A edição de 2026 do Festival CA Vilar de Mouros fechou as portas com a organização a apontar um "índice de felicidade" elevado. Contudo, longe do triunfalismo corporativo que costuma contaminar os balanços dos festivais de verão, o evento mais antigo da Península Ibérica enfrenta uma encruzilhada existencialista. O equilíbrio entre a preservação da sua mística histórica e as exigências do mercado atual nunca foi tão frágil.
No plano artístico e conceptual, o festival continua a dar lições de integridade. Num panorama nacional onde os grandes eventos preferem a homogeneidade das tabelas de streaming, Vilar de Mouros segura a bandeira das guitarras, do rock e da música transgeracional. A curadoria deste ano que juntou a irreverência de Yungblud, o rock musculado dos Kasabian, a maturidade de Ben Harper e a agressividade intemporal dos históricos Body Count de Ice-T provou que há um público fiel que rejeita modas efémeras.
O maior trunfo do festival reside, porém, no seu impacto orgânico. O evento recusa a lógica predatória de "nave espacial" que aterra numa localidade para sugar recursos e partir. Ao envolver ativamente os habitantes de Caminha na produção, cria-se um sentimento de pertença raro. É esta simbiose que protege o recinto e garante a hospitalidade única das gentes do Minho.
Apesar do sucesso mediático, a edição de 2026 não esteve isenta de problemas. O primeiro sinal de alerta prende-se com a estratégia de expansão para cinco dias de concertos. Embora a ausência de incidentes graves seja de louvar, este estiramento do calendário gera um paradoxo evidente. Dias com o recinto lotado intercalados com jornadas em que o espaço pareceu manifestamente despovoado. Este "efeito sanfona" prejudica a atmosfera do festival e coloca desafios severos ao comércio local e aos campistas de longa duração.
Além disso, o festival permitiu-se ser engolido pelo ruído político. A atuação da banda punk britânica Lambrini Girls, que projetou uma mensagem de repúdio ao partido Chega, resvalou para um aproveitamento político que dividiu opiniões. A reação da organização, que tentou sacudir a água do capote alegando "foco exclusivo na música", revelou alguma falta de pulso na gestão da sua própria narrativa cénica. O rock sempre foi político, mas Vilar de Mouros deve ser um espaço de união transgeneracional e respeito, não uma arena de guerrilha partidária fácil.
Para 2027, o diretor Paulo Ventura tomou a decisão mais inteligente reajustar o calendário para não colidir com o Vodafone Paredes de Coura. Esta cedência estratégica reconhece que a canibalização de públicos no Alto Minho não beneficia ninguém.
O grande teste para o futuro será travar a descaracterização comercial. Se Vilar de Mouros ceder à tentação de se transformar num parque de diversões corporativo para marcas urbanas, perderá a alma de 1971. O festival é viável enquanto for um reduto de autenticidade, as suas dores de crescimento atuais devem servir de aviso para que a ambição económica não atropele a identidade.
Para finalizar devo salientar que poderia existir um enxergar mais ativo nas bandas que ainda se apresentam ao vivo, como os "La Frontera", "Amistades Peligrosas", " Duncan Dhu", etc…no intuito de recebermos em massa uma grande parte dos nossos vizinhos da Galiza.
Vilar de Mouros, SEMPRE!