Recordando todos os que fundaram e deram o seu contributo nestes 50 Anos de vida do Etnográfico, teve lugar no passado Sábado, no Cineteatro dos Bombeiros Voluntários de Vila Praia de Âncora, uma gala que lotou a sala de espetáculos desta vila, repleta de emoções traduzidas por muitas lágrimas a escorrerem pelas faces daqueles que sentiram e sentem esta associação como sua, como foi o caso de Manuel Sousa "Sapateiro" - assim é conhecido na vila e no Etnográfico, sendo ele um dos fundadores e presidente durante cinco anos.
"A obra está aqui, bem patente, aos vossos olhos"
Figura incontornável deste Grupo constituído a 22 de Março de 1976, foi José Meira, fundador e primeiro presidente durante as duas primeiras décadas. Considerado "um amigo, conselheiro e irmão", por Manuel "Sapateiro", com o qual "tive o privilégio de trabalhar mais de 20 anos", referiu quando foi convidado a subir ao palco para dizer algumas palavras sobre este ancorense que se destacou na sua comunidade "não só na cultura, como também no desporto".
Considerou-o um "lutador, mas também um ganhador", ao serviço de diversas coletividades "desta vila", prosseguiu Manuel Sousa, "onde deixou o seu nome bem vincado em vitórias e êxitos alcançados", passando a enumerar o seus logros, no futebol, voleibol, teatro, orfeão, a par do seu pulso no Etnográfico, "passeando" este grupo por todo o país e por uma dúzia de países da Europa.
"Obrigado Zé Meira, estejas tu onde estiveres, tenho a certeza que sentirás muito orgulho do nosso Etnográfico", assim terminou a sua evocação, este elemento preponderante do Etnográfico, o grupoaniversariante que escolheu para esta noite revisitar diversas atuações cénicas levadas a este palco em anos anteriores, numa sequência presenciada com entusiasmo e avidez por uma assistência rendida a um percurso cultural de "coração cheio", como o classificou Luís Matias, presidente da Junta de Freguesia, na defesa da "nossa cultura e tradições" de Vila Praia de Âncora.
"Que orgulho, gente da minha terra"
Dentro das várias intervenções realizadas no decorrer da gala, Liliana Silva, presidente da Câmara Municipal de Caminha, assumiu logo de início que tinha um grande "orgulho" pela "gente da minha terra" que proporcionou este espetáculo, fruto de "50 Anos de história, como guardiões da nossa cultura, tradições, das nossas danças e nossos trajes", autênticos "embaixadores do concelho de Caminha".
A autarca manifestou contentamento por ser possível "fazer projetos entre gerações", ao constatar a existência de integrantes do grupo com diferentes idades, dando como exemplo a atitude do actual presidente (José Meira, que empunhou o legado do pai), um homem que "vibra" quando se fala do Etnográfico.
Correspondendo ao desafio dos atuais responsáveis do grupo folclórico, Liliana Silva garantiu que ainda este ano será prestada a homenagem que José Brito Meira merece.
Seu filho, atual presidente, falando após a intervenção da autarca, assumiu que "hoje correram lágrimas", tanto da parte dos assistentes, como dos integrantes do Grupo que encheu o palco ancorense. Lágrimas essas que também surgiram no decorrer dos ensaios do espetáculo e que "valem mais do que mil palavras".
"Somos a verdadeira resistência cultural de V. P de Âncora"
José Meira, emocionado, salientou a celebração dos 50 Anos, quando na altura da fundação, não lhes davam mais do que seis meses a um ano de vida, como o próprio Manuel "Sapateiro" costuma recordar.
Agradeceu a todos os "pioneiros" pela "coragem" de criar esta "casa" em 1976, bem como a todos os componentes com quem conviveram nestes anos "pela sua dedicação total", incluindo as próprias famílias, suporte importante em todas as associações.
"Continuidade é palpável"
Não pretendendo cingir-se ao passado do Grupo, José Meira chamou a atenção para o facto de a maioria dos elementos terem "menos de 10 anos de Casa", fazendo votos para que atinjam os 40, 50 anos ou mais, representando sempre esta associação, terminando a destacar que estes 50 Anos "não são apenas o final de um capítulo, mas sim um balanço, necessário, para os próximos 50".
A autarquia ancorense ofereceu uma placa assinalando a data, considerada uma "homenagem a todos", por parte da Junta mas também "de todos os ancorenses", realçou Luís Matias.
"38 anos de momentos de excelência"
O presidente da Assembleia Geral do Etnográfico, Gaspar Pereira, não deixou de reconhecer o orgulho em exercer este cargo "38 anos" depois de ter ingressado no Grupo, além do privilégio de poder discursar nessa noite perante "uma plateia tão rica de pessoas que gostam da nossa vila".
Gaspar Pereira não deixou passar em claro a concretização de "um dos nossos maiores sonhos", ao referir-se à entrega da antiga cantina da Escola de Vilarinho, recuperada a adaptada às necessidades do Etnográfico, no tempo em que Miguel Alves presidia à Câmara de Caminha.
Apelidou José Augusto Brito Meira de um "visionário no seu tempo", e agradeceu a todos os que colaboraram desde então, fazendo suas as palavras de Manuel Sousa, ao pedir uma justa homenagem a este ancorense.
No decorrer deste ato, foi exibido um vídeo-clip do Etnográfico, incluindo um Vira do Mar Salgado, a recente criação do Grupo, a par de terem passado imagens de atuações (Estádio das Antas, Parlamento Europeu e Oktober Fest, por exemplo) e de deslocações ao estrangeiro (14 países).
"É uma marca que deixas e impossível de ignorar"
Fernando Gomes, sucedeu a José Meira nos cinco anos seguintes, um repto considerado arriscado, mas que não desmereceu, conforme rezava um texto elaborado pela Direção, sendo-lhe prestada homenagem "pelo que deste, pelo que és, pelo que continuas a dar", com saliência para a coleção de trajes regionais que reuniu e que sempre colocou ao dispor do Etnográfico.
Antigos executantes deste Grupo ancorense, residentes em Andorra e França, marcaram presença nessa noite, tendo-lhes sido possibilitado dançarem um dos temas mais sonantes do grupo.
Maresia e aromas do campo entrecuzaram-se neste espetáculo, em que um "engenheiro" emigrado não perde a oportunidade de acompanhar tudo o que se relaciona com o Grupo que representou e presidiu durante cinco anos com "dedicação e empenho" - Amândio Alves.
Pequenos episódios e histórias das andanças do Etnográfico foram expostos neste sarau, como quando três elementos envergando t-shirts da RFM, numa das suas digressões, foram confundidos como repórteres dessa rádio, os quais passaram a ser muito solicitados por elementos de outros grupos folclóricos porque pretendiam ser entrevistados.
Gaspar Pereira contou esta história e recordou como o nome de Amândio Alves foi objeto de escolha para presidente, saído das tertúlias da loja do Dino, em Riba d'Âncora, em que tudo se discutia, incluindo o futuro do Etnográfico.
O presidente da Associação CIOOF Portugal, Boaventura Rodrigues, veio a Caminha falar da importância do Etnográfico, ao ser um dos 60 grupos portugueses escolhidos para integrar esta confederação composta por mais de 100 países de todo o mundo, e ofereceu uma bandeira desta organização internacional.