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Hoje Vilar de Mouros não foi apenas música,
foi um abraço coletivo

22/8/26 16h45

Álvaro Melo
Fotografia: M. Crespo

Monstro


22/8/26 16h45

Entrar no recinto do festival mais antigo da Península Ibérica carrega sempre uma mística especial, mas a jornada de ontem ganhou contornos de orgulho nacional logo ao início da tarde. Frente ao palco principal, a expectativa era palpável para assistir à estreia absoluta de sangue português nesta edição do certame. Cabia à dupla bracarense Monstro a hercúlea tarefa de inaugurar as hostilidades, e o resultado foi avassalador.

Eram pontualmente 17h00 quando Gonçalo Ferreira e Isaac Oliveira subiram ao palco. O projeto, nascido no seio do programa Trabalho da Casa do genration em Braga, trouxe consigo uma sonoridade densa e texturada. O que testemunhei foi uma fusão audaz: a pop nostálgica dos anos 60 cruzou-se com guitarras cruas de rock e apontamentos livres de jazz. Uma envolvência invulgar para o arranque de um dia de festival.

A cumplicidade magnética entre os dois músicos saltou imediatamente à vista. À medida que os acordes ecoavam pelo recinto, o público, que ainda se acomodava e procurava as primeiras sombras, foi rapidamente atraído para a frente do palco. Em entrevista após o concerto, os músicos confessaram o enorme privilégio e a honra de partilhar o cartaz com lendas como Ben Harper. No entanto, em palco, não demonstraram qualquer ponta de intimidação.

Os relatos na imprensa especializada e as reações imediatas nas redes sociais confirmam o triunfo da dupla. Vídeos partilhados nas plataformas digitais mostram uma plateia rendida aos ritmos hipnóticos e à energia crua que o duo conseguiu emanar, quebrando o gelo da tarde com uma facilidade impressionante. Os Monstro provaram que fazem jus ao nome, agigantando-se perante o anfiteatro natural de Caminha e deixando uma marca indelével na história recente do festival.

Sydney Ross Mitchell

Se o festival mais antigo da Península Ibérica é conhecido pelas suas descargas de rock enérgico, o final de tarde de ontem provou que também há espaço para a delicadeza e para a introspeção. Após o arranque musculado da dupla nacional MONSTRO, o palco do CA Vilar de Mouros abriu-se para receber a frescura transatlântica de Sydney Ross Mitchell. O que se seguiu foi uma hora de música marcada por uma envolvência rara em ambientes de grandes festivais.

A cantora e compositora natural do Texas subiu ao palco acompanhada pela sua guitarra acústica e por uma presença cénica desarmante. Logo aos primeiros acordes, ficou claro que a sua proposta musical que cruza as raízes profundas da folk e do country moderno com as texturas etéreas do indie pop assentava que nem uma luva no anfiteatro natural de Caminha.

Nas redes sociais, multiplicaram-se as partilhas de vídeos focados na expressividade cinematográfica da artista, com muitos festivaleiros a confessarem-se surpreendidos pela sua maturidade vocal e carisma natural. Sydney soube comunicar diretamente com as pessoas, partilhando histórias entre músicas e quebrando a barreira da distância geográfica com um sorriso genuíno.

Sydney Ross Mitchell não precisou de distorção pesada para se fazer ouvir; bastou-lhe a sua verdade, a sua voz e a sua guitarra para deixar uma marca inesquecível nesta edição.

Triggerfinger

Há bandas que tocam em festivais e há bandas que se tornam parte do ADN deles. Os belgas Triggerfinger pertencem, sem margem para dúvidas, à segunda categoria. Promovidos pelo próprio promotor Paulo Ventura ao estatuto de "artistas fetiche" do CA Vilar de Mouros, o trio regressou ao palco minhoto ontem ao início da noite e assinou uma exibição que bateu forte no peito de quem estava na plateia.

Quando as luzes se focaram no palco às 19h45, a postura impecável da banda saltou logo à vista. Ruben Block, com a sua habitual elegância e carisma felino, empunhou a guitarra e deu o mote para o que seria uma hora de blues-rock musculado, suado e altamente magnético. Acompanhado pela precisão demolidora do baixista Paul Van Bruystegem e pela batida possante do baterista Mario Goossens, o quarteto (que atua em trio básico) provou que o rock clássico não precisa de artifícios quando há talento bruto em palco.

O eco digital não tardou a fazer-se ouvir. Pouco depois de terminada a atuação, as redes sociais inundaram-se de vídeos focados nos solos vertiginosos de Ruben Block e na cadência rítmica avassaladora de Goossens. Na imprensa de referência, os elogios foram unânimes, classificando o concerto como um "espetáculo poderoso" que elevou a fasquia da noite para patamares difíceis de igualar.

Os Triggerfinger jogaram em casa e souberam-no desde o primeiro segundo. A comunhão entre o palco e o anfiteatro natural de Caminha foi de tal ordem que a organização já manifestou publicamente o desejo de os ter de volta em 2027. Saí do recinto com a certeza de que, enquanto houver Triggerfinger, a chama do rock mais visceral e autêntico continuará bem viva em solo nacional.

WAR

Há concertos que divertem e há concertos que dão autênticas lições de história da música. Na noite de ontem, o palco do CA Vilar de Mouros recebeu os veteranos norte-americanos WAR. O que se assistiu no anfiteatro natural de Caminha foi uma das exibições mais ricas, dançantes e aclamadas desta edição, provando que o groove intemporal não tem idade nem fronteiras.

Minutos antes de subirem ao palco, a expetativa já era alimentada pelas palavras do carismático vocalista e teclista Lonnie Jordan à imprensa, lembrando com orgulho que a banda pertence à lendária "era de Jim Morrison e Jimi Hendrix". Quando os sete músicos assumiram as suas posições, essa mística traduziu-se instantaneamente numa muralha sonora avassaladora.

O alinhamento foi uma sucessão de hinos transgeracionais, onde não faltou o obrigatório "Spell the Wine" tema clássico que recorda a mítica colaboração com Eric Burdon e o contagiante "Low Rider". Cada canção transformou-se numa celebração coletiva, com os metais afiados e as percussões latinas a ditar o ritmo de milhares de corpos em movimento.

A imprensa especializada e as redes sociais foram unânimes na manhã seguinte: o concerto dos WAR foi classificado como uma verdadeira ode aos baixistas e à secção rítmica, com linhas de baixo viscerais que agarraram o público do primeiro ao último segundo. Nas plataformas digitais, os festivaleiros multiplicaram partilhas de vídeos que captavam a energia contagiante da banda, com muitos a destacar a vitalidade inesgotável de Lonnie Jordan aos comandos do espetáculo.

Os WAR não se limitaram a desfilar nostalgia pois entregaram um espetáculo com uma frescura e uma precisão técnica que deixaram muitos projetos mais jovens na sombra. Saí do recinto com a plena convicção de que Vilar de Mouros testemunhou um momento histórico, daqueles que honram o estatuto de festival mais antigo da Península Ibérica.

Ben Harper & The Innocent Criminals

Há datas no jornalismo musical que exigem um peso histórico acrescido, e a noite de ontem foi uma delas. Exatamente um quarto de século após ter pisado o palco do festival mais antigo da Península Ibérica pela primeira vez, em 2001, Ben Harper regressou ao anfiteatro natural de Caminha acompanhado pelos seus fiéis The Innocent Criminals. A fasquia estava elevada para o concerto mais aguardado do dia, num reencontro transgeracional que oscilou entre a mestria técnica e a calmaria extrema.

Eram 22h45 quando o músico californiano assumiu o centro das atenções. Sentado, com a sua icónica guitarra repousada ao colo, Ben Harper deu início a uma viagem pelas raízes do blues, da folk e do rock tingido de reggae. Do meu lugar na plateia, o grande destaque foi para a incrível coesão musical: o concerto transformou-se rapidamente numa autêntica ode à secção rítmica. As linhas de baixo densas e pulsantes conduziram as canções, servindo de tapete perfeito para a voz rouca e carregada de alma de Harper.

A carga emotiva de ver o artista celebrar estes 25 anos de ligação à mística de Vilar de Mouros foi palpável nos temas mais antigos e confessionais. Para os fãs de longa data, assistir à dedicação quase religiosa com que ele extraía sons viscerais da sua guitarra foi uma experiência sublime e de rara beleza estética num festival de verão.

As principais queixas prenderam-se com a curta duração da performance que se fixou em cerca de uma hora e com as escolhas artísticas que desaceleraram o ritmo da noite, deixando parte do público numa postura mais apática. Para um dia que começou com a energia dos MONSTRO e dos Triggerfinger, a placidez de Ben Harper funcionou para uns como um bálsamo reconfortante e para outros como um balde de água fria no ritmo da festa. Mesmo assim viu-se que o público saboreou muito bem cada momento.

Kaleo

Os Kaleo foram um verdadeiro tónico de adrenalina que o festival precisava, fechando a noite de sexta-feira em apoteose, pós a calmaria intimista de Ben Harper.

Se a noite de ontem corria o risco de ficar marcada pela toada excessivamente contemplativa e pelo ritmo desacelerado do concerto de Ben Harper, os islandeses KALEO encarregaram-se de rasgar o guião. Já passava da meia-noite quando o quarteto liderado pelo carismático vocalista e guitarrista Jökull Júlíusson subiu ao palco principal do CA de Vilar de Mouros. O que se seguiu foi uma demonstração imperial de como agarrar um festival pela raiz, mesclando a crueza do blues norte-americano com a grandiosidade sónica das paisagens nórdicas.

Desde os primeiros acordes, ficou claro que a banda não vinha para meias medidas. A presença cénica de JJ Julius Son preencheu de imediato o anfiteatro natural de Caminha. Munido de uma voz rouca, profunda e surpreendentemente elástica, o vocalista parecia evocar fantasmas do rock clássico a cada nota. Do meu lugar na plateia, a transição de atmosferas foi impressionante: o público, que minutos antes parecia adormecido pela placidez da folk, despertou num sobressalto rítmico puxado por guitarras carregadas de fuzz e linhas de baixo demolidoras.

O alinhamento foi desenhado com inteligência, alternando momentos de pura descarga elétrica com baladas folk-rock de contorno épico. Temas viscerais assentaram na perfeição na poeira da noite minhota, mas o ponto de viragem absoluto deu-se quando ecoaram as primeiras notas do hino "Way Down We Go". Nesse instante, o recinto transformou-se num coro gigante e uníssono, com milhares de telemóveis a iluminar o céu e a validar o estatuto de cabeças de cartaz informais da noite.

O impacto do quarteto de Reiquiavique foi instantâneo e avassalador no ecossistema digital. Nas redes sociais do festival, as caixas de comentários inundaram-se de elogios ainda a banda estava em palco. Muitos festivaleiros não hesitaram em classificar a exibição dos KALEO como "o concerto da noite" ou o momento mais equilibrado e poderoso de toda a jornada, destacando a impressionante qualidade técnica do guitarrista Rubin Pollock, mostrando mais um dia do festival a finalizar de uma forma espetacular.


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