Decorreu esta manhã no Auditório do Museu Municipal de Caminha, um seminário sobre a evolução da Camarinha na Mata do Camarido e na Galiza, organizado pela Corema.
As diversas ações promovidas por esta associação ambientalista desde 1988, data da sua fundação, em defesa do pinhal e da Camarinha, contando nos últimos anos com a colaboração da Junta de Freguesia de Moledo/Cristelo, Câmara Municipal, com o apoio da empresa de propagação de plantas de Vile, "Raiz da Terra", e a participação de escolas do concelho e dos Escuteiros de Seixas, foram enumeradas pelo presidente da Corema.
José Gualdino, presidente da associação ambientalista desde a sua fundação, abriu os trabalhos com uma dissertação que remontou aos primórdios da luta em defesa da Mata Nacional do Camarido, quando surgiu em 1981 a "primeira grande movimentação cidadã em defesa do património" (integrando o arquiteto Sérgio Férnandez, falecido esta semana, figura ligada a alguns dos projetos nesta freguesia, registe-se também), em que um pseudo consórcio árabe, pretendeu construir um aldeamento turístico com 250 moradias, um hotel e uma marina à entrada desta Mata, contando na altura com o apoio da Câmara Municipal e da Comissão Regional de Turismo, mas com a oposição de duas comissões de luta pela defesa do Camarido, posição assumida igualmente pelas Florestas e pelo Ministério da Agricultura.
A par da defesa "quase inédita", nesses tempos, dos valores naturais e da ecologia, o "sonho árabe", como o classificou agora José Gualdino, acabou por esmorecer, quando o líder do grupo investidor (Nader Bayzid) desapareceu, "deixando atrás de si um rasto de vigarices", depois de "dezenas de promitentes compradores lhe terem entregado 110 mil contos, referentes a um aldeamento semelhante na Torreira, Aveiro, gerando-se durante os anos seguintes um enorme imbróglio jurídico-administrativo, recorde-se.
"Queremos que ela possa ser usufruída pelas gerações vindouras"
A Corema ficou indelevelmente ligada à Camarinha desde a sua fundação "ao adotar o nome científico" desta planta, sendo portanto natural que a sua preservação se mantenha como uma prioridade, devido à existência "periclitante" desta espécie botânica, conhecida nesta região pelos seus saborosos frutos brancos.
Estão a ser desenvolvidos contatos entre entidades e investigadores portugueses e galegos, prosseguiu José Gualdino, no intuito de "aprofundarmos a colaboração" na defesa da Camarinha, e construção de uma "estratégia conjunta do Norte de Portugal e da Galiza.
Centro de Educação Ambiental do Camarido
Outro dos projetos em curso, prende-se com a "conversão" de uma das casas florestais (a que possui um torreão) do Camarido, num Centro de Educação Ambiental, em que a Camarinha sobressaia, destacou este veterano ecologista.
Para tal, decorrem há três anos contatos com o ICNF (Instituto de Conservação da Natureza e Florestas) e Câmara de Caminha, em que a Corema "se compromete a realizar a recuperação" do imóvel, tendo já "remetido um projeto de reabilitação e utilização das suas instalações", acompanhado de um orçamento.
Através desse Centro, a Corema pretende continuar a desenvolver atividades com as escolas e apoiar investigadores "interessados em realizar estudos relacionados com a conservação" da natureza, a par do interesse na "promoção do intercâmbio com a Galiza".
Mata para conter areias e de exploração florestal
Os trabalhos iniciaram-se com uma intervenção da professora Ana Isabel Lopes, abordando a origem (eventuais promotores) da plantação da Mata do Camarido, mas recaindo na proteção dos campos de cultivo de Cristelo, das areias do mar, e na necessidade de exploração de recursos (madeira), como a causa mais provável para o aparecimento da mata que "já existia entre 1560 e 1570", frisou.
Sobreiros e pinheiros estiveram na base da plantação, referindo que foram enviados "muitos troncos" para o Porto para queima de lenha, por alturas das lutas liberais de início do século XIX.
Assinalou a existência de uma fábrica de cal neste pinhal, e no propósito de construção de uma segunda unidade, mas que foi indeferida por se temer que viesse a contribuir para o corte de mais árvores, acabando por ser mandada encerrar a que já existia.
Da parte de tarde, os inscritos visitaram o cordão dunar e a Mata do Camarido.