As duas arguidas no processo do desvio de dinheiro (17.600€, segundo a Câmara apurou) falaram ao C@2000 sobre este caso que "a custo" têm mantido silêncio, mas desabafaram agora "por um acto de desespero e por já não poder aguentar mais", disse-nos Suzana Esteves, funcionária da bilheteira, inconformada por "estar a ser julgada antes de ir a julgamento".
Recorde-se que o assunto da falta de entrega do dinheiro da bilheteira nos serviços de contabilidade camarários, entre Agosto e Dezembro de 2008, tinha originado um processo de averiguações a nível interno, do qual resultara uma participação ao Ministério Público que acusou a funcionária e a sua "mãe adoptiva" de crime de peculato e agindo em comunhão de esforços, aguardando-se pela marcação do julgamento.
Entretanto, por proposta da presidente da Câmara, a vereação viria a aplicar uma pena de suspensão de 240 dias à funcionária, sanção essa que a própria nos disse nunca ter sido notificada por escrito, mas que se encontrava a cumprir por indicação do seu advogado.
"MÃE ADOPTIVA" DEPOSITARIA O DINHEIRO
Segundo nos revelou agora Susana Esteves, nunca tinha visto o manual de procedimentos que apontaria para um depósito diário das verbas nos serviços de contabilidade camarários, como vinha fazendo, aliás, regularmente, até que encarregara a sua "mãe adoptiva" de proceder à entrega das importâncias (e que no mês de Agosto, nos seus turnos, poderiam situar-se entre 500 e 600€), por motivos de atendimento a uma pessoa que vivia na casa de ambas e que se encontraria doente e a necessitar de assistência.
Admitiu ter recebido uma notificação camarária (carta registada) em Julho desse ano, por se ter atrasado na entrega das receitas durante cerca de uma semana, a que atribuiu a um período em que teve de receber assistência num hospital do Porto, tendo depositado a respectiva verba na câmara, logo que chegara.
CASOS ESTRANHOS NO FERRY
Susana Esteves, prosseguindo o seu relato, referiu ser estranho que logo após ter tido uma conversa com o vereador Paulo Pereira e lhe relatara uma série de casos que se passariam no ferry, (tendo-a este aconselhado a contar tudo à presidente com quem possuía uma "aproximação" fácil, embora já o devesse ter feito com anterioridade, anotara o edil), fora chamada a uma das juristas camarárias a fim de responder num processo disciplinar.
Suzana Esteves acrescentou, que tinha sido chamada à presença da presidente Júlia Paula a 19 de Dezembro de 2008, quando se encontrava a "retirar as folhas de serviço diárias de Agosto a Dezembro" por incumbência do encarregado do ferry, mas as quais, na sua maioria, "tinham desaparecido da bilheteira", revelou-nos.
"PRESSÃO PSICOLÓGICA"
Nesta sua versão dos acontecimentos, Suzana Esteves disse que quando chegou à presença da presidente, que se encontrava acompanhada por um jurista, fora interpelada sobre o desaparecimento do dinheiro, assunto que disse desconhecer, atendendo a que era a sua "mãe adoptiva" que ficara responsável pela sua entrega, embora garantisse que possuía o livro de registos.
Disse que o interrogatório durara cerca de duas horas e, devido à "grande pressão psicológica" a que se encontrava submetida, aceitou assinar um documento em como admitia ter sido a responsável pelo desvio do dinheiro e obrigar-se a descontar 1/6 sexto do vencimento todos os meses, documento esse que ficou na posse da presidente, afirmou, caso contrário, "a tua amiga Vina Morte pode ser presa", avisou-a.
Ainda segundo as suas declarações ao C@2000, a presidente teria argumentado que dessa forma, logo que repusesse o dinheiro nos serviços de contabilidade, "o documento é rasgado", asseguraria.
ACORDO
Chegada a casa, Susana interpelaria a sua amiga sobre o sucedido, vindo então a saber - segundo nos asseverou - que a própria presidente a teria dispensado (à Vina Morte) de entregar o dinheiro do ferry.
Tal sucedeu, explicou-nos também Etelvina Morte, pelo facto de andar constantemente a correr para a câmara a fim de se inteirar da aprovação de uma candidatura "a fundos perdidos" no valor de 160.000€ a que se propusera, no intuito de conseguir realizar obras em sua casa, situada no centro histórico de Caminha.
Como essa candidatura nunca mais era viabilizada e era-lhe necessário intervir na sua habitação, a presidente ter-lhe à dito em Agosto de 2008 que como a verba da candidatura estava para chegar brevemente, poderia "utilizar o dinheiro do ferry" e, "escusa de ninguém saber" de tal acordo, teria adiantado a autarca, após o que deveria repor a importância correspondente, situação da qual a "Suzana não saberia de nada", assegurou.
Etelvina Morte adiantou ainda que vários funcionários camarários possuíam conhecimento da situação da habitação a necessitar de uma reparação urgente.
Interrogam-se ainda como teria sido possível que os serviços de contabilidade camarários "não dessem pela falta dos depósitos", quando eles deveriam suceder diariamente.
Acrescentou ainda Etelvina Morte, que no final da reunião da assembleia municipal de 2008, antes de a sua amiga ter sido chamada ao gabinete da presidente (19/Dezembro, segundo a sua versão), tinha estado a falar com Júlia Paula e que esta a tranquilizara, bem como à sua amiga, porque "estava tudo resolvido".
Etelvina Morte estranha toda esta situação, alegando ainda não ter recebido a senha de presença como deputada eleita pelo PSD numa das suas sessões, bem como o facto de ter tentado chegar à fala com a presidente por três vezes depois de todas as notícias terem vindo a lume, sem nunca o ter conseguido.
CARRO EM SISTEMA LEASING
Sobre a questão da compra do carro com recurso ao dinheiros do ferry, Suzana Esteves nega tal e diz que o carro novo adquirido em Janeiro de 2009 pelo sistema leasing, se ficara a dever a uma troca com um outro comprado anteriormente e que apresentara deficiências de fabrico, mas acabando por lho ser retirado pela empresa financiadora no final de Setembro deste ano, por não possuir recursos para tal, dado que se encontrava sem vencimento.
Etelvina Morte acrescentaria que desejava que a Câmara tivesse despedido a sua "filha adoptiva" de modo a poder receber subsídio de desemprego e tentar encontrar trabalho, o que não conseguiu, face a toda esta situação gerada.
Negou ainda que tivesse depositado o dinheiro do ferry nas suas contas, antes o guardando em casa, dentro de um armário.
"PONTE DE CERVEIRA
Suzana Esteves adiantou ainda que o ferry-boat era uma espécie de "Ponte de Cerveira", com uma carrinha de um funcionário a utilizá-lo várias vezes à semana, na "revenda de marisco, vinho e gás ("venderam-me a mim", garantiu Suzana Esteves)", a par da suspeita da existência de bilhetes falsos e de um computador de "fácil manipulação".
"DESESPERO DIZ TUDO"
Pedindo um comentário à presidente Júlia Paula sobre esta situação (ferry), atribuiu-a à campanha eleitoral e "o desespero diz tudo", nada mais tendo a acrescentar a não ser que o processo se encontrava no Ministério Público.