"Foi o trabalho de uma década", assumiu a historiadora ancorense Aurora Rego, na apresentação do Repositório Genealógico de todas as freguesias do concelho de Caminha, na sede da Junta de Freguesia de Vile, a autarquia pela qual o Executivo caminhense optou para iniciar um périplo mensal pelas 14 autarquias locais caminhenses.
Através destas sessões, o Município pretende ensinar a população a aceder à plataforma que se encontra alocada na Casa de Sarmento/Universidade do Minho, na qual poderá ficar a conhecer a genealogia de todas as famílias e indivíduos das freguesias do concelho de Caminha, desde sensivelmente os inícios de 1600 até 1910.
Marina Coelho, presidente da Junta de Freguesia de Vile, mostrou-se sensibilizada pela escolha de uma das freguesias mais pequenas deste concelho para o início das apresentações.
Arquivo Distrital digitalizou registos paroquiais
Valendo-se dos registos paroquiais - existentes desde inícios do século XVII e digitalizados pelo Arquivo Distrital de Viana do Castelo - com o apoio da Academia Sénior e de diversos colaboradores, foi possível à autora identificar toda a população de cada paróquia, "independentemente dos estratos sociais", atendendo a que neles foram anotados os nascimentos, casamentos e morte dos moradores - incluindo os nomes dos peregrinos falecidos nas suas viagens. São exceção as crianças falecidas até aos 6 anos, por serem consideradas "anjos", e, por tal motivo não eram objeto de registo nesses livros das paróquias e conventos, como seria o caso de S. Pedro de Varais.
Casar para fugir à tropa
Nesta base de dados, encontram-se contabilizados 17.508 casamentos (cujos índices aumentam em períodos de guerra, a forma encontrada pelos varões para fugirem à mobilização, ao serem considerados o sustento da família); 76.635 nascimentos e 48.208 óbitos, subindo estes números no final do século XIX, devido às epidemias (cólera, por exemplo) e guerras, explicou Aurora Rego.
Referiu que os homens do Vale do Âncora emigravam muito, nomeadamente para Castela, e aí morriam, e só mais tarde viriam a ser conhecidos esses óbitos e lançados nos livros. Já no século XIX, a emigração dirige-se para o Brasil.
Lamentou que se tivessem perdido alguns livros da paróquia de Vile - apelou a quem eventualmente os possua ou saiba do seu paradeiro, que os façam chegar junto da Câmara Municipal - sensivelmente a meio destes três séculos.
Da análise desde repositórios - dos poucos existentes no país, sublinhou -, a autora verificou que a maioria dos nomes próprios desta freguesia eram Maria e Pedro (S. Pedro de Varais a influenciar) e nos apelidos sobressaem os Martins, Rodrigues e Alves, por influência religiosa, e havendo muitas famílias que adotaram apelidos dos lugares onde viviam.
Muitos laços de consanguinidade
Os casamentos eram influenciados pela tentativa de manter o património na família, havendo, por isso, muitos laços de consanguinidade. Assinalou que no caso de Gontinhães, 40% das mulheres não casavam devido à emigração (os gontinhanenses eram conhecidos pelos seus dotes de canteiros, pedreiros e outras artes ligadas à construção), e quanto a Vile, vinham muitos homens de fora para contrair matrimónio.
Após explicar aos presentes como era possível aceder a essa base de dados, alguns pediram informações sobre os seus antepassados, conseguindo constatar no momento, qual a evolução dos seus familiares.
Padre Fontinha como referência da freguesia
O pároco de Vile, Manuel Joaquim, interveio na conversa gerada entre os assistentes, pedindo dados sobre o padre Rodrigo Fernandes Fontinha, natural desta freguesia, e que chegou a ser presidente da Câmara de Viana do Castelo, uma vez que há uns anos foi-lhe prestada uma homenagem, mas não foi possível averiguar onde se encontrava sepultado.