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Ativismo, Nostalgia e Catarse: O Furacão que Incendiou a Noite de Abertura do CA Vilar de Mouros
19/8/26 18h30

Álvaro Melo
Fotografia: M. Crespo

O arranque do CA Vilar de Mouros ficou marcado por um forte contraste geracional e sonoro no palco principal. As atuações da noite inaugural ditaram o ritmo de uma maratona onde o ativismo político, a eletrónica de culto e a pop-punk comercial partilharam o mesmo relvado minhoto. Do intimismo melódico da tarde à eletricidade visceral da madrugada, o decano dos festivais portugueses provou que a sua identidade continua camaleónica.

O Aquecimento: As Novas Promessas do Rock Britânico A responsabilidade de abrir as hostilidades coube ao jovem Tom A. Smith. Com o seu indie-rock melódico e composições bem estruturadas, o músico de Sunderland serviu de banda sonora perfeita para o arranque do festival. Apesar de o recinto ainda estar a compor-se, a sua presença segura conquistou os primeiros festivaleiros a pisar o relvado.

Sem dar tréguas, os The Molotovs subiram ao palco logo de seguida. Totalmente descomprometidos e carregados de uma atitude efervescente, injetaram uma dose massiva de adrenalina ao final da tarde. O trio destilou uma energia elétrica brutal, movendo-se com urgência e reavivando a herança clássica das guitarras britânicas na rampa de lançamento ideal para o que aí vinha.

Lambrini Girls: Ruído, Suor e Manifesto Político As inglesas Lambrini Girls assinaram a atuação mais visceral e politizada do primeiro dia. Liderada pela dupla Phoebe Lunny e Selin Macieira, a banda de Brighton transformou o palco numa plataforma de protesto social absoluto.

Demonstrando uma destreza impressionante, a vocalista Phoebe Lunny passou grande parte do concerto colada às grades, tocando guitarra diretamente no meio da multidão e debitando uma sonoridade seca e crua. O concerto assentou num noise punk ruidoso, sem filtros, com riffs de guitarra distorcidos e uma secção rítmica agressiva. A banda surpreendeu o recinto ao exibir no ecrã gigante e em cartazes uma mensagem explícita de forte oposição ao partido político Chega.

A plateia reagiu com eletricidade imediata. As primeiras filas cederam ao primeiro grande moshpit do festival, criando uma moldura de corpos em movimento. O manifesto político dividiu opiniões no recinto, mas foi amplamente aclamado pela franja mais jovem e ativista, gerando um eco imediato de discussões nas redes sociais.

Cabaret Voltaire: A Hipnose Industrial na Despedida de Portugal A transição para os lendários Cabaret Voltaire trouxe um ambiente de culto ao festival. Ao celebrarem 50 anos de carreira numa passagem apontada pela organização como a provável despedida da banda dos palcos portugueses, os pioneiros da música industrial entregaram um espetáculo cerebral e único. Longe do contacto físico da banda anterior, os músicos mantiveram-se atrás das suas máquinas, focados em sintetizadores e sequenciadores. Despejaram uma energia hipnótica apoiada por visuais abstratos e geométricos nos ecrãs, criando uma atmosfera fria, misteriosa e puramente vanguardista. Foi fiel ao estilo habitual com que Richard H. Kirk e os seus pares sempre habituaram o público. Temas icónicos como "Yashar" e "Nag Nag Nag" foram desconstruídos através de batidas eletrónicas pesadas e texturas pós-punk. O público mais veterano do festival absorveu a atuação de uma forma inteiramente distinta. Mergulhou numa audição atenta, marcada por movimentos de cabeça ritmados e aplausos efusivos ao fim de cada malha eletrónica.

Os President: Num ritual do Anonimato subverteram as leis neste festival fabuloso.

Estrearam-se ontem em solo português, marcando a noite inaugural do decano festival com um manifesto de fúria, peso e absoluto secretismo. Posicionado estrategicamente num alinhamento desenhado para desafiar convenções, o grupo subiu ao palco sob forte reserva visual, provando que o impacto conceptual e a brutalidade técnica ainda têm um lugar sagrado nas margens do rio Coura.

Se em palco reinava o mistério, na plateia o cenário foi de pura catarse, cativando instantaneamente os adeptos de sonoridades extremas presentes no arranque do festival.

Quando as luzes se apagaram e o coletivo abandonou o palco com a mesma discrição com que entrou, ficou no ar a certeza de que Vilar de Mouros testemunhou mais do que um concerto de metalcore. Assistiu-se a uma verdadeira masterclass de como o mistério, quando aliado à competência técnica, continua a ser a arma mais poderosa da música ao vivo.

YUNGBLUD: O Tornado Catártico da Nova Geração O britânico YUNGBLUD encerrou o trio de destaques com o estatuto de cabeça de cartaz incontestável, arrastando uma multidão jovem que preenchia o recinto desde a abertura de portas.

Exibindo uma hiperatividade constante, o músico correu, saltou e percorreu o palco de uma ponta à outra com uma intensidade inabalável do primeiro ao último minuto. O vernáculo e a assinatura "fucking" distinguiram-se em variados momentos de interação. O concerto contou ainda com uma forte componente teatral, incluindo a inesperada aparição de enfermeiras em palco - num cenário tão caótico que só faltou mesmo entrar uma ambulância. O espetáculo foi sonoramente polido, misturando a urgência do pop-punk contemporâneo com guitarras de rock alternativo e métricas de hip-hop. Entre canções, o artista quebrou a barreira do palco para falar sobre saúde mental, aceitação mútua e a criação de um espaço seguro para os seus fãs.

A resposta da plateia foi a mais ruidosa da noite. Milhares de vozes uniram-se em coros massivos que abafaram, por várias vezes, o sistema de som do palco principal. Bandeiras personalizadas, cartazes e lágrimas nas primeiras filas coroaram uma comunhão absoluta entre o artista e a sua base de fãs.

Cinco bandas, duas gerações e um relvado rendido à eletricidade britânica. A primeira noite do CA Vilar de Mouros cruzou a urgência das novas promessas do rock com o manifesto político das Lambrini Girls, fechando com a imponência industrial dos Cabaret Voltaire e o tornado pop-punk de YUNGBLUD. O decano dos festivais está de volta em grande.



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