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Muros e vedações tradicionais

Brito Ribeiro
15/10/26 20h45

A região do Alto Minho é fertil métodos de construção de muros e vedações, algumas de forma muito criativa, com utilização de pedra, madeira ou cimento, por exemplo. O denominador comum era a facilidade na obtenção dos materiais, excepto em casas e propriedades "ricas" onde a ostentação seria predominante.

Comecemos pela pedra: encontramos no concelho de Caminha diversos muros executados com paralelipipedos de granito que, de forma alternada constroem o muro.


Vilarelho

À medida que se aperfeiçoaram as técnicas de corte do granito e o seu uso generalizado para a pavimentação de ruas e caminhos, surge o aproveitamento deste material para a construção de muros, arejados, que permitem a entrada e circulação do ar e da luz, que delimitam terrenos sem "esconder" totalmente a área delimitada.


Monte Calvário – Vila Praia de Âncora

Esta construção não permite obra de grande altura, mas ao nivel do varandim é perfeitamente executavel e estavel. É conhecido por "muro rendilhado" "muro vazado" ou "muro favo de mel". Tem na sua origem algumas vantagens: era facil de construir, era barato pois a matéria prima abundava, poupava-se bastante material comparando com muros em bloco de granito aparelhado. Era ainda pouco sensivel a ventos, frequentes nas zonas litorais e tinha uma apresentação muito elegante. Os paineis de pedra vazada eram alternados com floreiras maciças que, alem de embelezar a obra, davam mais robustez ao muro.


Miradouro da Meia Légua - Moledo

No concelho de Caminha esta tecnica surge no final dos anos vinte ou início dos anos trinta do século vinte, com a construção de vários varandins no Monte Calvário em Vila Praia de Âncora. Terá sido António Simão Martins Pinheiro (1870-1962), construtor civil, que ganhou o concurso para a construção da Gruta da Senhora de Lurdes, naquele local, o primeiro a construir este tipo de varandim. Simão Pinheiro era um homem com iniciativa e espírito inovador, sendo provavel que tenha visto em algum lugar por onde passou esta tecnica construtiva, passando a replicá-la em Vila Praia de Âncora e arredores. O "muro vazado" foi depois utilizado por outros construtores e outras circunstâncias, incluindo em vedações de escolas públicas construídas nos anos quarenta e cinquenta, com foi o caso das escolas do Rego e Vilarinho. Foi lamentável terem sido destruídas estas vedações, sendo substituídas por vulgares delimitações metálicas.


Ínsua Clube - Moledo

A vedação exterior do Ínsua Clube em Moledo é hoje um bom exemplar desta técnica, não só pela extensão do muro, como pelo excelente estado de preservação.

Muros de lousa, de pedra posta ao alto, de pasta ou de patela. Estes eram alguns dos nomes populares que se davam a uma vedação rural em que as lâminas de granito eram colocadas lado a lado, na vertical, bem enterradas para aumentar a estabilidade, de forma a resistir aos fortes temporais do Alto Minho e das zonas altas. Porém, em alguns locais o granito era substituido por lâminas de xisto ou lousa (ardósia negra), conforme a predominancia do material naquela região.


Freguesia de Lara - Monção

Esta tecnica terá a sua origem no sul da Galiza e norte de Portugal, havendo ainda hoje alguns exemplares nos concelhos de Poriño, Salvaterra del Miño, Melgaço, Monção e Valença.


Mougás - Galiza

A vantagem desta técnica, que poderá remontar ao século XVIII, consiste na facilidade de construção, na economia de material e de não necessitar de aglutinante, em relação ao método tradicional de construção dos muros de pedra aparelhada e/ou empilhada.

Vedações em ramo de sobreiro

Era uma tecnica de decoração artística de vedações, alegadamente introduzida em Vila Praia de Âncora pela mão de António Simão Martins Pinheiro, já referido neste artigo. Sobre uma estrutura tubular de arame, aplicava-se cimento e dava-se um acabamento a imitar os veios e as formas de ramos de sobreiro. Podia ser envernizada, pintada ou deixada sem qualquer revestimento.


Vila Praia de Âncora

Esta tecnica foi também aplicada na delimitação de sepulturas restando apenas um exemplar no cemitério de Vila Praia de Âncora. Além de Simão Pinheiro, há referencias a Manuel Marinho, outro construtor ancorense, que também teria utilizado esta técnica.


Cemitério de Vila Praia de Âncora

Estas e outras formas de construção/decoração de muros e vedações, carecem de um estudo mais aturado e de algum modo de proteção de forma a preservar este legado e não desapareçam a coberto do desconhecimento.


Freguesia de Arga de Cima

As autarquias, designadamente a Câmara Municipal de Caminha e as Juntas de Freguesia de Vila Praia de Âncora e Moledo, bem como as associações locais de defesa do património, tem aqui, em minha opinião, um bom tema para refletir (e deliberar).



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