Ao longo dos séculos tem-se confirmado uma praxis de humildade por parte da Filosofia e dos filósofos, na intervenção que terão tido no desenvolvimento científico e tecnológico, independentemente das críticas negativistas que determinados sectores das denominadas ciências positivistas manifestam, em circunstâncias da vida e da história dos homens e das instituições.
E se há actividades em que a Filosofia, aparentemente, não participa, outras existem cujo contributo é bem patente. Aliás, o saber filosófico bem poderia intervir em todos os domínios, desde logo com a sua crítica pertinente e construtiva, como já o tem feito em relação a áreas do saber que em se exige prudência, antes de se extraírem conclusões. Certamente que ninguém, de boa-fé, refuta a importância da Filosofia na área das ciências sociais e humanas, de resto, grande parte dos actuais problemas que, nestes domínios, hoje se colocam, não têm nada de novo em sua profundidade, talvez, alguma actualização de pormenor.
O mundo em geral e grande parte dos países em particular vivem problemas que as designadas ciências exactas não conseguem resolver: fundamentalismos, racismo, xenofobia, etnocentrismo, religião, nacionalismos e tantos outros, continuam a desenvolver-se, nuns casos agravando-se, noutros estagnando e em muito poucas situações estão resolvidos definitivamente.
O que se tem conseguido, deve-se, seguramente, à força persuasiva do diálogo, dos valores e da diplomacia e não tanto à violência do poder bélico-tecnológico que, este sim, se suporta nas ciências exactas, na técnica e na tecnologia. Então porquê ignorar e maltratar a Filosofia e as Ciências Humanas e Sociais que dela emanaram?
A movimentação de pessoas, bens capitais e mercadorias, num processo desenfreado de globalização, não tem vindo a contemplar, de forma inequívoca e substancial, os valores étnico-culturais, característicos de cada povo, grupo ou família, por parte das diversas áreas do conhecimento positivo, no entanto, já se reconhece, segundo nos esclarece FRACCALVIERI, (2008:24) que: "O encontro entre povos que na maioria dos casos se traduziu num confronto, fez da interculturalidade um aspecto intrínseco à Filosofia. (…) Na verdade, esse encontro como outro não é algo de novo na Filosofia. Pelo contrário, faz parte da sua própria natureza, e a sua vocação à interculturalidade pode ser historicamente comprovada. Falar de Filosofia Intercultural significa, portanto, recolocar a Filosofia no seu espaço e tempo, voltar às suas origens históricas, restituir o seu passado."
Portugal, Estados Unidos da América do Norte e diversos países da América do Sul, de entre os quais se destaca o Brasil, bem como muitos outros do espaço europeu, são bem o exemplo de situações culturais multifacetadas, dada a procura de que estão a ser alvo, por parte de milhares de imigrantes, oriundos de países com dificuldades diversas. Cabe aos países receptores delinear uma política de integração e interculturalidade, no sentido do melhor acolhimento daqueles que buscam, pelo trabalho e pelo estudo, condições de vida digna e confortável.
No actual contexto de mobilidade internacional, em que se deseja abertura e reciprocidade no tratamento de pessoas e situações, os países económica e tecnicamente mais desenvolvidos, não podem deixar de dar acolhimento aos cidadãos oriundos de nações que atravessam grandes dificuldades naqueles e noutros domínios, porque tal medida acaba por beneficiar uns e outros: os primeiros, porque, normalmente, recebem mão-de-obra jovem e qualificada; os segundos, porque podem ver as suas economias melhorar com a remessa de fundos dos seus cidadãos emigrantes.
Entra aqui, naturalmente, uma filosofia de direitos humanos, nas diversas vertentes, que dela fazem parte: multiculturalismo, cidadania, sistema educativo, formação profissional e social, trabalho, saúde, habitação, cultura e lazer, entre outras abordagens. Reflectir com preocupações de resolução dos muitos problemas humanos, são competências filosóficas, quanto mais não seja, com o intuito de alertar organismos e respectivos titulares dos diversos cargos que ocupam, para que busquem soluções justas e humanas.
A Filosofia postula, então, conhecimentos, habilidades, competências, a partir do pensamento racional organizado. Cabe a cada cidadão, a cada grupo, a cada comunidade, em cada momento, melhorar o presente, acautelar o futuro. O passado, a história, as memórias e os antepassados que abandonaram o mundo dos vivos, servem para se reflectir sobre o que, naquela época e contexto, foi bem ou mal feito, numa retrospectiva, naturalmente imperfeita.
O mundo evoluirá tanto mais favorável e positivamente quanto as gerações presentes e futuras estiverem melhor preparadas. Neste sentido pode-se concordar com PAINE, (1998:15): "Todas as gerações são, e têm de ser competentes para todos os desígnios que as ocasiões determinarem e são os vivos e não os mortos, que têm de ser ajustados. Quando o homem deixa de existir o seu poder e as suas vontades morrem com ele; e como já não tem qualquer participação nos problemas deste mundo, deixa de ter autoridade para decidir quem serão os governantes, ou como o Governo será organizado ou administrado."
Hoje é muito importante para a sobrevivência autónoma de qualquer cidadão o saber-fazer, estar profissionalmente capacitado para o trabalho competente, qualificado e aceite no mercado, mas também é fundamental que o trabalhador saiba pensar, expor a sua posição perante os diversos assuntos e situações da vida societária.
Ser um bom técnico, sem as competências da formação humana, pode significar uma certa marginalização social, o que, igualmente, provoca desconfortos e o não reconhecimento do mérito e qualidades pessoais necessários ao bom relacionamento entre pessoas e grupos. A título meramente exemplificativo, não haverá possibilidades de interculturalidade de um determinado técnico, se ele não se esforçar por compreender a nova cultura do local onde pretende e/ou está a trabalhar, sendo o contrário, igualmente, verdadeiro.
A preparação filosófica para a integração e interculturalidade de qualquer pessoa deve, portanto, começar o mais cedo possível na sua vida, preferencialmente ainda criança, em que esta assimila, praticamente, todos os conhecimentos e, mais tarde, será capaz de reflectir sobre eles. Na verdade e na perspectiva de TAYLOR, (1994:174): "Temos de ajudar as crianças a formarem-se, e temos de fazer algo de acordo com os nossos valores porque as crianças não começam com valores próprios. Valorizar a autonomia é respeitar as concepções dos outros, pesar os seus planos e concepções."
No respeito por todas as áreas do conhecimento científico e tecnológico e, obviamente, com a interdisciplinaridade que se presume necessária, torna-se cada vez mais evidente ser indispensável a abordagem filosófica, em todas as matérias que visem o desenvolvimento da pessoa humana, da sociedade e do mundo: sejam matérias que proporcionam o bem-estar e a paz; sejam aquelas que provocam o desconforto, a infelicidade e a guerra. Reflectir é preciso.
A Filosofia deverá estar sempre presente, de resto, confirma-se, ter-se acentuado um certo "deficit" de pensamento, de reflexão e de análise crítica em diversos tipos de aprendizagem técnica, prevalecendo, ainda, uma certa mentalidade tecnocrática que, infelizmente, já provou ser insuficiente para resolver os grandes problemas da humanidade.
O mundo, as sociedades, grupos e pessoas tendem a caminhar para a interculturalidade, por mais barreiras que se coloquem à imigração, por vezes de forma discriminatória, na medida em que para algumas actividades, nomeadamente: técnicas, tais como determinadas especialidades e também desportivas, não existem entraves, a verdade é que a mobilidade será uma saída para um certa paz social, por isso é preciso repensar, em conjunto, todas as políticas de imigração e as respectivas consequências, em diversos domínios, desde já a dimensão cultural de que cada cidadão está investido. Nesta perspectiva aponta FRACCALVIERI, (2008:29): "A tarefa da Filosofia Intercultural consiste, portanto, em implementar um diálogo filosófico sério, capaz de criar uma cultura de paz radicada na consciência, segundo a qual não pode haver uma verdadeira paz mundial sem um certo desarme cultural."
Aceitando-se que o futuro, ainda incerto, vai depender muito de um presente, que se conhece relativamente; que as gerações actuais se preparam para construir um mundo melhor; que são necessárias para garantir um fim-de-vida condigno aos seus progenitores; também é verdade que não se pode descurar o papel daqueles que se aproximam do fim da sua existência, e que no futuro poderão ser recordados como bons ou maus administradores deste presente. Pouco valerá dar-se uma formação aos jovens a pensar no futuro, se estes, no seio das suas próprias famílias, viverem perante atitudes, modos de vida e valores contrários aqueles que se pretendem ensinar. Aqui também deve entrar uma filosofia de educação de adultos, até porque estes podem (e devem) continuar activos enquanto lhes forem proporcionadas condições para o efeito.
A sociedade compõe-se, portanto, de várias gerações, todas importantes, porém, cada uma com os seus papéis, com os seus projectos em prol do bem-comum. Não podem os mais idosos ignorar as capacidades dos mais novos, mas também estes não devem marginalizar e/ou desprezar os conhecimentos daqueles. A sociedade intercultural constrói-se com a formação integral de todos, sem quaisquer excepções ou discriminações negativas. Concordando-se com a reflexão de PINTO, (2004: 149), rapidamente se conclui que: "A aprendizagem escolar é metodicamente heterónoma devendo ter em vista a criação da autonomia. A aprendizagem comunitária é, necessariamente, autónoma. E é rigorosamente universal. Quer dizer que não há exclusões por motivo algum, incluindo a idade. É necessário reconhecer a sabedoria dos mais idosos, pôr ao serviço da comunidade o seu potencial enriquecido pela prudência e pelo amor aos bens e à história da comunidade."
Portanto, é nesta conjugação de sinergias, de saberes e de fazeres que a Filosofia deve acompanhar as restantes áreas do conhecimento, sempre com objectivos humanísticos, sem discriminações negativas, para que as diversas culturas possam enriquecer-se reciprocamente, mantendo nos seus núcleos as respectivas matrizes identitárias. Este poderá ser o caminho da Paz e da Felicidade para um Mundo tão conturbado que actualmente, nesta primeira década do século XXI, ainda se vive.
Bibliografia
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Venade - Caminha - Portugal, 2009
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
bartolo.profuniv@mail.pt
4910-354 Venade - Caminha - Portugal
Mestre em Filosofia Moderna e Contemporânea
Universidades: Minho/Portugal; Unicamp/Brasil
Professor-Formador
bartolo.profuniv@mail.pt