Cumpriram-se no dia 24 os 740 anos da outorga do Foral à vila de Caminha por parte do rei D. Dinis, razão da celebração da efeméride na edição de 2024 da Feira Medieval, que se iniciou precisamente nesta data com o descerramento de uma placa toponímica com o nome do monarca no Largo da Matriz, e a apresentação do livro "D. Dinis", a cargo do seu autor, o historiador medievalista José Augusto Pizarro.
Proposta da Junta
Na altura da inauguração da placa, Miguel Gonçalves, presidente da Junta de Freguesia de Caminha/Vilarelho, proponente da alteração da designação existente (António Mendes, bispo, sem qualquer ligação a Caminha), relevou a aprovação em reunião camarária dessa proposta, aproveitando para enumerar outras alterações toponímicas já materializadas e outras previstas num futuro próximo.
Requalificação do largo
Rui Lages, presidente do Executivo caminhense, acompanhou as palavras do autarca de freguesia, acrescentando que chegara a altura de proceder à "requalificação" do largo, em sintonia com os responsáveis do património, e sublinhou o nome agora atribuído, dado não existir qualquer alusão ao rei povoador na toponímia local.
Após este acto, seguiu-se uma palestra ("uma conversa aberta", assinalou logo no início Rui Lages) na biblioteca municipal, a pretexto da atribuição do Foral a Caminha em 1284.
Coube ainda ao historiador local Paulo Torres Bento enaltecer essa 26ª sessão promovida pelos Amigos da Biblioteca, em que o também historiador medievalista José Augusto Pizarro baseou a sua explanação no seu livro "D. Dinis", uma biografia do sexto rei de Portugal.
Paulo Bento admitiu que a "relação de Caminha com a época medieval nunca foi pacífica", dando como exemplo, o facto de D. Dinis não ter tido uma "expressão local" até ao presente.
Indicou que o facto de "prevalecerem os nomes populares" nas toponímias, não impede que se lhes atribuam os de figuras "relevantes", embora muitas vezes sem qualquer representatividade local, apontando como exemplos o do anterior Largo da Matriz, a Rua Álvares Pereira ou Pero Vaz de Caminha (nasceu no Porto).
"Roubaram o foral"
A referência à dificuldade em articular Caminha com essa época medieval, mereceu um esclarecimento de Paulo Torres Bento, porque em 1938, a Câmara de Caminha viu-se obrigada a pedir (pagar) uma cópia do Foral de D. Dinis à Torre do Tombo, porque "o verdadeiro tinha sido roubado".
Em 1984, aquando das celebrações dos 700 Anos do Foral, realizou-se um seminário luso-galaico em que surgiram duas comunicações relacionadas com Caminha desse período da história caminhense: O Prof. José Marques apresentou o trabalho "A Póvoa Dionisina de Caminha - 1284", e Maria Helena da Cruz "A Acção Régia de D. Afonso III e D. Dinis em Caminha".
Actas que nunca se concretizaram
Ambas deveriam incluir a publicação das Actas desse seminário, mas estas acabaram por não se concretizar, sendo editadas mais tarde, mas de uma forma dispersa.
Paulo Bento fez alusão aos estudos realizados ao túmulo de D. Dinis, falecido aos 62 anos (o que era uma raridade para a época, em que a média de vida era bem mais diminuta) no qual foram encontrados uma espada pequena (o rei tinha uma estatura baixa, nem atinga 1,60 metros, em contraste com sua mulher D. Isabel que media 1,75 m).
Como resultado da abertura deste túmulo, constataram que o corpo do monarca se encontrava intacto (mumificado), com todos os dentes perfeitos, levando à conclusão de que tinha sido uma pessoa saudável, era ruivo (tinha ascendentes que também o eram, como era o caso do imperador do Sacro Império Sacro Romano-Germânico Frederico Barba Ruiva), revelou José Augusto Pizarro, relevando os seus laços parentais com as monarquias europeias.
Contudo, os seus dados biográficos não são significativos, lamentou o palestrante.
D. Dinis esteve em Caminha
Confirmou que D. Dinis tinha estado em Caminha, o que não admiraria, porque os reis até D. João I "circulavam muito pelo reino", e considerou "notável" a forma como Caminha tinha sido constituída, porque a vila era um couto e uma póvoa, que o monarca conseguiu unir, terminando com a dispersão existente.
O território de Caminha ia até Valença, pertencendo à coroa toda esta área, mas em termos religiosos encontrava-se integrado na diocese de Tui, não coincidindo, portanto, com a parte política - caso raro ou mesmo único à época, vincou.
De acordo com a análise feita ao túmulo (encontra-se sepultado em Odivelas), as suas bases representavam figuras de ursos, o que tinha lógica porque se sabe que ele era caçador (nomeadamente, com aves de rapina) e até pescador, dando como exemplo um registo do próprio em que é assinalado que apanhou um solhão enorme em Santarém.
D. Dinis era um homem muito culto, trovador, autor de inúmeras cantigas de Amor, Escárnio e Mau Dizer, fundador da primeira universidade, tendo-se distinguido por ser um homem "destemido", tendo cortado as bases à aristocracia, e ficado igualmente conhecido por ter estabelecido a assistência judicial gratuita e evitado que os advogados protelassem os processos (situação que se inverteu ao longo dos séculos seguintes, anotou com alguma ironia).
"Era muito pragmático"
Mais do que um agricultor, D. Dinis ficou assinalado como sendo um povoador, levando a que até final do século XV Portugal fosse a "monarquia mais bem organizada da Europa".
Em 1289, foi o primeiro monarca a aprovar uma concordata com a Santa Sé, definindo os bens temporais e teológicos.
Dentro do seu pragmatismo, considerou que a definição dos limites territoriais com Castela, através do Tratado de Alcanizes, se tornou muito mais beneficiosa para Portugal, classificando essa jogada diplomática como um "assalto à mão armada". Atribuiu-lhe ainda a capacidade para criar a Marinha de Guerra portuguesa.
O seu relacionamento com a família não foi das melhores.
A sua mulher, apresentada como sendo boa pessoa, em contraste com o marido (um diabo), foi a primeira rainha a ser presa pelo rei por estar a financiar o filho Afonso na guerra contra o monarca. Sublinhou, contudo, o papel das mulheres no reinado, porque em todos os actos notariais aparecia sempre o seu nome em qualquer negócio, ao contrário da ideia que prevalece de que elas apenas intervinham nos actos da corte.
Muitos filhos bastardos
Era conhecida a sua profícua paternidade fora do casamento - por alguma razão o relacionamento do casal não era o melhor -, tendo apontado o caso de um dos seus descendentes ter resultado de uma relação extra-matrimonial numa noite de S, João, passada na cidade do Porto. Não há constança (documentação) de idêntica situação em Caminha, referiu, assim como desmentiu a ideia de que o Pinhal do Camarido tivesse sido plantado por sua ordem. Embora atribuísse importância às crenças populares, da qual resultaria esta ideia formada em Caminha. Eventualmente, teriam sido os próprios habitantes que o fizeram no intuito de proteger as suas colheitas da veiga de Cristelo, segundo conseguimos apurar.
"A minha relação muito grande com Caminha"
Esta historiador revelou aos presentes uma faceta da sua vida de arqueólogo, ao referir-se à sua participação nas campanhas arqueológicas, pela mão do Prof. José Marques, orientadas pelo Prof. Armando Coelho da Silva no início dos anos 80, na Cividade de Âncora e no Castro do Coto da Pena.
Apelou a que fosse publicado o Foral de D. Dinis.