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Rua da Corredoura
- memórias de uma rua que já não existe-
4/4/26 16h30

Há ruas que, apesar de continuarem nos mapas, deixaram de existir com a sua identidade e espírito de comunidade. A minha foi uma dessas.

Oficialmente, ela continua no lugar, mas para aqueles que lá nasceram e cresceram já não existe. Foi aniquilada pelo evoluir dos tempos, pelo inevitável progresso, por uma inexorável sociedade em constante transformação, a qual tudo muda, tudo transforma.

Para quem lá cresceu, ela continua tão viva como aquelas tardes de verão em que o tempo parecia não ter fim.

Nessa rua, as portas ficavam entreabertas e os moradores conheciam e sabiam o nome de toda a criançada. Havia sempre alguém a espreitar da janela, não por desconfiança, mas por genuína curiosidade e cuidado.

O bater na porta da Carmem leiteira, vinda de Venade para vender o leite fresquinho, em recipientes de latão, o pregão das peixeiras que passavam pela manhã, com aquele peixe recém-chegado do mar, o cheiro das refeições confecionadas que navegavam para o exterior marcavam o início do dia, melhor do que qualquer outro despertador.

A criançada da rua conhecia todas as suas pedras, desde o terreiro até ao largo. Jogavam à bola no meio da rua, nos passeios de granito desenhavam a macaca com um pedaço de giz, muitas vezes proveniente da escola primária, inventavam novos mundos entre um jogo e outro.

O "largo" Sidónio Pais era o local de encontro para as brincadeiras coletivas. Naquele piso de terra jogava-se futebol, em que o dono da bola é que escolhia os jogadores para a sua equipa, à bilharda, à mosca, ao prego, ao garrafão, às caricas, aos berlindes, ao pião… eram brincadeiras que davam azo à imaginação e à capacidade de se adaptarem às realidades da época, criando a capacidade de inventar e reinventar tudo aquilo que lhes pudessem dar alegria, prazer, aventura, partilha, competição.

Não havia pressa em voltar para casa: o sinal de recolha era o acender dos candeeiros, quando a luz amarela caía sobre os nossos rostos cansados e felizes. À noite, o silêncio era apenas interrompido por uma conversa passageira à porta da casa ou por algum carro que passava na rua.

Os seus residentes diziam, com orgulho e alguma vaidade, que naquela rua existia tudo o que necessitavam: a loja de guloseimas do José da Adelina, as mercearias do Adelino e do Domingos Cerejeira, as casas de pasto/tabernas do José da Fana e da D. Toninha, a barbearia do José Afonso, a padaria da D. Ermelinda e do José Padeiro, o armazém do Pereira Bacalhoeiro, a sapataria do Alípio Gomes, a serralharia do Álvaro Meneses, a loja de ferragens da D. Cilinha, a funerária da D. Maria Engrácia, o talho da D. Reis, os consertos de sapatos da D. Marcelina, os tecidos da D. Mariquinhas Cepa, a alfaiataria do Pimenta, a farmácia Amorim, a Electro-Coura, a ourivesaria Leão, a bijuteria da D. Flora, a carpintaria do José Avelino e da D. Piedade, o moleiro de Lanhelas, a residencial Galo d`Ouro e a drogaria sr. Francisco. Que mais podiam necessitar?

A rua também tinha o seu santo popular. Os moradores juntavam-se para organizar a festa do S. Pedro, aproveitando para fortalecer os seus laços de amizade e boa vizinhança, tratando a mesma como se fosse um grande evento.

Penduravam-se bandeirinhas coloridas de papel em forma triangular, coladas com um líquido feito de água e farinha, colocavam-se balões de papel nos locais mais estratégicos, improvisava-se um bailarico ao som de músicas gravadas que hoje muitos já não reconhecem, acompanhado pelo cheiro das sardinhas na brasa, presença obrigatória na festa.

Um dia constatou-se que a rua ia mudar. O poder local, na sua feira de vaidades e numa onda de modernismo urbano, decidiu alterar a sua função. Vieram as obras, o barulho das máquinas, os tapumes. O largo, o recinto desportivo da miudagem, foi "embelezado" com granito, basalto e calcário. Mais tarde, a estocada final: a rua foi fechada ao trânsito. Aquela rua que servia de entrada e saída obrigatória para todos os provenientes das freguesias situadas a nascente, tornou-se pedonal. Consequência dessa alteração, a rua perdeu toda a sua vida e importância: as pessoas deixaram de passar por lá, os comércios foram gradual e lentamente fechando e a rua ficou num lamentável estado de letargia comercial e habitacional.

Quem por ali hoje passa não imagina que debaixo do seu atual empedrado ainda dormem as marcas de uma rua antiga. Não sabe que ali se ouviram as primeiras gargalhadas de muitas crianças, que ali se deram abraços de despedida e que ali se choraram perdas de alguém que marcou a época. Para quem não a viveu, é apenas mais um troço urbano, igual a tantos outros. Para outros, é o cenário de uma parte da vida que não se repete.

Escrever sobre essa rua é, de certa forma, resgatá-la. É lembrar que as pequenas vilas não são feitas apenas de edifícios e arruamentos, mas também de laços, rotinas e pequenos gestos diários que constroem e consolidam uma comunidade. Sobrevive em cada memória partilhada, em cada história contada, em cada suspiro saudoso quando por lá se passa e diz: "Ali, morava o sr. X" ou "Aqui era a loja da D. Y"

Enquanto houver alguém que recorde o cheiro do pão quente de manhã, o som das crianças a brincar e as conversas à porta ao fim da tarde, essa rua continuará a existir, não na geografia da povoação, mas sim no mapa íntimo de quem a viveu. Um mapa que, felizmente, ninguém pode fazer desaparecer.

J. A. Veiga Afonso
Nado e crescido no nº 158


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