TRIBUNA
Espaço reservado à opinião do leitor
Os Teatros Perdidos do Concelho de Caminha
Pinceladas para o resguardo da memória teatral
 
Perdemo-los o rasto ou simplesmente deixamo-los ao abandono. O Teatro Valadares, em Caminha, é o exemplo por excelência que reflecte e inspira o título deste artigo. Este teatro, construído pela mão do seu proprietário José Maria Valladares e com a ajuda de Joaquim Vicente da Cruz Trovisqueira ainda no findar do século XIX (1897), já muita tinta derramou no apelo à sua "salvação", antes que o inevitável passar dos anos o condene à completa ruína. Por ele, e pelo Teatro Ancorense, passaram, principalmente na primeira década do século XX, grandes companhias teatrais, de carácter popular, que enchiam as casas de espectáculos portuenses antes de partir para as suas habituais tournées pelo país, afectando assim estes teatros ditos "provincianos". Eram estes espectáculos, de carácter ligeiro e gracioso - operetas, revistas e mágicas - muito acarinhados pela plateia popular, que deliciaram o paladar do público até à sua, digamos, decadência, com o surgimento do advento cinematográfico.
O olhar ainda nos proporciona, por enquanto, o privilégio de poder contemplar o Teatro Valadares, não podendo dizer o mesmo de outros, onde apenas os escritos nos servem de utensílio para esboçar na nossa mente aquilo que seria o seu aspecto e a sua ambiência em termos de público e espectáculos. Um desses exemplos é o antigo Teatro Vitória, em Seixas, que, segundo os relatos de alguns periódicos antigos, a sua edificação deveu-se à "distinta família Terra" - lembre-se que o afamado arquitecto Ventura Terra era "filho" desta vila - tendo a sua inauguração, em Maio de 1913, ficado a cargo de um "grupo de amadores". Por lá viriam a passar companhias nacionais de operetas e revistas, perdendo-se o seu rasto, tal como o Teatro Afonso, em Moledo do Minho, na segunda metade da década de vinte. Este último, inaugurado a 28 de Setembro de 1884, era, segundo rezam as crónicas, "agradável e elegante". As peças inaugurais - o drama Amor e Arte e a comédia O Descasca Milho - promovidos pela chamada outrora Sociedade dos curiosos da freguesia, marcariam o rumo programático futuro, assumidamente popular, que, como referimos, predominaria até, pelo menos, inícios da década de vinte. Porém, além de desconhecer aquela que seria a sua localização, o seu rasto perde-se nos inícios do século XX, muito provavelmente devido à concorrência do teatro caminhense e ancorense.
Dito isto, foi no início da década de vinte que o Teatro Valadares e o Teatro Ancorense se adaptaram, por assim dizer, à tendência de substituir o teatro (ou as então em voga artes circenses) pelo fenómeno emergente do Cinema. Apesar de o teatro caminhense já ter apresentado algumas sessões de cinematógrafo na primeira década do século XX, foi precisamente no citado período que o público se deixou levar, como que embriagados, pelos primeiros passos dados pela Sétima Arte. Pioneiro neste aspecto, foi pela mão da Empresa Cinematográfica Valenciana que o Valadares começou a exibir películas como Um dia bem passado (A Day's Pleasure), do então incontornável actor cómico Charles Chaplin.

O Teatro Ancorense parece ter resistido, tal como outras casas de espectáculo das principais cidades do país, ao fenómeno cinematográfico, "ancorando-se" a companhias de carácter popular que frequentavam as principais casas de espectáculo portuenses no que toca a esta vertente ligeira de teatro - Teatro Carlos Alberto e Águia d'Ouro -, como foi o caso da afamada Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, presentes no citado teatro no mês de Agosto (altura das já citadas tournées) de 1926. Porém, no ano seguinte, já surge sob a designação de Cinema Ancorense, numa clara alusão à inevitabilidade de adaptar-se à realidade programática que então melhor garantia a sobrevivência das casas de espectáculos. Foi, provavelmente, esta incapacidade de adaptação à nova realidade, aos novos gostos da população, que ditaram a efemeridade e desaparecimento dos pequenos teatros de Seixas e Moledo do Minho.
Daniel Rosa
Historiador de Arte
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No passado dia 10 de Junho inaugurou-se em Vila Praia de Âncora um "Monumento aos Combatentes da Guerra do Ultramar" e atribuiu-se esse mesmo nome a uma rua daquela vila, depois de três dias antes se terem efectuado outras celebrações e de já em 2004 se ter afixado no Largo do Posto do Turismo, em Caminha, uma lápide evocativa dos oito mortos do concelho no mesmo conflito, ao lado de similar lápide de homenagem aos quinze soldados sacrificados na 1ª Guerra Mundial (1914-1918).
É normal e saudável que as comunidades honrem a memória dos seus combatentes e dos seus mortos mesmo se, a maioria das vezes, rapidamente se esqueçam deles, não sendo preciso mais do que o tempo de duas ou três gerações para que tal aconteça. Veja-se o que sucedeu precisamente com a Grande Guerra e os seus combatentes, apagados da toponímia de Caminha depois de terem dado o nome a dois largos diferentes (os actuais Praça de Espanha e Largo do Posto do Turismo) e simbolizados na toponímia de Vila Praia de Âncora pelo nome do malogrado soldado João Alves da Deveza, um nome que pouco ou nada dirá aos que hoje passam nessa artéria ancorense.
O que me parece menos admissível é que, a pretexto dessa justa Homenagem, se procure por vezes reescrever a História, produzindo discursos ora nostálgicos, ora justificativos de uma guerra que foi, a todos os títulos, injusta e contra os ventos da História, custando a Portugal 8.289 mortos e 15.507 pessoas com deficiências permanentes, ao mesmo tempo que exauria recursos preciosos que nos poderiam ter tirado da pobreza numa era de crescimento económico e condenava o nosso país ao completo isolamento internacional.
O mais curioso é que aqueles que hoje parecem encontrar razões suficientes para Salazar nos ter empurrado para essa desastrosa Guerra Colonial de treze longos anos, são muitas vezes os mesmos que agradecem ao Ditador o ter livrado os portugueses de participar na 2ª Guerra Mundial (1939-1945), essa sim uma guerra justa e necessária para livrar a Europa e o Mundo da ameaça nazi-fascista, feito que ficaremos a dever para sempre a ingleses, americanos, russos e outros povos.
Sobretudo para as gerações mais novas, que tiveram a sorte de não se sacrificarem inutilmente em África graças aos militares corajosos que em 25 de Abril de 1974 possibilitaram o fim da guerra, convém recordar e honrar não somente aqueles que o regime de Salazar e Caetano obrigou a ir combater, mas igualmente lembrar que muitos outros jovens portugueses, entre os quais também se contaram caminhenses, se recusaram a fazê-lo - os faltosos ao recrutamento atingiram os vinte por cento nos derradeiros anos do conflito - optando pelo duro exílio e, alguns deles, pelas fileiras de um outro combate, o combate pela Liberdade e pela Democracia.
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Longe vão os tempos em que meu pai e muitos outros da sua geração, se deslocavam ao campo de jogos Morber para assistir a auténticos desafíos de futebol, que opunham a equipa da casa, naquele tempo denominada Grupo Desportivo Amadores de Caminha, com as mais variadas colectividades rivais.
Domingos de futebol, com alguma cerveja a mais, mas respeitando a realidade da modalidade, e fazendo parte do espectáculo chamado futebol, que mesmo ausente de estrelas do desporto rei mundial, não deixava de fazer as delícias de quem alí se deslocava com a finalidade de viver uma agradável tarde desportiva.
Épocas se passaram de vitorias e derrotas, subidas e descidas de divisão, até que a ambição de uns ou a necessidade de mudar no tempo, fez com que o clube de bairro passasse a ser um clube que movimentava dinheiros.
Sonhos de umas épocas ditas douradas, que facilmente foram esquecidas por uns e não tanto por outros, e dersde então começou uma autentica travessía pelo deserto, onde aqueles que tentaram fazer algo forma criticados, e quem criticou não fezx mais do que crítica.
Hoje, independentemente das histórias menos doces de contar ao respeito deste clube, deparo-me com um novo cenário.
Eu, que ainda ficando mal dizer isto, fiz parte da última equipa do Atlético Clube de Caminha que se sagrou campeã distrital e também pertencí à equipa técnica de júniores num passado não muito longínquo, desconhecía a realidade desta colectividade.
Nunca deixei de ser sócio, mas deixaram de me cobrar cuotas, e pregunto-me da legalidade desse gesto.
Nunca deixei de apoiar o clube, mas também nunca tive direito a ser ouvido...
Mas hoje! hoje visito o campo de futebol onde dei os primeiros pontapés numa bola; onde enverguei pela primeira vez uma camisola de qualquer clube, ainda no escalão de iniciados; onde no escalão de júniores terminámos em últimos, mas que com o tempo e chegados a séniores conseguimos um título de campeões, e dou-me de caras com uma fotografía vergonhosa, que pode perfeitamente deixar uma imagem de clube inexistente.
Hoje o Atlético Clube de Caminha tem mais dirigentes do que atletas e se querem começar um projecto novo, tem que aprender a marcar umas linhas de conducta. Aprender a avaliar as possibilidades. Marcar um caminho a seguir. Apresentar um projecto sem tempos marcados, sem necessidade de correr, mas com pernas para andar.
Uma casa começa de baixo para cima e visto a imagem deste passado fim de semana no campo de jogos MORBER, mais abaixo não se pode estar, portanto tudo o que fizerem será para cima...senão, vejam a imagem em anexo, onde poderão confirmar a frase de que "uma imagem vale mais que mil palavras".
Não procuro com isto os responsáveis, que penso que chegou a hora de deixar de apontar com o dedo a quem quer que seja, mas sim buscar soluções que devolvam a esta vila o direito a ter um clube de futebol que nos represente e dignifique as raízes locais, bem como o nome de outros que suaram com as cores desta camisola.
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Periscópio Social
Sem Bandeira Azul, sem Turismo mas com muita confusão!
Com a época balnear à porta, Vila Praia de Âncora vê, mais uma vez o verdadeiro resultado da incompetência que a Câmara Municipal de Caminha e a Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora revelam no que toca ao desenvolvimento económico do concelho e da freguesia.
Que esta câmara é incapaz de atrair investimento para o município é reconhecido por todos: a alta taxa de desemprego que está acima da média do distrito; a precariedade laboral; o desemprego e desamparo dos mais jovens que, por isso, rumam a outros destinos; os lay-off em empresas existentes na área geográfica do concelho; a falta de indústria; a falta de capacidade de gerar riqueza para melhorar as condições de vida dos munícipes, tornando-os realmente cidadãos.
Os grandes investimentos realizados e prometidos para Vila Praia de Âncora não representam qualquer crescimento económico para o concelho e para os munícipes. Pelo contrário, endividaram o erário público obrigando as gerações vindouras a conviver com a dívida acumulada ao longo dos últimos oito anos. É comum ouvir a Sra. Presidente da Câmara afirmar que Caminha ainda não atingiu o limite do endividamento! Mas, como não somos tontos, já percebemos que, afinal, Caminha está endividada… só que ainda não atingiu o limite. É tipicamente a linguagem política pejada de demagogia a funcionar a que fomos habituados nestes últimos tempos.
O dinheiro que tem sido gasto e que, ainda é necessário pagar, não foi usado para revitalizar o mercado municipal mas para manter o chamado "mercado Marrocos" (um autêntico ultraje onde a ASAE se "esquece" de entrar!). O investimento feito na zona norte do Porto de Abrigo (150000€) num mercado de venda de peixe é um insulto, numa época de crise. Como se pode esbanjar assim dinheiros públicos e ficar impune? Este dinheiro estaria melhor empregue ao serviço dos Bombeiros Voluntários de Vila Praia de Âncora e do seu Cine-teatro (um ex-libris da nossa terra) que está votado ao abandono.
Mas hoje ficaremos pela política do Turismo! Vila Praia de Âncora não tem "Bandeira Azul" o Sr. Presidente da Junta de Freguesia está calado há oito anos! Há dois mandatos que deixou de se queixar da falta de interesse dos edis camarários. Mas, num passado pouco longínquo, estava empenhado em manifestações e em discursos inflamados contra esta situação. Pois, os "responsáveis", nessa altura, não eram do seu partido… agora que são… fica calado. Provavelmente, o ouviremos a dizer que a culpa é dos critérios de atribuição deste galardão, dos erros do passado, da falta de civismo das pessoas e dos esforços que a câmara tem estado a fazer para resolver o problema.
A Vila Praia de Âncora não faz falta um presidente de Junta que não seja capaz de dizer não! Esta terra precisa de quem seja capaz de exigir qualidade nos investimentos, de definir prioridades de actuação, de demonstrar que os ancorenses são exigentes e atentos ao que lhes oferecem e um presidente que trate todos os fregueses da mesma maneira (por isso, recebe um salário). Mas infelizmente, o Sr. Presidente da Junta de Freguesia, revela já o cansaço de tanto tempo a governar a nossa terra. Está transformado em eco da Câmara Municipal, limita-se somente a agradecer tanta grandeza de espírito e de obras como os passeios amarelos a que passou a chamar eco-vias.
O retrato turístico de Vila Praia de Âncora é desolador: uma magnífica praia sem "Bandeira Azul"; auto-caravanas expulsas de outros concelhos estacionadas contra a lei na costa ancorense (crie-se um espaço condigno ou então ajudem-se os parques de campismo onde trabalha gente da nossa terra); ciganos acampados no Campo do Castelo; falta de estacionamento; despejos de lixo nas leiras contíguas à zona das Camboas (por parte de auto-caravanistas pouco conscienciosos que envergonham aqueles que amam e dignificam esta forma de turismo); falta de árvores e de serviços de apoio à praia da marginal norte, falta de esforço na preservação do espaço natural (veremos o que irá acontecer nos terrenos a norte do Bairro dos Pescadores)… isto é ter estratégia para o turismo.
O que temos actualmente é o turismo de "fast-food" caracterizado pelos concertos, pelas festas, comezainas e do "deixa andar". Afinal, como é costume dizer-se " é disto que o meu povo gosta!" Um turismo cheio de bagunça, barulho, confusão… Aliás, quantos menos parques de estacionamento houver, melhor… até parece que está muita gente por cá… é tal a confusão! No entanto e paralelamente, os comerciantes queixam-se da falta de negócio e, aqueles que costumam alugar casas no verão, vêem a procura diminuir… até há hotéis que fecham. E, ao encerrarem, mais desemprego criam.
Vila Praia de Âncora, quer ser terra de um progresso espelho de qualidade, de emprego, de segurança, de comércio, de indústria e de riqueza. A campanha eleitoral já está na rua, agora, vão ser inaugurações, consignações, ilusões, promessas… tudo irá ser feito para turvar a vista dos eleitores ancorenses. O despesismo será o tema em Setembro nas eleições legislativas, em Outubro, desaparecerá pois o que irá interessar serão as obras para inaugurar (prontas ou não).
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Marchas de Lisboa
Na verdade pegou a moda,
Nesta Lisboa dos populares,
Com musica, cânticos a roda,
Evoluem em alegres dançares.
Marchas em homenagem a santos,
Neste mês de Junho aquece o verão,
Nas ruas desfilam animados ranchos,
Oriundos de bairros em encantação.
Simpaticas moças e belos rapazes,
Em conjunto e com imensa alegria,
São portadores de tantos cabazes,
Recheios de basta e alta primazia.
Assim vive a cidade e nossa Lisboa,
Em garrida capital e luzia galhardia,
Cantando o tradicional fado da Madragoa,
E tocando trinados da antiga Mouraria.
Vamos rapazes, também raparigas,
Cantando certo, todos por igual,
Com palavras de ordem concisas,
Para que viva libre o nosso Portugal
Antonio R. Vasconcelos
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Mesmo correndo-se o risco de se cair na desvalorização da ideia, segundo a qual: "as crianças e os idosos, são os dois extremos da humanidade mais frágeis", vale, no actual contexto, reiterar o alcance de tal assertiva, porque em alguns aspectos, e para parte da população, é uma realidade impossível de ignorar ou de se escamotear, principalmente nas vertentes física, económica e estatutária.
A população que, eufemisticamente, com profundo carinho e respeito, também se poderia designar "sénior-prudente-sábia", mas vulgarmente e, quantas vezes, desrespeitosamente, se vem apelidando por "terceira idade", (ou pior do que isso, por "velhos") em Portugal, corresponderá a uma elevada percentagem, considerando-se a idade igual ou superior a sessenta e cinco anos, podendo atingir um valor acima dos vinte por cento, do total de naturais, residentes no país.
É um valor que tende a aumentar, em oposição aos nascimentos que, praticamente, em toda a Europa, vêm diminuindo. Cuidar melhor da população, habitualmente rotulada de "terceira idade" (talvez já se possam estabelecer outras designações/classificações: "Idade de Diamante" para idades superiores a setenta e cinco anos), constitui não só um imperativo categórico, como também uma obrigação moral e legal de toda a sociedade.
Pese, embora, a circunstância de ainda existirem grandes bolsas de pobreza e de miséria extrema, em todas as idades, verifica-se que a esperança de vida tem vindo a aumentar, certamente devido a melhores condições nas: educação, saúde, alimentação, habitação, entre outros factores. Também se constata que uma faixa etária significativa, compreendida entre as idades de sessenta e oitenta anos, é constituída por pessoas com grande vitalidade, ainda na posse das suas melhores faculdades mentais e físicas, dotadas de uma imensa experiência de vida, que lhes proporciona características humanas únicas: como a prudência, a sabedoria e a responsabilidade com que encaram os compromissos que lhes são exigidos, ainda que, infelizmente, em número muito reduzido, objectivamente, no domínio de uma actividade profissional.
Portugal vem beneficiando de um permanente aumento de pessoas muito experientes, com imensos conhecimentos e uma generosa vontade de continuarem a servir o país, as suas comunidades, as famílias e a elas próprias, obviamente. A ideia errada, injusta e já de triste memória, segundo a qual, uma pessoa aos cinquenta anos (ou menos, trinta e cinco, quarenta, etc.) é nova para se aposentar, mas velha para trabalhar, revela bem a mentalidade injusta que se tem implementado na sociedade. Ninguém é velho, nem novo, para coisa nenhuma, quando existe uma política adequada de valorização, respeito e rentabilização dos recursos humanos, estes direccionados para o que cada um sabe fazer melhor, com entusiasmo e com responsabilidade.
Paulatina e sub-repticiamente, vem-se instalando o "papão" de que os mais velhos não devem trabalhar, quando colocados em determinada situação social, porque estarão a tirar o emprego aos mais novos. Nada mais falacioso e preconceituoso, porque quando uma pessoa se desliga da sua actividade principal, seja qual for o motivo, na maior parte das situações, ela deixa o seu lugar, abre, portanto, uma vaga para outro trabalhador, habitualmente mais novo. O mesmo valerá, com as devidas adaptações, para os imigrantes que, na sua esmagadora maioria, vão executar trabalhos que os nacionais já não aceitam realizar.
As organizações não podem cessar as suas actividades, sob pena de, aí sim, aumentarem o desemprego; pelo contrário, elas desejam crescer, produzir, o que implica mais recursos e destes, os humanos são essenciais. Desfazer preconceitos, ciclos viciosos e outras mentalidades mais cépticas, é relativamente fácil, se houver vontade política e empresarial, na medida em que não se verificando um aumento da população, até se vem assistindo a uma certa diminuição, então o esforço apontará para a criação e manutenção de um determinado número de postos de trabalho, em função das características etárias, académicas, técnicas e profissionais da população.
A ocupação permanente de todos os cidadãos, independentemente da idade, situação sócio-profissional e estatuto é, antes de mais, um direito constitucional e legítimo, além de que isso vai contribuir para elevar a auto-estima e auto-realização, das pessoas envolvidas numa actividade profissional, remunerada, contribuindo, inclusivamente, para a melhoria da qualidade de vida das próprias porque, segundo TOLEDO, (1986: 60): "(…) na medida em que as pessoas conseguem se livrar de condições restritivas (de ordem individual, social, económica e política), elas vão crescendo em seus esforços de buscar liberdade para assumir responsabilidades, para realizar seus projectos de auto-realização. Isso implica conquistar condições para poderem participar da decisão e condução dos projectos que lhes são importantes, bem como terem autonomia capaz de assegurar respeito próprio, condições de autodesenvolvimento e expressão de criatividade. É muito importante, então, obter espaço para disputarem o Poder, para negociarem e para dialogarem em condições razoáveis de igualdade."
Manter a população activa, desde as crianças aos mais idosos, naturalmente: as primeiras, em tarefas que respeitam à educação, formação profissional, preparação para o trabalho e participação na vida cívica; os segundos, em ocupações que possibilitem maior satisfação pessoal, aumento do património e auto-realização, com outras vantagens gerais, para a sociedade e para o Estado, porque: aumenta a produtividade de bens e serviços; poderá influenciar o bom estado de saúde, física e mental; prova-se a consideração e o respeito pela dignidade destas pessoas.
Acrescem, ainda, benefícios de ordem estratégica: primeiro, as instituições não sofrem qualquer quebra de ritmo nas suas actividades, se se mantiverem ao serviço os mais idosos, que assim o desejem, concedendo-lhes, obviamente, uma recompensa suplementar, compatível com a sua experiência, sabedoria e dignidade; segundo, a substituição destes trabalhadores experientes, pelos mais novos, pode fazer-se de forma mais tranquila e consolidada (se uma instituição que tem, por exemplo, cinquenta trabalhadores, no espaço de um ano forem obrigados a aposentarem-se trinta, certamente que o ritmo e qualidade do trabalho vão sofrer consequências, que poderão afectar o normal funcionamento e imagem da organização); terceiro, poderá haver economia de custos, nomeadamente, na formação dos trabalhadores mais novos, recém-admitidos, porque a aprendizagem será feita com os conhecimentos e experiências dos mais velhos. (Veja-se, em Portugal, o que tem acontecido com os médicos que, por via das limitações no acesso ao curso de medicina, chegou-se a uma situação de falta destes técnicos, quando tem havido milhares de jovens, com um elevado potencial intelectual, mas que por umas míseras centésimas de valores, ou menos competência numa ou noutra disciplina, de somenos importância, que todos os anos são excluídos do acesso ao referido curso de medicina).
A manutenção das pessoas, com determinada idade, em actividades profissionais remuneradas, muitas das quais com elevadas capacidades intelectuais, experiências de vida e profissionais, únicas, que se formam e actualizam a expensas próprias, sem encargos para as instituições, significa um boa gestão dos recursos humanos. Trata-se, também, de uma questão de cidadania no que respeita ao direito ao trabalho. Se o cidadão deseja continuar a trabalhar, para além da idade e situação de aposentação, esse direito (que também é um dever cívico) não lhe poderá ser recusado e, significa, ainda, um enriquecimento e valorização patrimoniais, através dos seus recursos ou capital humano, das próprias instituições.
Cidadania, estudo, trabalho e poder, entre outras intervenções, não escolhem idades, aliás, refere CARVALHO, (2007:59): "(…) quando uma sociedade apresenta um sólido espírito de cidadania, o resultado é a organização de instituições fortes, úteis, produtivas e respeitáveis. Haverá nesse caso uma prevenção contra transgressões éticas sociais. Os indivíduos estarão mais preparados para lidar com crises circunstanciais de maneira mais eficiente, bem como solucionar problemas da comunidade de forma mais solidária. A participação política será mais efectiva e, consequentemente, será melhor a qualidade de vida."
Conceder oportunidades aos cidadãos para se manterem profissionalmente activos, independentemente da idade e estatuto social, significa, também, o reconhecimento público que lhes é devido, por uma vida produtiva, de trabalho regular, ao longo de um período de tempo legalmente estabelecido pelo poder legítimo. Os cidadãos na situação de reforma, não podem, nem devem, ser recordados como números estatísticos para efeitos eleitorais. Eles representam: um passado, com virtudes e com defeitos; parte da história de um povo; as raízes mais profundas de uma cultura ancestral; a referência, pelo menos genética, para as actuais gerações; também, uma certa reserva ético-moral da comunidade onde se inserem; um património humano inestimável que jamais e em circunstância alguma pode ser ignorado ou apagado da história.
Nesta perspectiva, independentemente dos deveres legais e morais que competem à administração Central, no que se refere à atribuição e manutenção dos direitos que assistem a todos os cidadãos, cumpridos que estejam os requisitos legais para, dignamente, usufruírem de uma pensão de reforma e dos restantes benefícios sociais, designadamente, assistência médica e medicamentosa, tendencialmente gratuita, segundo a Constituição da República, podem, igualmente, os órgãos competentes instituídos, legislar, executar e fiscalizar, medidas que permitam, a quem assim o desejar, o exercício de uma actividade profissional remunerada, sem afectar a pensão de reforma, que por direito já foi obtida pelo cidadão, o qual contribuiu, financeiramente, ao longo de décadas, para essa situação.
Para além da obrigação legal e ético-moral que o Governo Central tem para com estes cidadãos, igualmente, outros níveis do poder, na circunstância, o Poder Local Democrático das Autarquias, com especial destaque para as Câmaras Municipais, podem dar o seu contributo, precisamente no sentido de apoiarem os profissionais seniores, a manterem-se activos, o que constitui uma mais-valia para o município. Com efeito, as Câmaras Municipais, algumas Juntas de Freguesia e Instituições diversas, dispondo de recursos financeiros e tecnológicos suficientes, para proporcionarem aos cidadãos aposentados, ocupações compatíveis com as competências e capacidades profissionais e/ou que constituam uma nova oportunidade, para estes cidadãos trabalharem em actividades que realmente gostem, que lhes dêem prazer, e pelas quais consigam maior auto-realização e auto-estima pessoais.
Já não restam muitas dúvidas, mesmo no complexo mundo empresarial, que o elemento humano é essencial ao desenvolvimento das instituições e ao bem-estar das populações, porque, segundo CARNEGIE & ASSOCIADOS, (1978:19): "A preocupação com o elemento humano continuou a crescer até ao dia de hoje. Nos últimos anos, especialistas em administração têm estudado as ciências comportamentais. A partir dos campos da psicologia, sociologia, antropologia e disciplinas afins, eles adaptaram muitos conceitos os quais não apenas resultam em aumento de produtividade, mas também fizeram do mundo do trabalho um ambiente mais aprazível. Este avanço tem possibilitado que mais e mais pessoas alcancem um alto grau de satisfação a partir de seus trabalhos."
Os cidadãos que, acima de tudo, são pessoas, detentoras de direitos e deveres, quaisquer que sejam as suas situações: sócio-profissional, escalão etário, estatuto, confissão religiosa, ideal político, etnia, cultura e outras dimensões humanas, devem merecer da sociedade em geral e das instituições em articular, uma atenção especial, aqui com ênfase para aquele grupo etário mais avançado, porém, na posse das suas principais capacidades físicas, intelectuais e biopsiquicas, para, querendo eles, continuarem, pelo trabalho, pelo estudo e pela economia, na busca da maior satisfação pessoal, realização de projectos e sonhos que a vida nunca lhes proporcionou a oportunidade para concretizarem. A intervenção do Poder Local Democrático, será, indiscutivelmente, muito bem acolhida no seio da comunidade, no apoio a este segmento tão digno da população.
Igualmente se defende que estes cidadãos, que já deram o seu contributo para o país, sejam beneficiários de regalias fiscais, porque se conseguiram algum património ao longo da vida, tal deve-se a muito trabalho e ainda maior poupança. Não será justo que determinados cidadãos, possuindo um pequeno "pé-de-meia", seja em património imóvel construído/adquirido e/ou móvel, se lhe exija o pagamento de impostos incomportáveis, porque isso conduzirá a que durante a vida activa das pessoas elas passem a evitar o trabalho e a poupança. A Lei não pode ser assim tão genérica e abstracta, porque não existem duas situações iguais.
Bibliografia
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BÁRTOLO, Diamantino Lourenço Rodrigues de, (2008). "O Autarca, a Família e o Trabalho", site www.caminha2000.com in "Jornal Digital "Caminha2000 - link Tribuna", N. 383 Semana de 29/ Mar. a 04/Abr. 2008
BÁRTOLO, Diamantino Lourenço Rodrigues de, (2008). Educação para a Cidadania Luso-Brasileira: Um Projecto de Formação ao Longo da Vida. Tese de Doutoramento, em fase final para apreciação por uma Universidade Portuguesa ou Brasileira. (Não publicada)
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CARVALHO, António César Perri de, (Org.). (1994). A Família, o espírito e o tempo. São Paulo: Edições USE - União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo
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Venade - Caminha - Portugal, 2009
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
bartolo.profuniv@mail.pt
4910-354 Venade - Caminha - Portugal
Mestre em Filosofia Moderna e Contemporânea
Universidades: Minho/Portugal; Unicamp/Brasil
Professor-Formador
bartolo.profuniv@mail.pt
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