Os Amigos das Bibliotecas de Caminha realizaram na tarde de ontem a sua 35ª sessão da iniciativa "Um livro, uma conversa e às vezes um filme" que vêm promovendo regularmente na Biblioteca Municipal de Caminha.
O escritor e jornalista galego Xesús Fraga apresentou a tradução em português do seu livro "O Rio Minho - Uma Viagem entre Solstícios", descrevendo a sua viagem a pé desde a nascente (Irimia) até Valença, após o que prosseguiu o seu itinerário de bicicleta (deu três quedas) com término em Caminha/A Guarda.
Sem recurso a imagens, porque "elas resultam da própria escrita", defendeu, a obra recolhe "as memórias que também são retidas pelo corpo, não só pelo cérebro", intuiu, desses seis meses em que "o que mais se ouviu foi que aqui já não se pesca", uma apreciação a este "rio de luz (com muito sol) que me ia guiando", acentuou o autor.
"Será que faz sentido traduzir livros do galego para português?", foi a repto lançado aos presentes pelo historiador Paulo Torres Bento, ao introduzir o convidado que enfatizou esta sua "viagem muito pessoal, mas também de reflexão", e considerando ser relevante apresentar traduções para a nossa língua.
Paulo Torres Bento citou os pontos mais destacados deste percurso de mais de 300 km pelas margens do Pai Minho, espelhados nas quase 200 páginas da obra publicada em português no ano passado, começando desde logo pela moribunda pesca, pelos moinhos, fortalezas, contrabando, fuga dos judeus através deste rio por alturas da II Grande Guerra, as mais de 500 barragens espanholas - destacando-se a maior desse país, com 129 metros de altura, construída no tempo do franquismo -, com uma alusão final ao ferry "inoperacional há meses", como escreveu Xesús Fraga (uma data desatualizada, mas que correspondia à altura em que terminava o seu percorrido fluvial).
"Uma memória"…do que "ficou submerso pelas barragens"
Este escritor e tradutor de inúmeras obras (incluindo um poema de Fernando Pessoa, do inglês para o galego) nascido na Inglaterra, pretendeu fazer do livro uma "memória", nomeadamente do que "ficou submerso pelas barragens".
O escritor escolheu ir à nascente do Rio Minho na noite mais pequena do ano, a que se seguiu o dia mais longo desse solstício, iniciando uma descida pelas margens de um rio com água doce que acaba por se mesclar nas ondas salgadas da sua foz.
"Nós somos todos Rio Minho"
Esta sessão dos Amigos das Bibliotecas de Caminha contou pela primeira vez com a presença de Liliana Silva, a nova presidente da Câmara Municipal de Caminha, autarquia que vai continuar a apoiar estas atividades que mereceram um elogio seu, e pondo logo na sua primeira intervenção o dedo numa ferida que a todos deve preocupar: "a dificuldade em atrair jovens". Apesar deste distanciamento da juventude, Liliana Silva acentuou que "deve-se insistir".
A presidente sentiu-se cativada por este trabalho, tendo-o o lido "pela noite fora", porque, justificou ainda, "nós somos todos Rio Minho", cuja realidade "está espelhada nas páginas deste livro", aproveitando para "partilhar" com os presentes algumas passagens que lhe mereceram particular atenção. As quais anotou e enumerou nesta sua apreciação à obra que "acaba no oceano" e reflete "a união entre os povos".
Entusiasmada com o conteúdo de "Rio Minho - Uma Viagem entre Solstícios", Liliana Silva (ela própria já publicou um livro) considerou que não estavam perante uma "mera narrativa de uma viagem", mas era simplesmente "a nossa história" ("a água que não conhece limites municipais nem disputas de propriedade", citou).
As termas e as águas medicinais deste curso de água onde a avó do autor lavava a roupa, ainda há 70 anos, em Ourense, como o próprio recordou, e o passeio dos médicos em 1981, "desde Lugo até ao Atlântico, em três botes soviéticos", a Ribeira Sacra, a ponte de Valença-Tui (adiantaram-se um século ao projeto europeu), levaram Liliana Silva a reclamar que "este livro é nosso", porque, entende que "fala de Caminha e de nós".
Após citar algumas estórias que ouvira em Seixas sobre o passado relevante desta aldeia ribeirinha, em termos comerciais, pesca ou transportes fluviais (o cineasta Manuel Oliveira atravessava o rio num barco a remos), Liliana Silva agradeceu aos Amigos das Bibliotecas de Caminha a oportunidade de "ter chegado a este livro".
Após algum debate do autor com o público, a presidente da Câmara ofereceu três livros ao escritor galego, todos eles relacionados com o Rio Minho.