Qualquer tarde passada junto das Azenhas de Vilar de Mouros vai revelando aos poucos o que representa e qual a importância deste festival no panorama nacional. Um ambiente absolutamente descomprometido, em contacto directo com o que a natureza circundante oferece, sol, sombra e água. Uma larga amplitude de idades, os grupos de amigos, as famílias. Tudo por bons momentos e pela música.
A edição de 2024 do festival Vilar de Mouros decorreu entre os dias 21 e 24 de Agosto, tendo apresentado um cartaz com uma orientação muito própria, à imagem do que tem vindo a ser feito nas últimas edições. Infelizmente, o estado clínico de Josh Homme ditou o cancelamento tardio, a cerca de 1 mês da data de início do evento, dos norte americanos Queens of the Stone Age. Isto obrigou a promotora do Vilar de Mouros a demonstrar a sua agilidade para reformular a programação e a compor o cartaz num curto espaço de tempo. A solução acabou por ter o seu sucesso, com o primeiro dia do festival, aquele em que subiriam a palco os Queens of the Stone Age, a ser de entrada gratuita e inteiramente dedicado à música portuguesa, no qual se constatou ser o dia com maior afluência de público.
Ao longo dos quatro dias de festival foram produzidos momentos que ficarão seguramente na memória de muitos dos presentes. Ao surgirem no cartaz nomes como GNR e Delfins, surgiu também na atmosfera o sentimento da nostalgia, que tanto tem caracterizado o Vilar de Mouros. Apesar de Rui Reininho se ter agraciado de "Rui Alzheimer", não se denotaram esquecimentos assinaláveis enquanto o público reproduzia coros invejáveis em "Pronúncia Do Norte", "Quero Que Vá Tudo Para O Inferno" ou "Dunas". Mais tarde, os Delfins chegaram para dizer que têm envelhecido muito bem. Com uma performance musical irrepreensível e um repertório invejável, munido apenas de sucessos, levaram Vilar de Mouros ao, talvez, maior êxtase da edição de 2024. Imediatamente antes, os Amália Hoje entregaram a homenagem ao incontornável ícone da cultura nacional, perante um dos maiores ajuntamentos em frente ao palco. O início deste dia tinha sido feito com o estilo que melhor coabita em Vilar. O rock foi trazido por The Legendary Tigerman, com uma formação cada fez mais ampla e mais potente, e também pela estreia em palco dos caminhenses Fogo Frio.
Esta não terá sido das edições do festival com maior afluência de público, muito possivelmente devido à apresentação tardia do cartaz completo, já perto da data do evento. Esta evidência justificará a "falta", nos concertos que mereciam plateias maiores, pois a qualidade dos espetáculos foi inquestionável. Nesta lista podem ser incluídos o belíssimo concerto dos Capitão Fausto, ainda o sol se punha; o final do segundo dia com mais uma visita dos The Cult, e o fecho do festival a chave e cadeado de ouro, tarefa realizada com mestria pelos britânicos The Darkness. Voltem sempre.
Os números oficiais revelados somam cerca de 55 mil espectadores ao longo dos quatro dias. Foi possível sentir esse calor no competente concerto dos Xutos & Pontapés, na recordação do disco "O Monstro Precisa De Amigos" dos Ornatos Violeta, ou na demonstração de jovialidade dos clássicos The Waterboys.
Depois destes, com a entrada em cena dos The Libertines, foi notório o arrefecimento da plateia. Para atingir esta meta, falando do número de presentes, terá sido importante a diversidade de estilos adicionada ao cartaz, já que nomes como Crystal Fighters ou Die Antwoord funcionaram como cartas fora do baralho, mas que tinham público desejoso de os ver, especialmente estes últimos vindos da África do Sul, tendo provocado enorme euforia e estupefação.
O heavy metal tem também história em Vilar de Mouros e nesta edição não ficou esquecido. Não sendo nenhum deles estreantes no festival, pelas 18h do dia 22 já estavam os RAMP a agitar os presentes, tendo-se seguido o concerto dos Moonspell, com um alinhamento curto para o que o público nacional pode estar habituado, mas aproveitando-se disso para serem intensos e castigadores de uma ponta à outra.
A atracção principal desta parte do menu seriam seguramente os Soulfly. Liderados pelo ícone que é Max Cavalera, com a mistura de ritmos tribais e a explosividade da sua música, provocaram os momentos mais agitados na plateia. Pelo palco do festival passou ainda o stoner rock dos nacionais Sulfur Giant, a singularidade dos norte-americanos Vapors of Morphine e o saudosismo contagiante de David Fonseca.
O espírito de Vilar de Mouros está vivo e ansioso pela próxima edição, que está já agendada para os dias 21, 22 e 23 de Agosto de 2025. É importante que continue a haver Vilar de Mouros. Apesar das alterações de última hora e pesando os azares, o festival continua a mostrar que preenche um lugar único em Portugal. As melhorias encontradas nas condições do campismo e estacionamento revelam um empenho contínuo por parte da organização.