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Decadência no Terreiro ou declínio da cidadania?

Luís Matos
12/7/26 10h45

Nos anos setenta do século passado, eu não gostava de quartas-feiras.

Nessas quartas-feiras não podia percorrer os dez metros que separavam a porta de casa da drogaria do Senhor Francisco, porque era dia de Feira Municipal no Terreiro e eu estava proibido de ir para a estrada.

E, nos anos setenta, quando um adulto dizia a uma criança que não podia fazer alguma coisa, a criança não fazia.

Passados uns anos, decidiu-se retirar do Terreiro a circulação e o estacionamento automóvel, e nasceu a configuração que hoje conhecemos: pequenos jardins com relva, bancos, canteiros e regras claras que limitavam o acesso de carros ao mínimo indispensável. Apesar das críticas iniciais, a nova configuração cumpriu o seu propósito: o Terreiro tornou-se a sala de visitas da Vila de Caminha.

Hoje, porém, essa sala de visitas está tomada. Primeiro pelas cadeiras e mesas das esplanadas, que ocupam quase todo o espaço público e reduzem a circulação a um corredor apertado, ao qual, pontualmente, se juntam uns vendedores ambulantes. Como consequência adicional, juntam-se os aromas de fim de dia dos contentores de resíduos cheios, que se intensificam com o calor de verão. Compreendo a necessidade de gerar atividade económica, mas seria bom encontrar algum equilíbrio. Depois pela própria degradação do pavimento, com pedras levantadas ou afundadas que se transformam em armadilhas, sobretudo para os mais idosos, para quem uma queda pode significar muito mais do que um susto.

Mas, é no capítulo automóvel que o Terreiro atinge o expoente máximo do seu degredo e se torna reflexo da decadência a que o deixaram chegar. O Terreiro tornou-se um parque de estacionamento e sucata a céu aberto. Há o carro vermelho abandonado há meses, que ninguém reclama e ninguém remove. Há quem encoste o carro aos canteiros da pizaria como se fossem lugar de estacionamento reservado. Há quem, se pudesse, estacionaria dentro da farmácia ou do café, e há, já agora, quem carregue o carro elétrico em plena corredoura, ligado a uma extensão que atravessa o passeio, como se o espaço público fosse a garagem de casa.

A estas pessoas devo dizer que desconhecem o conceito de ser cidadão. Um cidadão reconhece que o espaço público é de todos e não do primeiro que lá encosta o carro. Quem trata o Terreiro como parque privado de estacionamento não está a "resolver a vida", está a cuspir no rosto de quem lá vive, de quem lá passeia, de quem lá tenta, ainda, sentar-se num banco sem ter um carro a dois palmos do nariz ou tomar um café sem os gases de escape a envolver a bebida. É uma pequena tirania quotidiana, exercida por gente sem noção alguma de convivência, e merece ser tratada com desprezo público e sem complacência.

Alguns dirão que a culpa é das autoridades, que deveriam multar sem dó nem piedade, e de facto de vez em quando lá aparece uma multa. Mas discordo de pôr toda a responsabilidade nesse lado: a raiz do problema é uma nova forma de estar de quem não respeita os outros nem as regras mínimas de convivência em sociedade. Não cabe à polícia ensinar civismo a adultos que já deviam sabê-lo.

Dito isto, quem tem mesmo o dever de agir e falha clamorosamente, há vários anos, é a autarquia. Desconheço se há competência para resolver, se é falta de vontade ou falta de conhecimento científico de quem devia ter estudado o problema antes de gerir a vila. O prémio Nobel da Economia de 2017, Richard Thaler, mostrou com a teoria do "nudge" que pequenos ajustes na arquitetura da escolha, como um pilar bem colocado, uma faixa pintada, um obstáculo discreto, mudam comportamentos sem uma única multa, sem confronto, sem precisar de agentes a cada esquina. É ciência aplicada, testada em dezenas de cidades europeias, e custa uma fração do que custa manter o Terreiro como está. Mas isso exige que alguém, no poder local, saiba o que anda a fazer e leia mais do que posts na rede social. Enquanto o Terreiro continuar entregue à sorte, resta-nos concluir que não é falta de solução que nos falta: é falta de quem a queira aplicar.


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