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A mística de Vilar de Mouros
é imune a qualquer tempestade

23/8/26 18h45

Álvaro Melo
Fotografia: M. Crespo

Devil of a Woman

Ao ver esta banda, vi que o circuito de festivais nos recorda o verdadeiro peso da palavra "oportunidade". Ontem à tarde, as portas do histórico recinto de Vilar de Mouros abriram-se para receber não apenas o público resistente do último dia, mas também a personificação de um sonho em formato rock. Assisti à subida ao palco dos Devil of a Woman, a banda do Porto que poucas horas antes tinha carimbado o passaporte para este Olimpo musical ao vencer o Concurso de Bandas de Garagem António Barge. O que se seguiu foi uma lição de atitude e competência.

Quando a eletricidade rompeu as colunas do Palco Histórico, percebi imediatamente que não estávamos perante uns estreantes intimidados. Com apenas dois anos de existência e já três trabalhos editados, o quarteto trazia a lição bem estudada. A vocalista Ana Beatriz, cujo magnetismo foi o foco principal das partilhas que inundaram o Instagram e o Facebook ao longo de toda a tarde, dominou a frente do palco com uma postura felina e uma entrega vocal avassaladora.

O público, que ainda se acomodava no relvado minhoto sob o sol quente do final de agosto, foi rapidamente sugado pela muralha de som da banda. Os riffs de guitarra cortantes e uma secção rítmica pesada provaram que a escolha do júri do concurso foi cirúrgica. Nas redes sociais do festival, os comentários repetiam-se como um eco: "Mais que merecido!" e "Grandes máquinas" serviram de legenda aos vídeos de quem vibrava na linha da frente.

Deixar o Palco Histórico após este concerto deixou-me com uma certeza reconfortante. O festival mais antigo da Península Ibérica continua vivo porque sabe renovar o seu próprio sangue. Ontem, os Devil of a Woman provaram que o rock português de garagem tem garras, tem alma e, acima de tudo, encontrou em Vilar de Mouros a sua rampa de lançamento perfeita.

TREVO

De facto, há concertos que servem para entreter e outros que servem para reescrever o ambiente de um festival. Ontem à noite, no palco do lendário festival CA Vila de Mouros assisti àquilo que só pode ser descrito como uma tempestade perfeita de distorção. Os TRAVO, quarteto que tem estado nas bocas do panorama musical alternativo, subiram ao palco dispostos a não fazer prisioneiros. O que entregaram foi uma lição de garage rock misturado com um psicadelismo pesado e espacial.

Mal os primeiros acordes ecoaram, percebeu-se que a banda jogava em casa, não só pela proximidade geográfica, mas pela energia crua que transportam. O foco estava claramente focado nos temas de Astromorph God, o aclamado trabalho que serve de espinha dorsal à sua atual digressão. Em palco, a coesão do grupo é cirúrgica. As guitarras cruzam-se em riffs labirínticos, enquanto a secção rítmica cria uma batida hipnótica que prendeu o público do primeiro ao último segundo.

O que mais me impressionou ao longo da atuação foi a capacidade dos TRAVO em manter a intensidade sem nunca perder o rumo. Não há artifícios no espetáculo deles, há apenas amplificadores no máximo, suor e uma entrega visceral que evoca o espírito mais puro do festival mais antigo da Península Ibérica. A simbiose entre os músicos e a massa humana que se juntou em frente ao palco provou que o rock de guitarras musculadas continua a ter um público sedento e fiel em Portugal.

Ao ver a banda despedir-se sob uma ovação estrondosa, ficou a certeza de que os TRAVO já não são apenas uma promessa de garagem. Ontem, em Vilar de Mouros, carimbaram o estatuto de certeza absoluta do rock nacional, assinando uma das exibições mais vigorosas e comentadas de toda a edição.

Marky Ramone

Há hinos que não envelhecem e há legados que exigem ser defendidos no único sítio que importa, em cima de um palco. Ontem à noite, no fecho de mais uma edição histórica do CA Vilar de Mouros, assisti àquela que foi, sem surpresa, a maior e mais suada comunhão intergeracional do festival. Marky Ramone, o homem que carregou o ritmo dos Ramones durante quase duas décadas, subiu ao palco para provar que o espírito de 1978 continua vivo, feroz e sem rugas.

Quando a mítica contagem inicial ecoou pelos amplificadores, o recinto transformou-se instantaneamente num mar de braços levantados e corpos em movimento. Ao lado de uma banda competente que compreende perfeitamente a urgência das canções, Marky sentou-se atrás do estojo de bateria para disparar uma rajada implacável de clássicos. Não houve espaço para conversas longas ou artifícios cénicos; o concerto foi um soco direto e contínuo, entregue com a velocidade frenética que definiu o punk rock mundial.

Ouvir temas intemporais como "Blitzkrieg Bop" ou "I Wanna Be Sedated" cantados a plenos pulmões por milhares de pessoas no Minho trouxe uma eletricidade única à noite. Nas redes sociais, as reações imediatas confirmavam o estado de ebulição do público, onde centenas de vídeos partilhados no Instagram mostravam autênticas "rodas de fogo" espontâneas na frente do palco, com comentários que elogiavam a "forma física invejável" do baterista veterano.

Aos 74 anos de idade, a precisão rítmica de Marky Ramone continua a ser uma força da natureza. Ver a sua silhueta clássica comandar o andamento da noite foi um privilégio histórico para os festivaleiros mais veteranos e uma lição de atitude para os mais jovens. A imprensa de referência descreveu o espetáculo como um dos momentos mais puros de celebração desta edição, onde a nostalgia deu lugar à pura energia rock que recusa morrer.

Quando o concerto chegou ao fim, sob uma chuva de aplausos e gritos de agradecimento, ficou claro que Vilar de Mouros testemunhou mais do que um simples concerto de rock. Testemunhou a passagem de um testemunho cultural que continua a mover multidões. Marky Ramone não veio a Portugal apenas para tocar bateria, veio recordar-nos que o punk é eterno e que as canções da sua "família de sempre" continuam a ser o combustível mais eficaz para incendiar uma multidão.

Rudeboy ft. DJ DNA

Existem projetos que carregam a história no nome e a atitude nos amplificadores. Ontem à tarde, no penúltimo dia do lendário CA Vilar de Mouros, assisti àquela que foi, sem margem para dúvidas, uma das exibições mais eletrizantes e viscerais de toda esta edição. Os Sons of the Culture Clash, a nova e entusiasmante encarnação artística dos históricos Rudeboy e DJ DNA, subiram ao Palco Histórico dispostos a provar que a verdadeira fusão musical não tem prazos de validade. O resultado foi um autêntico sismo sonoro que abalou as fundações do recinto minhoto.

Estar na plateia foi como testemunhar um manifesto vivo daquilo que o rock alternativo deve ser. Mal DJ DNA começou a arranhar os pratos com o seu habitual virtuosismo e a secção rítmica disparou, percebeu-se que a tarde ia ser de combate. Rudeboy, com o carisma intacto e uma presença felina, tomou conta do microfone despejando rimas cortantes e velozes sobre uma parede densa de guitarras distorcidas e grooves de funk musculado. É esta "colisão cultural" que batiza a banda que agarrou o público desde o primeiro compasso.

A reação nas plataformas digitais ao longo do espetáculo traduziu na perfeição a catarse coletiva.

O que me impressionou profundamente foi a frescura que este coletivo consegue injetar em palco. Não se trata de um mero exercício de nostalgia barata. Os Sons of the Culture Clash tocam com a urgência de quem está a inventar o género hoje. A simbiose técnica entre os scratches cirúrgicos de DJ DNA e os Riffs pesados de guitarra criou uma atmosfera densa, suada e poeirenta sob o céu de Vilar de Mouros.

Quando o concerto terminou, debaixo de uma ovação estrondosa, ficou no ar a sensação de que tínhamos acabado de presenciar um daqueles momentos raros que justificam a mística deste festival pois trouxeram a rebeldia vanguardista das ruas europeias até à beira do rio Coura, deixando o público rendido e com a certeza de que o rock híbrido continua bem vivo, perigoso e altamente recomendável.

Body Count ft Ice-T

Há concertos que encerram festivais e há concertos que os aniquilam. Ontem à noite, perante uma massa humana compacta e sedenta, assisti àquela que foi a atuação mais implacável, destrutiva e politicamente carregada de toda a edição de 2026 do CA Vilar de Mouros. Os Body Count, encabeçados pelo icónico rapper e ator Ice-T e pelo brilhante guitarrista Ernie C, subiram ao Palco Histórico não para celebrar, mas para desferir um manifesto sonoro cru de heavy metal fundido com o rap das ruas de Los Angeles.

O aviso estava dado, mas ninguém estava verdadeiramente preparado para a parede de som que se abateu sobre o Minho profunda. Mal a banda arrancou com as suas habituais narrativas urbanas de combate e sobrevivência, o relvado do festival explodiu. Vi erguerem-se as maiores e mais agressivas rodas de moship de que há memória recente no festival, alimentadas por riffs de guitarra devastadores e pela cadência esmagadora da bateria.

Ice-T, com o seu carisma inabalável, comandou a noite como o mestre de cerimónias de uma revolta necessária. Entre canções, os seus discursos frontais contra o racismo, a opressão sistémica e a brutalidade policial ecoaram fortemente na plateia. As redes sociais oficiais do festival entraram em colapso temporário.

O clímax do espetáculo, e, arrisco dizer de todo o festival, deu-se quando a banda disparou a clássica e ultra-polémica "Cop Killer". Ver e ouvir milhares de vozes, de várias gerações, a gritar o refrão em uníssono sob o céu minhoto trouxe uma atmosfera elétrica e quase perigosa ao recinto. O som pesado, detentor de um legado que recentemente lhes valeu um prémio Grammy, provou que a banda mantém intacta a sua urgência e pertinência cultural.

Quando as luzes do palco finalmente se apagaram, deixando um rasto de suor, poeira e amplificadores a zunir, a sensação geral era de absoluto esgotamento físico e catarse coletiva. Os Body Count não fizeram apenas um concerto de metal, entregaram uma performance visceral que honrou a mística contestatária de Vilar de Mouros. Foi o fecho de ouro mais pesado e frontal que o festival poderia ambicionar para a sua despedida de 2026.

Skindred

Temos dias em que os elementos da natureza decidem testar a têmpera de um festival de rock. Ontem à noite, no encerramento da edição de 2026 do CA Vilar de Mouros, as nuvens que ameaçavam o Minho decidiram finalmente ceder. Foi precisamente no arranque do concerto dos galeses Skindred que a chuva bateu forte no recinto. O que podia ter sido um balde de água fria transformou-se, contudo, no batismo perfeito para uma das exibições mais viscerais, divertidas e memoráveis do ano.

A bipolaridade genial da entrada em palco do vocalista Benji Webbe foi, por si só, um acontecimento visual, ostentando um enorme chapéu vermelho e um sobretudo negro, o líder do quarteto impôs-se de imediato perante a multidão molhada. A imprensa de referência descreveu o concerto como uma deliciosa "bipolaridade" musical. Assistir à forma como a banda transita, sem aviso, de um riff de heavy metal esmagador para uma cadência descontraída de reggae e dub é uma experiência sónica avassaladora.

O que tornou a atuação dos Skindred verdadeiramente triunfal foi a capacidade de Webbe em dominar as massas. O vocalista brincou com a chuva, distribuiu sorrisos e exigiu uma entrega total que o público lhe concedeu sem hesitar, a simbiose entre o peso do metal e a vibração positiva dos ritmos jamaicanos, que funcionou como o combustível perfeito para aquecer a noite fria e húmida do rio Coura.

A resposta do público foi imediata e o cansaço acumulado de cinco dias de festival evaporou-se. Nas redes sociais, as imagens partilhadas mostravam o relvado transformado numa gigante pista de dança enlameada. O ponto alto da noite chegou com o tradicional "Newport Helicopter", o habitual ritual da banda onde milhares de pessoas tiraram as tshirts e os casacos molhados para os girar violentamente no ar, criando um efeito visual impressionante sob as luzes do Palco Histórico. No Instagram do festival, os comentários resumiam o sentimento geral "O melhor concerto do festival" e "Inesquecível debaixo de chuva" serviram de legenda aos vídeos da noite.

Quando os galeses abandonaram o palco, a sensação de quem ali esteve era a de ter testemunhado uma autêntica masterclass de entretenimento e atitude rock. Os Skindred não se limitaram a tocar sob a tormenta, eles abraçaram a intempérie e assinaram uma despedida épica, provando que a mística de Vilar de Mouros é imune a qualquer tempestade.


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