Paulo Alvarenga, presidente da Junta de Freguesia de Riba d'Âncora, vinha afirmando repetidamente que a adaptação da antiga escola básica a Centro de Dia seria "a obra mais importante destes 12 anos" dos seus três mandatos.
Fruto de "um trabalho de todos"
A inauguração teve lugar no final de Agosto (dia 31), e a importância do novo centro ficou igualmente refletida nas palavras de Rosa Máximo - apresentadora do acto público que decorreu no exterior do edifício -, quando disse que "este espaço é o símbolo do nosso amor ao próximo", fruto de "um trabalho de todos".
Esta professora e sindicalista (habituada a furar protocolos, como reconheceu com algum humor quando procedia a apresentar os oradores e trocou por uma vez a sequência das intervenções) elogiou todos os que se envolveram na concretização deste projecto, destacando o prof. Flamiano, o padre Manuel Joaquim e Miguel Alves.
Tendo inúmeros ribancorenses a presenciar esta cerimónia precedida da bênção das instalações pelo Bispo da Diocese, João Lavrador, Rosa Máximo expressou ainda o seu desejo de que o Centro Social e Paroquial "seja um farol de esperança" para os naturais da freguesia e de outras povoações nomeadamente do Vale do Âncora.
Não deixou em branco o empenhamento do pároco Manuel Joaquim Oliveira na concretização deste projecto, no decorrer dos 21 anos que se manteve nesta paróquia (vai jubilar-se em meados deste mês), manifestando por isso a importância de tornar esta IPSS "mais sólida", como forma de celebrar o legado que este sacerdote "ajudou a construir", expressando dessa forma o agradecimento que todos os ribancorenses lhe devem.
25 utentes e 40 apoiados no domicílio
As funcionárias do Centro Social e Paroquial percorrem 170 km por dia no apoio a idosos nas suas habitações e transporte dos utentes do Centro de Dia, frisou o padre Manuel Joaquim Oliveira, após historiar o processo de reconstrução do espaço existente, iniciado nos anos 90, mas que foi encontrando dificuldades várias, designadamente perante as "desconformidades" apresentadas pelo edifício, algumas delas "estruturais", e que obstaram à concretização de um apoio substancial a uma obra de reabilitação.
Este pároco insistiu na vontade ("sonho") sempre presente ao longo das últimas décadas, de "dar a esta paróquia e às do Vale do Âncora, uma vida mais feliz aos idosos", motivo dos alertas lançados à Câmara Municipal, Junta de Freguesia e população, e que acabaram por dar resultado.
Recordou a assinatura de um protocolo de comodato por 50 anos do edifício da antiga escola básica, conseguido na altura por Miguel Alves, presidente da Câmara Municipal, após o que se seguiu a elaboração de um projecto de "remodelação" entregue ao arquitecto Pita Guerreiro, e garantindo o autarca o apoio de fundos públicos, e Paulo Alvarenga, simultaneamente presidente da Junta de Freguesia e do Conselho Directivo dos Baldios, destinou 200.000€ deste organismo para reforço das obras necessárias.
Estando presente o novo secretário de Estado da Segurança Social (bem como o recém-empossado director distrital), o presidente do Centro Social e Paroquial de Santa Maria de Riba d'Âncora aproveitou para lhe pedir que os contemplasse com uma "discriminação positiva" - atendendo a que se inseriam numa zona rural -, através da oferta de carrinhas novas, atendendo a que as actuais se encontram em "mau estado".
"Vós sois o centro do Centro Social e Paroquial de Riba d'Âncora"
Dirigindo-se aos utentes que assistiram à inauguração, Manuel Joaquim (agraciado com um Cristo em marfim no decorrer desta cerimónia, pelas duas décadas de devoção à paróquia e na hora da sua despedida que ocorrerá a 22 deste mês), acentuou que "esta Casa é para vós", uma vez que "sois o centro do Centro Social e Paroquial de Riba d'Âncora".
Insistiu ainda que "o que fazemos por vós é um acto de justiça e respeito" por estes utentes para que "fiquem mais felizes", vincou.
Este momento foi ainda aproveitado para enviar diversos agradecimentos e elogios - nomeadamente ao vice-presidente Flamiano Martins pela atenção prestada ao processo burocrático do projecto e candidatura a fundos direccionados a esta área social, bem como à "Meninha" Sales.
"É obra de todos e para todos"
Na série de intervenções dessa manhã, José Gonçalves, vice-presidente do Conselho Directivo dos Baldios de Riba d'Âncora, principal financiador da obra de adaptação da escola a centro de dia, comungou da ideia generalizada de que ela "era desejada por todos", levando a que os Baldios se tivessem comprometido a apoiá-la financeiramente, tornando "o sonho realidade".
Concedeu ainda relevo ao apoio que a equipa de sapadores prestou ao espaço exterior do novo Centro de Dia.
"É agora uma escola de vida"
A materialização deste empreendimento foi difícil, admitiu Paulo Alvarenga, presidente da Junta de Freguesia, quando chamado a proferir algumas palavras nesta cerimónia.
A exiguidade de tempo para aprovar o projecto, tendo em conta a eventualidade de perderem 130.000€ de financiamento, obrigou a um forcing de todos, incluindo o presidente da Câmara de Caminha da altura, Miguel Alves, e do próprio arquitecto.
Sem verbas suficientes, "tivemos que encontrar uma solução", forçados a diminuir em 500.000€ o custo da obra, muito graças ao empenho do técnico urbanista que "se adaptou à realidade da freguesia", que para além do financiamento do Estado, dispunha apenas de cerca de 200.000€ dos Baldios e dos 130.000€ assegurados por Miguel Alves junto do Estado, a par do recebimento de mais algum dinheiro conseguido pelo actual presidente Rui Lages, levando Paulo Alvarenga a concluir que "aproveitamos tudo o que foi possível".
E por que "Riba d'Âncora é uma terra ambiciosa", o autarca do Vale do Âncora, após felicitar a direcção do CSP de Riba d'Âncora pelo seu "empenho" neste projecto, pediu-lhe que "continue com a mesma garra, porque ainda há muito para fazer".
O momento era para evocar ainda o facto de "todos nós estarmos sempre unidos", factor decisivo para qualquer projecto, acentuou, não deixando de agradecer a passagem do padre Manuel Joaquim por esta freguesia, bem como mais uma prova de amizade patenteada pelo artista Rego Meira, ao oferecer uma pintura colocada no hall de entrada do novo Centro de Dia.
O caminho faz-se caminhando"
O trabalho desenvolvido pela Câmara Municipal "com os parceiros certos, criando nova valências" no concelho de Caminha, mereceu uma citação especial de Rui Lages, presidente do Executivo camarário, quando convidado a pronunciar-se sobre o acto público.
"O caminho faz-se caminhando", vincou o autarca que substituiu Miguel Alves na presidência do Município, referenciando de seguida três homens e duas instituições:
O padre Manuel Joaquim que "deixou aqui o seu legado"; Flamiano Martins porque é "o motor de qualquer instituição"; Paulo Alvarenga, "uma grande referência em Riba d'Âncora e no Vale do Âncora".
Referiu seguidamente o papel "fundamental" dos Baldios - constituindo um exemplo e uma resposta para as dificuldades das juntas de freguesia da nossa terra -, e Miguel Alves "lutando contra muitos para que esta escola fosse entregue a uma IPSS".
Prometeu que a Câmara de Caminha será uma "parceira de excelência" neste projecto, ao referir que "a solidão é um dos principais problemas desta sociedade".
"Aqui", frisou, "todos serão valorizados e respeitados", garantiu.
"É uma obra que enlaça mais o concelho e a comunidade"
Surpreendido com o convite para estar presente ("foi uma oportunidade para estar convosco mais uma vez"), Miguel Alves, ex-presidente da Câmara Municipal de Caminha, acompanhou este processo de adaptação da antiga escola primária a Centro de Convívio de idosos desde o início, logo que Paulo Alvarenga o desafiou a envolver-se neste desiderato ribancorense.
"Alegria, reconhecimento e incentivo", foram as palavras escolhidas pelo ex-autarca para justificar a aceitação do convite, orgulhoso por ter podido participar na elaboração deste projecto continuado por Rui Lages, cuja obras "demoraram muito", admitiu, mas "estamos aqui hoje".
Elogiou o actual líder do Executivo caminhense pelo encaminhamento dado, com sucesso, à adaptação do imóvel escolar, bem como a vontade "incansável" de Paulo Alvarenga, definido como um "homem decisivo" ao dar um "impulso enorme a esta freguesia". Teve ainda palavras de encómio relativamente ao vice-presidente do Centro Paroquial e Social de Riba d'Âncora, Flamiano Martins, uma pessoa que "deixa a sua marca em tudo o que faz", bem como ao padre Manuel Joaquim Oliveira pela sua "liderança serena".
"Não nos dividamos", apelou Miguel Alves, ao desafiar os ribancorenses a "trabalhar sob estas premissas" , apesar das diferenças que possam existir, antes de finalizar o seu discurso e acentuar que "foi sempre um prazer estar em Riba d'Âncora".
"Sejam felizes"
O actual secretário de Estado da Segurança Social, Jorge Campino, marcou presença em Riba d'Âncora, como já referimos, um técnico que já anda "há 30 anos em funções da segurança social", como fez questão de sublinhar quando convidado a proferir algumas palavras.
Por tal motivo, disse conhecer a "importância do apoio familiar e dos centros de dia", nomeadamente numa época de "envelhecimento da sociedade", fazendo votos para que os actuais e futuros utentes do novo Centro de Dia "sejam felizes".
"Prestar apoio a qualquer um"
A homenagem de que foi alvo o padre Manuel Joaquim não deixou de ser enaltecida pelo Bispo de Viana do Castelo, João Lavrador, a quem coube encerrar a cerimónia, após o que procederam a uma visita às instalações.
Lançou um desafio perante a obra à vista de todos, ao dizer a quem o escutava que "em comunidade se responde", além de ter relevado o "papel fundamental da Igreja" nesta área social, porque, justificou, "não pode reduzir-se à parte do culto".
Adiantou ainda que a Igreja deve "despertar a comunidade para esta realidade", referindo-se à problemática da terceira idade e do isolamento, competindo à Igreja Católica "prestar apoio a qualquer um", mesmo fora do âmbito da Igreja.
Pegando no pedido dos dirigentes do Centro Paroquial e autarcas, D. João Lavrador fez questão de frisar perante o governante e o director distrital que seja reconhecido o que foi feito em Riba d'Âncora, mas, pormenorizou, "ainda há um caminho muito grande a fazer".
Lamentou que o Estado não dê condições para salvaguardar os direitos dos cidadãos, porque "é esse o seu dever e não complicar a sua vida", a par de pedir "mais transparência" no apoio às instituições.
Duas cuidadoras
Após estas últimas palavras, Rosa Máximo recordou quem "cuidou dos utentes e deste espaço como se fosse a sua casa", citando os nomes da D. Rogéria e da Iria.
"A obra deve ser boa"
Uma das utentes do Centro de Dia, Laura Oliveira, com 86 anos, residente em Âncora, onde "me vão buscar e me põem à porta de casa", já utente do Centro de Dia há mais de três anos, disse na ocasião ao C@2000 que "a obra deve ser boa, porque o edifício é bom, porque só o conhecia como escola".
"Vamos ver" como corre tudo daqui para diante, atendendo a que o anterior edifício "já era mais antigo", levando-a a acreditar que tudo será melhor.
"Sempre me trataram bem"
Prestes a deixar a paróquia de Riba d'Âncora, o padre Manuel Joaquim falou para o C@2000, descartando que se diga que se ia jubilar, atendendo a que "um padre nunca se jubila", explicando que "o jubilar final será no encontro com o Senhor, quando ele quiser".
Inicialmente, iria deixar também a paróquia de Vile, mas acedeu ao pedido do Bispo da Diocese, que o convenceu a ficar "com uma paróquia pequenina, para não perder o meu ritmo", uma ideia que lhe pareceu boa e acabando por optar pela freguesia vizinha de Vile.
Ao contrário, Riba d'Âncora era "mais exigente", porque além do Centro de Dia, possuía a catequese e a Legião de Maria "organizadas". Referiu a necessidade de reunir todos os meses a direcção do Centro Paroquial, o respectivo Conselho Fiscal de três em três meses, a Legião de Maria obrigava a reuniões semanais, o que lhe ocupava muito tempo, e "a minha capacidade está diminuída", embora "aparentemente" se pudesse pensar que estava bem, contou-nos.
Assim, crê que "já merecia um bocadinho de descanso".
Admitiu que "saio muito satisfeito de Riba d'Âncora", embora isso não significasse que "não houvesse problemas", sublinhando, contudo, a forma acolhedora como os moradores o trataram ao longo de duas décadas, "estimando-me, respeitando-me, mesmo não concordando comigo".
Divulgou um "método" utlizado pelos ribancorenses para lidar com o seu pároco: se não concordarem com o pároco, "afastam-se", embora considere tal atitude como "prejudicial".
Revelou ainda a "linguagem" a utilizar pelo pároco nas suas homílias, devendo ser cuidada a fim de não "ofender ninguém - às vezes sem querer -, competindo ainda ao pároco estar atento para que todos possam estar presentes, "não os espantando, como é costume dizer-se".
Referiu que há nos dias de hoje "muitas pessoas afastada da Igreja, não por não serem católicas, mas por haver tantas opções e motivações", como sucede com a juventude, o que "faz pena que tivesse abandonado a Igreja".
"Fizemos coisas lindas"
Assinalou, a propósito, a existência de um grupo de 29 jovens que chegou a ter, com o qual "fizemos coisas lindas", incluindo a criação de um grupo musical que "concorreu a um festival da canção", mas, "começaram a dispersar-se, uns para Suíça e Andorra, outros para a universidade.
Prosseguindo a sua análise à sociedade actual, acentuou que "isto de vir à Igreja pode ser até agradável para aqueles que têm fé, mas para quem a tem um bocadinho periclitante, é natural que vão para aquilo que lhes é mais fácil".
Atribui um papel preponderante das famílias na "formação dos filhos e netos", levando-o a concluir que "se lhes faltar formação religiosa, falta-lhes a vida", independentemente da educação cívica, escolar e desportiva, mas insistiu na relevância da "formação cristã e religiosa", devendo cada um "ter um cantinho e a sua hora para essa parte".