Um antigo fogueteiro de Lanhelas de 87 anos, Emílio José Fernandes, continua a ser o fiel depositário de uma arte medicinal transmitida por via familiar e em que se iniciou aos 25 anos, a qual "já me permitiu curar mais de dois mil queimados".
Seu pai, José Maria Fernandes, um dos mais famosos pirotécnicos lanhelenses, seria o autor da fórmula mágica artesanal, inventada à base de um produto usado no fabrico do fogo de artifício, mais concretamente, o ácido pítrico, importado da Suécia, servindo de base aos "apitos" aplicados na pirotecnia.
As queimaduras provocadas pelas explosões nas fábricas artesanais sempre suscitaram a argúcia dos fogueteiros na busca de soluções eficazes na cura das feridas, contudo, não seria um desses acidentes a suscitar a descoberta, mas sim quando uma das netas se queimou com água a ferver.
"Como o meu pai era um engenhocas", começou a experimentar o ácido pítrico, um produto "muito potente e venenoso", sendo necessário doseá-lo bem, associando-o à aplicação de sulfamidas feitas à base de farinha triga e resina moída.
Para as crianças, seu pai adoptara uma pomada mais leve, porque a dose para adultos era "muito violenta", e os resultados foram sempre eficazes, assegura
Foi este remédio caseiro que José Emílio herdou aos 25 anos (quando nenhum dos seus oito irmãos quis pegar neste tratamento), depois de ter sido enfermeiro na tropa, além da oficina do Monte do Meio que recebera de seu pai, até que uma explosão acabou com ela há 20 anos atrás.
"Ainda tentei reerguê-la mas a idade já era muita e desisti", limitando-se agora este antigo contrabandista de volfrâmio, sucata e amêndoa lá pelos anos 30/40, a curar os que o procuram em busca de uma solução eficaz.
Recorda que muitos dos seus doentes "tinham sido mandados para casa para morrer ou chegaram a estar por duas vezes ma mesa de operações para lhe cortarem a perna, como sucedeu com uma senhora da Malveira", e que acabou por ser assistida por Emílio Fernandes nos Bombeiros de Caminha, tendo-o procurado devido à sua aparição no programa da televisão "Zip-Zip", granjeando-lhe muita fama.
Refere ainda que "cheguei a tratar sete pessoas ao mesmo tempo", sucedendo que alguns dos queimados chegaram a ficar hospedados na sua própria casa, caso de uma moça de Entre-os-Rios . "Nem cobro nada pelos curativos" que "deixam a pele fina e suave, como se nada tivessem tido". E "nunca ficou ninguém nas minhas mãos", remata.
Ainda activo - "na semana passada curei mais uma, de Sapardos, Cerveira", acrescentou -, já tem uma filha que o auxilia e promete não deixar cair no esquecimento este remédio "santo" para os queimados.