanou-se no passado dia 22 de Maio para receber os convidados que se inscreveram, em número limitado, para participar no primeiro jantar temático realizado pelo Orfeão de Vila Praia de Âncora, com decoração de fatos da época e uma ementa baseada nos escritos de Eça de Queiroz.
"Uma actividade que vínhamos sonhando já algum tempo e que se insere perfeitamente no plano cultural do Orfeão" como disse Francisco Presa, maestro e presidente da direcção, ao justificar aquela nova iniciativa.
Ao longo do jantar várias foram as intervenções que versaram a vida e a obra de José Maria de Eça de Queiroz, um dos maiores e mais importantes escritores portugueses de todos os tempos.
Na ementa apresentada, com pratos confeccionados com todo o empenho e rigor histórico pelo grupo da cozinha do Orfeão e com o apoio da orfeonista Carmen Pereira, destacamos, depois das entradas, o "caldo de galinha com fígado e moela" relatado no livro "Cidade e as Serras" "… Desconfiado (Jacinto), provou o caldo que era de galinha e rescendia. Provou e levantou para mim, seu camarada de miséria, uns olhos que brilhavam, surpreendido. (…) Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes fervorosamente, ataquei aquele caldo …".
Seguidamente as travessas devidamente preparadas e decoradas trouxeram para as mesas uma fabulosa "perna de vitela assada com arroz de miúdos e favas estufadas", que fumegavam e inalavam um cheirinho de fazer crescer a àgua na boca, traduzindo um prato colhido na prosa do "Primo Basílio" em que Eça descreve a cena "… Ia fulminar (o conselheiro) a doutrina transmontana, mas a Senhora Filomena colocou-lhe adiante a travessa com a perna de vitela assada. Compenetrou-se logo do seu dever, afiou o trinchador com solenidade, foi cortando fatias finas, com a testa muito franzida como na aplicação de uma função grave. …".
A sobremesa com pudim e queijadinhas também se inseriu na mesma temática, a fazer o regalo dos comensais, como reza o extracto da "Cidade e as Serras" em que Eça nos descreve "… À mesa onde os pudins, as travessas de doce (…). - Como gostar! Mas é que delira! … Pudera! Tanto tempo em Paris, privado dos pitéus lusitanos …".
Maria José Areal, especialista na literatura queirosiana, conviva neste repasto, começou por historiar a personagem de Eça de Queiroz, nascido a 25.11.1845 na Póvoa de Varzim, cidade que hoje alberga o maior evento literário nacional - "Correntes D'Escritas - José Maria de Eça de Queiroz".
Falou da sua vida atribulada que começou logo nos seus primeiros dias.
Filho do procurador régio em Ponte de Lima, José Maria Teixeira de Queiroz e declarado filho de mãe incógnita, Carolina Augusta Pereira D'Eça (menina bonita de Monção), dado que os pais na altura ainda não eram casados.
Um escândalo para a moralidade do seu tempo e que levou a mãe a dar à luz em casa de familiares na Póvoa de Varzim.
Um estigma que acompanhou sempre Eça de Queiroz, criado por toda a gente menos pela família.
Depois da Póvoa de Varzim, Eça de Queiroz viveu em Vila do Conde, onde foi baptizado a 1 de Dezembro de 1845, tendo depois sido enviado para casa dos avós paternos, um solar em Verdemilho, perto da cidade de Aveiro, onde brincou e cresceu.
Numa carta escrita descreveu-se a si próprio como "filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe da ria …".
Aos dez anos vai estudar para o Porto, para o Colégio da Lapa" e depois vai para Coimbra onde cursou direito, como refere em Cartas Familiares "em Coimbra, na ardente e fantástica Coimbra do meu tempo ", e onde conheceu e privou com Antero de Quental, Oliveira Martins e Teófilo Braga, o grupo de intelectuais que formaram a Geração de 70.
A partir de Coimbra Eça de Queiroz correu o mundo. Passou por Lisboa, Évora e Leiria e assistiu à inauguração do Canal de Suez, conhecendo o Egipto e a Terra Santa.
Bom orador e bom argumentista seguiu a vida diplomática levando-o a La Havana, Newcastle, Bristol e Paris, onde veio a falecer nesta cidade aos 55 anos de idade, em 16 de Agosto de 1900, tendo sido o introdutor do realismo em Portugal.
Os seus livros e os seus inúmeros artigos em revistas e jornais relatam as vivências e os hábitos da sociedade do seu tempo.
Convicto das ideias socialistas entendia a importância da escrita para intervir na sociedade do seu tempo, criticando a classe política, o clero, a burguesia provinciana, os jornalistas, o povo …
"A sua pena era mordaz e impiedosa. Clarividente, perspicaz e arguto foi um dos escritores mais marcantes do final do século XIX", como bem disse Maria José Areal "Eça de Queiroz foi o grande embaixador do nossa Pátria, da nossa língua e do nosso saber".
Um testemunho pessoal muito emotivo e muito interessante foi dado durante o jantar pelo orfeonista Artur Gigante.
Falou do tempo em que foi funcionário de finanças em Baião, no ano de 1969, e do relacionamento amistoso que teve com o neto do escritor - "D. Manuel" Eça de Queiroz - na altura presidente da câmara municipal de Baião e com a sua mãe Dona Maria Eça de Queiroz, filha do escritor, uma senhora com cerca de 80 anos, que lhe confidenciou que só muito tarde se apercebera da grandiosidade da obra literária de seu pai.
A filha definia o escritor seu pai como um homem frugal, contrapondo a imagem do lustroso e amigo poeta António Feijó, de Ponte de Lima, referindo-se a este como "o temível Feijó" pela sua grande apetência gastronómica.
Esta iniciativa do Orfeão, uma autêntica tertúlia cultural em diálogo com a assistência, foi muito apreciada e aplaudida pelos comensais que se deliciaram com a ementa gastronómica que lhes foi apresentada, terminando com um quente e saboroso "café de saco" tão típico do tempo em que viveu o escritor.
Maria José Areal agradeceu no final o simpático convite do Orfeão e fê-lo de uma forma singular, parafraseando o estilo do próprio Eça de Queiroz, o que foi muito apreciado e aplaudido, num escrito que se destaca em separado.
"O êxito desta iniciativa do Orfeão é o garante da sua continuidade no futuro", como foi realçado por Francisco Presa, com o agrado manifesto de todos os presentes.